quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Cheias de 1967

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A maioria das pessoas dos sectores mais politizados da universidade, num momento de transição e radicalização que acabava com o refluxo da crise das prisões de 1965, conhecia muito mal o país. O inquérito da JUC [Juventude Universitária Católica] feito nesses anos revelava que apenas 4% dos estudantes universitários vinham de meios operários e camponeses e, no caso de Lisboa, não havia o forte recrutamento da província que existia em Coimbra pelo que a maioria tinha, quando muito, uma experiência urbana e mesmo essa parava à porta da Lisboa dos bairros de lata. A politização, por muito que fizesse as pessoas falar dos "operários e dos camponeses", esses entes, como aliás a maioria dos portugueses pobres, passava ao lado de uma sociedade desigual e fortemente classista
Em certos cursos esse acantonamento social era ainda mais evidente, como era o caso de Direito. Recordo-me de Marcelo Caetano na aula de apresentação nomear os alunos um a um e comentar "não foi o seu tio que esteve aqui há uns anos?", e "conheço muito bem o seu pai", "já cá teve um irmão, não é verdade?" e por aí adiante. A elite do país reproduzia-se em sossego naquelas salas e anfiteatros
As cheias de 1967 foram um choque neste mundo estofado e confortável e arrastaram uma aliança entre estudantes católicos e ferozes ateus marxistas-leninistas para irem para a zona da tragédia fazer o que podiam. Nem sequer os rodriguinhos de "ir ao povo" funcionavam, nem sequer o desprezo pela "caridadezinha" - era pura e simplesmente ir ajudar a parte de trás de Portugal, que era afinal quase todo o Portugal, representado naqueles mortos enlameados e nos sobreviventes igualmente enlameados das margens do Tejo. O choque foi brutal, até porque ali se percebia tudo sobre um Portugal que muitos viam apenas na retórica política e agora percebiam justificar ainda mais a revolta, sem ser pelos livros, mas pela realidade. Aquele país de mortos por contar, aquele país de vivos miseráveis, aquele país que deliberadamente se tentou esconder por todos os meios, era o Portugal imperial que terminava no ponto mais alto de "Portugal", o monte Ramelau em Timor. Se era assim cá, a meia dúzia de quilómetros de S.Bento, como seria tudo o resto? Eu vi

José Pacheco Pereira, As cheias de Lisboa, in Sábado nº709, 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2017, p.16.

Ousadia face ao aquecimento global

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Na mais recente edição do GPS, o registo de que os três americanos mais ricos têm mais dinheiro do que 160 milhões de seus concidadãos (sendo que, pelo menos, um deles, Warren Buffet se mostra desagradado com a situação, sendo subscritor de um manifesto, com outros milionários, contra a baixa de impostos aos mais ricos que faz parte do programa de Trump); a noção de que os países, segundo o mais recente relatório da ONU, vão ter que reduzir muito mais do que estava previsto as suas emissões de dióxido de carbono se não queremos que a temperatura aumente mais de 2ºC até 2100; uma ideia tecnológica, decorrente ou por analogia com o que sucede com as emissões vulcânicas, foi apresentada por um reputado Professor de Física e Política Pública de Harvard, David Keith: o dióxido de enxofre enviado para a estratosfera que passa a gotículas de ácido sulfúrico que refletem luz solar. Ao ajudarem a refletir luz solar, as partículas ajudam a arrefecer o planeta. Com a erupção no monte Pinatubo (1991), o mundo arrefeceu durante um ano. A produtividade das plantas e dos ecossistemas aumentou. O desafio é como colocar partículas na atmosfera que tenham o mesmo efeito. Keith quer utilizar aviões para libertar um aerossol para o conseguir. A ideia era enviar aviões de um ou dois aeródromos perto dos trópicos e acumular-se-iam na estratosfera essas partículas que reflectiriam essa luz solar. Não seria uma solução milagrosa, mas reduziria os riscos do dióxido de carbono acumulado. David Keith considera que é provável que as temperaturas se reduzissem mesmo. A intensidade das tempestades extremas, a nível regional, poderia ser contida, como os ciclones tropicais que prejudicam muito os mais pobres. Também reduz as ondas de calor e o degelo. "As provas científicas de que estas tecnologias podem reduzir os riscos são muito fortes", afirma o académico. Todavia, não se conhecem as consequências de colocar essas partículas na atmosfera. Há muitas incertezas, efeitos secundários que poderiam advir, problemas. Conclui o responsável pelo programa da CNN, Fareed Zakaria, com tantas incertezas, seria de tentar, mesmo que principiando por experiências em zonas delimitadas.

P.S. Além de Buffet, estão no pódio dos americanos mais ricos Bill Gates e Jeff Bezos. Entre os 60% mais pobres nos EUA, a mortalidade tem aumentado; os 40% mais ricos tendem a apostar o quádruplo em educação. Gastam o quádruplo em educação, perpetuando desigualdades. 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"A que espécie pertencemos?"


Quando Darwin e Wallace apresentaram a ideia de selecção natural, foi discutido se algumas das nossas características «superiores», como a moral, a consciência de nós mesmos, o simbolismo, a arte e as emoções interpessoais, cavavam um tal fosso entre nós e os animais «inferiores» a ponto de exigirem uma explicação de outro tipo. Inicialmente, Wallace pensou que não, mas depois mudou de ideias, chegando à conclusão de que existe um salto qualitativo na ordem das coisas que situa as faculdades mais elevadas da espécie humana numa categoria diferente da categoria daquelas características que partilhamos com os nossos vizinhos de evolução. Nas suas palavras: «somos dotados de capacidades intelectuais e morais não necessárias à luz dos requisitos da evolução», e a existência dessas capacidades não podia, por conseguinte, ser explicada pela selecção natural dos mais aptos.  (...)
Reflectindo nisto, parece-me claro que Wallace tinha razão ao colocar a ênfase nas características que pareciam pôr a Humanidade num mundo à parte, embora estivesse certamente errado ao pensar nessas características como «não necessárias à luz dos requisitos da evolução», pois se temos atributos adaptativos, a racionalidade é com certeza um deles. Por outro lado, a racionalidade está, num certo sentido dessa difícil expressão, «na nossa essência». Por conseguinte, Wallace apontava para o facto de nós, seres humanos, mesmo sendo animais, pertencermos a uma espécie que não ocupa um lugar no esquema das coisas comparável ao ocupado pelos outros animais. Aqui a controvérsia filosófica - uma controvérsia paralela à existente entre biólogos e psicólogos evolutivos relativa à importância da cultura - é precisamente uma controvérsia acerca da natureza humana: a que espécie pertencemos?

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.11-12 e 22.

Atual


No seu mais recente livro, A natureza humana (Gradiva, 2017), o filósofo Roger Scruton escreve (p.27): "Não nego que sejamos animais; também não discordo da doutrina teológica que afirma que as nossas funções biológicas fazem parte integrante da nossa natureza enquanto pessoas humanas e também são objecto de escolhas morais fundamentais". Neste passo, remete para a seguinte nota de rodapé do fim de página: "esta perspectiva foi defendida de forma eloquente pelo papa João Paulo II na encíclica Veritatis Splendor, 6 de Agosto de 1993, secções 47 e segs.".
Serve esta brevíssima anotação para mostrar como - tal como registáramos, no último livro de Luc Ferry, 7 lições para ser feliz, também publicado este ano, e no qual o filósofo mostrara ter um conhecimento claro da encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI - relevantes pensadores, destes nossos dias de finais da segunda década do século XXI, mesmo partindo de mundividências divergentes entre si, continuam atentos, lendo e estudando, o que a partir do Magistério católico se oferece como reflexão sobre o humano. Neste caso muito particular a que se refere Scruton, à indivisibilidade alma-corpo, à recusa do esquema dualista (antropológico) e, por consequência, pois, do corpo - "Uma doutrina que separe o acto moral das dimensões corpóreas do seu exercício, é contrária aos ensinamentos da Sagrada Escritura e da Tradição: essa doutrina faz reviver, sob novas formas, alguns velhos erros sempre combatidos pela Igreja, porquanto reduzem a pessoa humana a uma liberdade «espiritual», puramente formal" [nº49, Veritatis Splendor] como lugar de escolhas morais, pois que a «alma (...) se exprime no corpo e [o] corpo [é] informado por um espírito imortal» [nº50, da Veritatis Splendor]. 
Se de outras àreas do saber, muitas vezes sem qualquer ponderação, se coloca fora uma tradição, uma mundividência absolutamente marcante e decisiva a Ocidente, com a alegação de religiosa - como se isso significasse capitis deminutio na cidade -, partindo de compreensões obsoletas dos principais significados que uma comunidade atribui ao que acredita, há quem não se deixe  impressionar com preconceitos que nada devem a uma busca de um olhar sempre ampliado sobre as coisas e o mundo. E, neste sentido, também para o interior dessas comunidades se pode aqui falar, de modo analógico, com o que Ratzinger dizia, quando dizia que não deviam ser os crentes a viver etsi Deus non daretur, mas os descrentes a viver etsi Deus daretur. Nada raramente, há mais interesse, pelos textos provindos desta mesma Tradição, fora da mesma, do que eles são lidos e conhecidos no seu interior (pelos que enformam esse interior).

Um bordão

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Numa carta de Martin Heidegger para Hannah Arendt, a 8 de Maio de 1925 [na edição da Guerra e Paz, 2017, com tradução de Marco Casanova e adaptação para o português de Portugal de Helder Guégués, Cartas 1925-1975, p.30]: 

Seguir silenciosamente junto de ti, sentir a tua adorável mão e o teu grande olhar...Não perguntar para quê e porquê, mas apenas «ser».


[na frase que sublinhámos a negrito, um dístico que Romano Guardini remetia como essência da liturgia, um bordão que Tolentino de Mendonça nos recorda, sobre a vida, com assiduidade]

domingo, 26 de novembro de 2017

Em equação e em mudança

IDEOLOGIAS DO PRESENTE


NOVOS MAPAS DO TERRITÓRIO

Ainda nos recordamos do insistente refrão que referia a pós-modernidade como a época do fim das ideologias e das grandes narrativas. Essa estação, porém, está a ser ultrapassada e, no que às ideologias diz respeito, assiste-se à recomposição plural do mapa do território. É importante não demonizar as ideologias, pois elas representam encruzilhadas a que a nossa humanidade vai chegando no seu saber, desejo, certezas/incertezas, vulnerabilidade. Mas é fundamental que as ideologias se deixem criticar e complementar, mantendo a porosidade necessária para uma revisão dos próprios processos. Elas são ferramentas de construção da realidade social e o naufrágio a que nos conduziram em outras fases da história (algumas bem recentes) exige responsabilidade e prudência. 
Em que cenário emergem estas novas ideologias? Como é patente aos nossos olhos, trata-se de um cenário de fragmentação. Uma das dificuldades da hora presente é mesmo que as nossas sociedades se parecem mais com a heterogeneidade de um mosaico desencontrado, do que a uma imagem agregadora e unitária. Instalou-se, além disso, no pensamento contemporâneo uma repartição em disciplinas com um elevadíssimo grau de especialização. E já o filósofo Ortega y Gasset alertava para a barbárie que a especialização pode representar, pois absolutiza o pormenor, incapaz de uma visão antropológica e cosmológica de carácter global. O risco é cairmos numa rede de reducionismos vários que capturem o debate público e a vida comum
Cinco ideologias (chamemos-lhe assim, mesmo reconhecendo a ambiguidade e os limites desta designação) ganham cada vez mais espaço. Uma primeira é o trans-humanismo, que entende o ser humano como pura transição. Como tal, distingue três fases: a do ser humano (que é o ser humano nas suas condições naturais de origem), a do trans-humano (que é o ser humano alterado e melhorado nas suas capacidades por meio da técnica) e o ser pós-humano (um ser tão extraordinariamente alterado que já não pode ser classificado como humano, mas é um produto utópico da biotecnologia).
Uma segunda ideologia é o animalismo, que aposta na implosão de qualquer diferença substantiva entre homem e animal. A diversidade é explicada unicamente como gradual ou acidental e não como ontológica. Nascem daqui as teses radicais que vão na linha de uma quase equiparação entre os direitos dos animais e os dos humanos.
Uma terceira ideologia é o neurocientismo, que não se deve confundir com as neurociências. As suas raízes terão de ser procuradas no materialismo que encara o ser humano como uma espécie de máquina, com distintos componentes e estruturas que constituem um todo complexo, mas que não é capaz de verdadeira liberdade. Pelo contrário, onde julgamos que há uma acção livre, o que temos é um predeterminismo observável nos circuitos neuronais.
Uma quarta ideologia é a teoria do género, que hoje se manifesta com reivindicações públicas, políticas e éticas de grande impacto. Nesta visão a condição sexual converte-se numa opção que se pode tomar e alterar, pois é parte da vontade humana escolher que condição sexual assumir.
Uma quinta ideologia reporta-se àquilo que Gianni Vattimo chamou pensiero debole (pensamento débil). Um dos seus traços é a consideração de que não há propriamente uma substância ontológica na nossa humanidade. Ela é sim um recetáculo que recebe estímulos de todo o tipo e que vão configurando no tempo. Desse modo, nós somos o que lemos, o que comemos, o que consumimos. E a vida torna-se uma inevitável categoria líquida, onde o processo se sobrepõe à forma.

José Tolentino de Mendonça, Novos mapas do território. Que coisa são as nuvens, Revista do Expresso, Expresso 25-11-2017, p.94


Cegueira e cupidez

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A 20 de Março de 2003 começavam os ataques da ofensiva americana a Bagdade ou Operação de Libertação do Iraque. O nome depende da zona do globo onde se vive. Para Luís Barreiros, então embaixador em Bagdade, a guerra libertou os iraquianos de um ditador mas deixou-os num vazio de poder. "Depois da guerra, Bush disse que o mundo estava mais seguro. Não sei de que mundo está a falar", diz, recordando que o Daesh cresceu a seguir ao conflito
Seis dias antes, Portugal tentava ficar na fotografia do lançamento da ofensiva militar. A cimeira dos Açores, organizada por Durão Barroso, juntou José Maria Aznar, Tony Blair, George W.Bush para fazerem a declaração de guerra. Na capital iraquiana, o embaixador era apanhado de surpresa: "Fiquei preocupado porque tive dificuldade em perceber o que Portugal tinha que ver com aquela guerra". Pedi orientações a Lisboa que "não respondeu nada de especial".
Do outro lado do mundo, Pedro Catarino, embaixador em Washington, foi avisado pelo primeiro-ministro. "Durão Barroso não teria sido presidente da Comissão Europeia se não tivesse o relacionamento que tinha com Bush. Era um bom relacionamento. A relação entre a UE e os EUA é fundamental e convinha aos líderes europeus terem um presidente com um bom relacionamento com o Presidente americano".
O pós-guerra provocou um assalto dos empresários à reconstrução. Itália e Espanha foram dos países mais ávidos na corrida, mas vários empresários nacionais também tentaram a sua sorte. "Houve um gabinete em Bagdade criado pelo ministro Martins da Cruz para isso. Na primeira visita foram 10, mas não sei se os negócios se concretizaram", revela Luís Barreiros. O mais conhecido dos investidores era a Sonae Sierra que tentava fazer negócios através de um centro de distribuição que tinha na Síria. 

Carolina Reis, Os nossos olhos pelo mundo, Revista do Expresso, p.40. Expresso nº2352, 25-11-2017

sábado, 25 de novembro de 2017

Indústrias Criativas

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Carlos Abrunhosa de Brito, da ADDICT, esteve, na tarde de ontem, em uma sessão organizada pela UTAD, integrada no Douro Creativ Hub, na Biblioteca Municipal de Vila Real, perante uma plateia composta por uma faixa etária bastante jovem, fazendo a apologia da aposta nas indústrias criativas. Mobilizando dados de 2012 e recorrendo ao mais recente estudo, de Novembro de 2016 (mas, segundo o conferencista, mau grado o esforço de voluntariado, em universidades ou autarquias, por si realizado, ainda muito pouco conhecido e fora da agenda política e mediática), coordenado por Augusto Mateus, sobre esta tais indústrias, deu nota de que estas, em Portugal, geraram uma receita superior a 5 mil milhões de euros (dados de 2012) e empregaram 147 mil pessoas.
No interior do sector das indústrias criativas, o peso das artes performativas é muito substantivo. A economia criativa surge em um contexto cultural de forte autonomia dos jovens, grande capacidade de mobilidade - pelo menos, quando comparada com tempos pretéritos e por banda de, pelo menos, uma parte da população -, muita informação disponível e crescente exigência das pessoas (e dos consumidores).
Durante o período da troika em Portugal, a economia criativa mostrou grande resiliência, contrariando aqueles que foram os resultados globais, no mesmo período, da economia portuguesa.
Economia criativa, esta, todavia, que se encontra muito - diríamos, demasiado - concentrada nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto (mais de 67%).
As exportações das indústrias criativas cresceram 38% desde 2007 (passando a representar 4%, face aos anteriores 3,5% das exportações portuguesas). De resto, a partir de 2012 passamos a exportar mais do que a importar, neste domínio.
Nestas exportações, um grande destaque merece o design de móveis e as porcelanas. Móveis de luxo, com um design muito apelativo saem de Portugal com um grande valor acrescentado e num mundo tão heterogéneo há sempre gente para comprar tais produtos, sendo aqui, então, porventura, produzir em enormes quantidades (quem manda produzir, ou compra este tipo de produto - pelo qual, Portugal é conhecido e reconhecido no exterior - sabe da qualidade do que aqui é feito e está disposto a pagar 4/5 mil euros por um pequeno móvel, por exemplo; isto, em determinados países árabes, como o Dubai, é muito evidente).

Ao longo da tarde, a sessão deriveraria pela situação do turismo no nosso país e Carlos Abrunhosa de Brito referir-se-ia, neste âmbito, ao Teatro Nacional de S.João como tendo tido que operar mudanças para que turistas não nacionais possam assistir aos espectáculos. Considerou, mais ainda, que o Porto possui meia-dúzia de equipamentos, não mais do que isso, pelo que os actuais níveis de turismo tenderão a esgotar-se rapidamente - ou se consegue uma outra integração (digamos, de um conjunto de produtos turísticos a oferecer; ou há, portanto, um outro pulsar), ou então esse turismo tenderá a diminuir imenso (numa observação que muito me fez lembrar o que M.M.Carrilho, no livro de entrevistas com J.J.Letria referiu relativamente a Lisboa, a uma ausência de um festival de música a sério, de ópera, etc.). 

O palestrante, questionado sobre a sua actividade privada, falou acerca do que fez enquanto empresário, mas também ao nível do ensino, sendo que conseguiu incrementar as receitas de negócios em que intervém através do ensino puramente online, em plataforma a partir de Londres, com aulas, p.ex., sobre design de móveis. Trabalha em Londres e em Madrid, vive no Porto.

P.S.: Num documento com cerca de 10 anos, de cerca de 20 páginas, que depois reproduzi também neste blog na íntegra, dedicado a Vila Real referia-me a tais indústrias, assim: 


"Está disponível on-line (http://www.serralves.pt/fotos/editor2/inserralves/Estudo%20Macroeconomico%20Relatorio%20Final.pdf) o estudo macro-económico que a Junta Metropolitana do Porto, a Casa da Música e a Porto VivoSociedade de Reabilitação Urbana da Baixa Portuensepromoveram, referente à avaliação da possibilidade de “desenvolvimento de um cluster das indústrias criativas na região Norte” portuguesa.
Insertos em tal marco geográfico, importa atentar no documento em causa. É um texto interessante e merece bem a leitura: faz o diagnóstico, descrevendo constrangimentos e potencialidades; identifica oportunidades; propõe soluções, tudo no quadro das infra-estruturas, instituições e recursos humanos susceptíveis de alavancar a hipótese enunciada em epígrafe.
Mais centrado, é certo, no Porto e sua área metropolitana, o estudo aponta Braga, a sua demografia, juventude, movida e Universidade como pólo(s) atractivo(s); Guimarães com forte potencial, caso vença, como se espera, o desafio de capital da cultura de 2012; Aveiro com unidades relevantes na aposta em I & D, numa Universidade reconhecida. Depois, bom, depois há um significativo parágrafo sobre Vila Real: “ não obstante a sua posição privilegiada nos cruzamentos do IP4 e IP3, e consequente ligação ao Douro, Centro e Espanha (Chaves-Orense, Bragança-Zamora) não apresenta dinâmicas significativas no que respeita à ecologia criativa, e o esforço de incorporação desta dimensão passaria obrigatoriamente por um forte voluntarismo, sendo que não será de excluir o apoio a todas as dinâmicas que surjam nomeadamente nas redes de ligação transfronteiriça, e no que diz respeito á posição privilegiada de Vila Real, como porta para o Alto-Douro vinhateiro”.
Que ecologia, que ambiente criativo é este de que estamos privados? Comecemos por uma definição simples. Indústrias Criativas são a Arquitectura, Publicidade, Artes Visuais e Antiguidades, Artesanato e Joalharia, Design, Cinema, Vídeo e Audiovisual, Artes Performativas, TV e Rádio, Software e Serviços de Informática. Uma boa ecologia local exige galerias, museus, auditórios, programação cultural – e esta reclama rede de espaços e serviços; locais para ensaios, ateliês, territórios de trabalho devidamente equipados; acesso a financiamento especializado (existência de recursos públicos); moradas onde os profissionais se possam encontrar, partilhar e construir relacionamentos que contribuam para a troca de ideias e ainda um sentimento de propriedade, dos criadores, sobre tais edificações, permitindo-lhes imprimir a sua identidade. A inclusão de aposta em I & D – o exemplo dado é Braga nas engenharias de materiais e de polímeros – é crucial. E espaços não monotemáticos, mas lugares interdisciplinares de encontro. Fundamental, do mesmo modo: uma robusta parceria autarquia-universidade. “O poder político deve fazer o papel de motor de arranque (legislação, infra-estruturas, derrube de barreiras físicas e jurídicas, apoios, enquadramento fiscal)”.
12 – “A criatividade daqueles que habitam e lideram uma cidade determina o seu futuro”, pode ler-se, sem surpresa, no relatório final, da elaboração vinda de mencionar.
Um exercício de cidadania passa, pois, também, por aqui, pelo momento de proposta.
Sofrendo um vasto conjunto de obras, nos anos mais recentes; com equipamento audiovisual disponível; know-how feito de experiência, a zona do Pioledo, em Vila Real, mais concretamente a sua antiga sala de cinema, bem poderia ser alvo – se se procurasse promover um entendimento alargado entre os detentores de tal área de jurisdição – de uma parceria publico-privada, que pudesse recriar o local (se precisássemos de alguma inspiração, evocaríamos a sala Passos Manuel, no Porto, reformulada, igualmente nos últimos anos, com inegável vantagem face ao estúdio anterior; ainda que em Vila Real, obviamente, um espaço sob outras formas, linhas e cores, projectando a arquitectura, os criadores locais). Seria paisagem multiforme, de cinema e de teatro; de exposições e artes performativas; de concertos – a música ao vivo vai ganhando relevância ao nível da facturação da respectiva indústria, como se refere no dito estudo – conferências. A perspectiva não monotemática vingaria.
De resto, a forte inclinação da cidade para a margem do Teatro Municipal e do moderno centro comercial a ele contíguo, e, bem assim, dos jardins junto ao Corgo suporiam, numa lógica de harmonização das várias “geografias” e “clusters” da cidade, uma aposta neste sentido.
Porventura melhor ainda, mas talvez com custos acrescidos, um imóvel com a caracterização descrita, não já na zona anteriormente mencionada, mas no centro histórico vila-realense, desertificado no ocaso de cada dia, despido de gente e alma, sem vida. Uma das prioridades acometidas ao consórcio que efectuou o estudo passou, aliás, grandemente, pelo ultrapassar dessa irreversibilidade de abandono e degradação dos centros históricos, onde a visão preconizada pudesse vir a gerar um conjunto de intervenções públicas (o documento foi pródigo nos exemplos britânicos de recuperação de tais locais; um leitor de Orwell, não terá deixado de notar como n´O Caminho para Wigan Pier, Sheffield já não é um espelho de horrores, mas um bom aluno de uma requalificação que pode ensinar-nos)".

Sociedade civil e educação


Associações de tipo filantrópico, ou think tank, oriundas da sociedade civil, em Portugal, para a área da educação (num ou noutro caso, não exclusivamente, mas com essa matéria como alcançando relevo no âmbito educativo):

*Edulog
*AQeduto
*Contraditório
*Século XXI
*FFMS

P.S.: interessante de ver, nalguns destes casos, quem integra os órgãos diretivos, ou consultivos, o escopo pretendido com o think tank, a capacidade de influenciar políticas, o acesso aos principais decisores, a composição/filiação partidária dos seus membros.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

À lareira

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O seu doutoramento envolveu um trabalho de campo em Rio de Onor.

Uma aldeia onde tive o maior conhecimento sobre mim próprio, sobre o humano, sobre Portugal. Era um espaço rural, uma sociedade plena de trabalho, que produzia o seu tempo, o calendário. E foi o lugar onde provavelmente mais aprendi sobre o funcionamento de uma sociedade, dos indivíduos dentro dela, ou das relações com os envolventes, o poder ou o Estado
Mas também as vertentes mais íntimas, que se transmitem através dos sonhos, das histórias que se contam à lareira, toda essa esfera menos materializável e dita, por ser tão própria do viver de cada um. Quando chegamos a esse território da inutilidade estamos no âmago de uma sociedade. E que é tão essencial, na relação com o Outro, com o cosmos.

Joaquim Pais de Brito, entrevistado por Maria Leonor NunesJL nº1230, ano XXXVII, pp.23-26.

Do conhecimento de Portugal


Portugal conhece-se mal hoje?

Conhecia-se melhor talvez há 50, 60 anos, nos tempos obscuros do fascismo, da ditadura, em que havia um conjunto de atravessamentos do país por muitos intelectuais, não apenas das ciências sociais, como do teatro, do cinema e de outras linguagens. E que o interrogaram de uma forma mais densa do que hoje o conhecemos. Sabemos apenas de uma forma esquemática da existência desse desequilíbrio, porque o Instituto Nacional de Estatística nos dá esses dados concelho a concelho. Mas falta um conhecimento mais íntimo e que não são as questões de reconhecimento como património imaterial que resolvem. Essas são apenas um pequeno manto diáfano de fantasia sobre a nudez que lá vai...

Joaquim Pais de Brito, entrevistado por Maria Leonor NunesJL nº1230, ano XXXVII, pp.23-26.

O poder encantatório da voz

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A oralidade implica a proximidade física das pessoas, a sua descoberta. E tem um lado encantatório, desde logo porque tem a ver com a voz. E a voz é em si mesma outra categoria perturbadora e fascinante. Podemos, por exemplo, fazer uma reflexão sobre a História dos regimes autoritários e das democracias, se fizermos uma análise da voz, da forma como foi amplificada ou como foi usada e associada a determinadas expressões faciais, a certos gestos, por ditadores ou homens que querem seduzir a sua população ou por populistas. Não é por acaso que a questão da voz está sempre a saltar nas páginas do livro e não só quando falo do som. Mas no universo onde cresci, também salientaria outra questão: a curiosidade.

Joaquim Pais de Brito, entrevistado por Maria Leonor Nunes, JL nº1230, ano XXXVII, pp.23-26.

Homogamia


Branko Milanovic dá conta de outra causa curiosa, normalmente apontada, para o aumento da desigualdade no mundo, nas últimas décadas: hoje em dia, a homogamia será bastante maior do que nas décadas de 50/60. Grupos sociais investidos em profissões altamente especializadas e muito bem remuneradas tendem, hoje mais do que ontem, a nível internacional, a contrair matrimónio entre si.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Convocar leituras/conhecimento à cidadania (III)


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Crónicas semanais na universidadefm:

Tempos de pessimismo

A modernidade criou promessas (como se não houvesse constrangimentos à sua efectivação) de emancipação (individual, mas também colectiva) que não conseguiu concretizar. A civilização democrata e liberal, de indivíduos (emergentes, supostamente) cultos e endinheirados não teve a eficácia almejada. Em muitas sociedades, a combinação de uma apertadíssima competição, a rápida obsolescência dos indivíduos (ou, pelo menos, das capacidades destes) e o seu consequente carácter supérfluo (quando não ao encontro do que a sociedade comercial dos seus dias reclama), a ansiedade do status (e de poder) por concretizar (despida esta, ainda para mais, das amarras, ou, paradoxalmente também, do conforto de sistemas de castas, fossem estas propriamente ditas/formalizadas, fossem materialmente presentes nas sociedades), o aumento da riqueza mas a sua repartição excessivamente desigual; a perda das filiações (instituições que ancoravam a pessoa) e do sentido de pertença; as ambições, esperanças, expectativas, a ideia de progresso - tudo por cumprir e a desmoronar-se (passando-se para a ideia de retrocesso dos níveis de vida, muito presente nos nossos dias); a globalização e seus perdedores; as religiões ou a família, a comunidade depreciadas/menosprezadas fizeram com que estes abalos sísmicos de um mundo plano na vivência do espaço-tempo encontrasse um protagonismo desmedido para o ressentimento que, em se tendo sentido no Ocidente logo no pós-Revolução Industrial, gerando um conjunto de massas alienadas e prontas à glorificação da violência, encontram, hoje, num mundo completamente interligado, o seu semelhante mesmo no dito outro civilizacional: para os que não conseguem pensar fora das reduções binárias, torna-se difícil, porventura, compreender o porquê das semelhanças entre as práticas apocalípticas dos ditos fundamentalistas de hoje - com certeza, com as suas especificidades e idiossincrasias; a história não é pura repetição -, com contornos paralelos aos de há cem anos (a Ocidente) e mesmo no séc.XIX (explosões em cafés de Paris, com seus kamikazes ocidentais de então). O ponto (político), para o intelectual indiano Pankaj Mishra, autor de Em Tempo de raiva. Uma história do presente, publicado pela Temas e Debates, é o do ressentimento e a manipulação e aproveitamento de líderes de pouca espessura intelectual, mas furibundos trauteadores dos bodes expiatórios que a massa produzida espera convocam o caos e o sem lugar para o qual se dirigem.
Notas a fixar: as promessas desmedidas com que o político - de todos os quadrantes ideológicos - semeou desmesuradas expectativas (naturalmente, por cumprir);
quando a riqueza, o conforto material não surge, e em mais nada consistindo a felicidade segundo o novo dogma, e em se transmutando todas as alternativas de sabedoria outras (deitadas para o caixote de lixo da história, com a prudência de um elefante na sala de jantar), restará o ressentimento (a cólera, a raiva, a inveja, o ódio) como reacção. As soluções abstractas (sem atender ao que cada espaço se poderia melhor aplicar), os homens miméticos ("a construção da nação e do Estado na era pós-colonial foi um projecto grandioso: centenas de milhões de pessoas foram convencidas a rejeitar - e muitas vezes a desdenhar - um mundo vindo do passado que existia há milhares de anos e a lançarem-se num jogo de risco que criaria cidadãos modernos, que seriam laicos, esclarecidos, cultos e heróicos", p.155) por todo o globo, soluções estas como que representando um (actualizado) património dos filósofos das luzes aplicado à escala global (contra esta abstracção já se levantara Tocqueville), levou ao desenraizamento de tantos;  uma tradição mandada borda-fora (e colocada, no entender de outros, também em causa, em um mundo interdependente e com migrações em grande escala), sem suficiente ponderação, em sociedades que descuram qualquer equilíbrio (ou balizas, qualquer noção forte de Bem para além de Justo, mesmo a nível societal que não seria, necessariamente, o do Estado); a glorificação de um individualismo sem individualidade, dos agentes egoístas e racionais (redutora descrição do humano); a redução da pessoa a indivíduo, numa sociedade puramente comercial e competitiva; uma globalização que, tendo diminuído a pobreza, aumentou a desigualdade no interior dos países e levada a uma expansão que coloca em causa a própria democracia; a queda das instituições, da comunidade, da imaginação (quer dizer, de qualquer ideal, de qualquer ideia outra, o fim do sonho). Os tempos vão pessimistas – ou, se se preferir, realistas face a um pretérito optimismo cândido -, com noções como “progresso” a desaparecerem, a ideia de uma história com uma dada finalidade inscrita em si a passar por relíquia de antiquário, o desmoronamento da cultura, a dúvida sobre o futuro da democracia ou da civilização: em suma, em duas ou três décadas tornámo-nos cépticos.

Boa semana.

Pedro Miranda 

Convocar leituras/conhecimento à cidadania (II)

Resultado de imagem para Homo Deus

Enquanto mexia em papéis antigos, recordava sínteses com meses, nas crónicas semanais que fui fazendo na rádio. Deixando, aqui, em diferentes posts, sublinhados dos livros que me foram essenciais ao longo do ano, todavia, a rádio - como seria a crónica no jornal - obriga à sistematização e a um pequeno acrescento, uma nesga de luz que se ousa. Esta semana, Paulo Rangel, no Público, falava de Yuval Noah Harari, em Homo Deus, como já um clássico. A este, mas ainda mais do meu agrado - por exemplo, Harari, no que às imagens de Deus diz respeito, fica-se por um tradicionalismo e por concepções que foram populares mas estão, felizmente, ultrapassadas ao nível teológico, pelo que as conclusões não se seguem necessariamente, do mesmo modo que por vezes surge um tanto optimista, talvez em demasia, no que à fome, peste e guerra diz respeito -, somo, sempre, A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq (que, tendo saído há uma década, e inscrevendo-se no registo romanesco - se bem que futurismo, e, portanto, ficção há, também, em Homo Deus), penso que continua com uma frescura essencial para compreender estes nossos dias). Segue-se, então, uma das duas crónicas de rádio que dediquei a Homo Deus.


Biopolítica

Epicuro dizia que de nada valia orar aos deuses, sendo a felicidade o único motivo da existência. À época, uma blasfémia; hoje, o autoflorescimento – como exclusivo leit-motiv da vida – tornou-se concepção dominante ou hegemónica. Diferentemente do filósofo grego, os pensadores modernos entenderam que a felicidade não se resumia a um objectivo pessoal, mas tratava-se de um desígnio coletivo. Neste sentido, aliás, o Estado de Bem-Estar foi, originalmente, planeado no “interesse da nação e não no dos indivíduos necessitados” (p.43). Para Bismarck, no final do séc.XIX, com o estabelecimento, inédito, de pensões e segurança social estatal, o desiderato era alcançar a lealdade dos cidadãos e não, propriamente, aumentar a qualidade de vida das pessoas.
Se é certo que a Declaração de Independência dos EUA faz menção à felicidade, esta perspectiva-a como direito à busca da (felicidade) e não direito à (própria) felicidade, o que acarreta(va) diferenças (políticas) de monta: na primeira das formulações, impedir-se-á o Estado de se intrometer na vida de cada um, limitar-se-ia a esfera deste – obrigações de non faccere; no segundo dos casos, em se entendendo que cabe ao Estado a promoção da felicidade (colectiva) dos cidadãos, as obrigações são já positivas (obrigações de faccere).
Perceber, exactamente, o que significará felicidade, nem sempre se afigurará fácil, sobretudo se recorrermos a instrumentos tantas vezes debitados nos media, como o PIB: tendo um PIB per capita muito superior ao da Costa Rica, Singapura, no entanto, vê os seus cidadãos, nos inquéritos internacionais, mostrarem-se muito menos satisfeitos com a vida do que os seus homólogos costa-riquenhos. Os dados internacionais, neste contexto, não podem deixar de nos fazer reflectir: “apesar da maior prosperidade, conforto e segurança, a taxa de suicídios no mundo desenvolvido (…) [é] também muito mais elevada do que nas sociedades tradicionais” (p.45). Ilustrando, vemos que no “Perú, Guatemala, Filipinas e Albânia (países em vias de desenvolvimento e com instabilidade política), em cada ano suicida-se uma em cada cem pessoas. Em países ricos e pacíficos como Suiça, França, Japão e Nova Zelândia, anualmente tiram a vida a si mesmas vinte e cinco em cada 100.000 pessoas” (p.45).
Sabemos que a felicidade se jogará em uma dimensão psicológica e, também, no plano biológico. No primeiro dos casos, a relação que estabelecemos com as expectativas (que vamos formulando) determinarão o nosso grau de felicidade. No segundo dos âmbitos, estaremos moldados pela nossa bioquímica. Ora, se assim é, então muitos sugerem que para aumentar a nossa felicidade devemos manipular a bioquímica humana (para além de se insistir, hoje por hoje, na mudança na didáctica e pedagogia nas escolas, “pela primeira vez na história, pelo menos alguns, acreditam que seria mais fácil mudar a bioquímica dos alunos”; 12% dos soldados norte-americanos no Iraque e 17% dos que se encontravam no Afeganistão tomavam comprimidos para dormir, ou anti-depressivos para lidar com a depressão e a angústia da guerra). Em 2009, metade dos presos das cadeias federais dos EUA tinham ido para à prisão devido às drogas; 38% dos detidos italianos estribavam na mesma causalidade; 55% dos presos do Reino Unido padeciam de igual problema. Assim, a realidade com a qual nos deparamos é que “o Estado confia conseguir regular a busca bioquímica da felicidade, ao separar as «más» manipulações das «boas». O princípio é claro: as manipulações bioquímicas que reforcem a estabilidade política, a ordem social e o crescimento económico são permitidas e até fomentadas (por exemplo, as manipulações que acalmam as crianças hiperactivas na escola, ou que fazem os soldados avançar na batalha). As manipulações que ameacem a estabilidade e o crescimento são proibidas (…) À medida que a busca bioquímica da felicidade se acelere, remodelará a política, a sociedade e a economia e será cada vez mais difícil controlá-la” (p.53).
Grande parte do que agora podemos aqui ler fora antecipado, desde há muito, em Regras para o parque humano, de Peter Sloterdijk, um livro tão provocador como capaz de um diagnóstico cultural que, em boa medida, parece a caminho de cumprir-se. Veja-se a seguinte descrição, de Yuval Noah Harari, sobre como, hodiernamente, se encara a procura da felicidade: “a solução bioquímica consiste em desenvolver produtos e tratamentos que proporcionem aos humanos um sem fim de sensações prazenteiras, de modo a que nunca nos faltem. A sugestão de Buda era a de reduzir a nossa ânsia de sensações agradáveis e não permitir que estas controlem a nossa vida (…) Hoje em dia, a humanidade está muito mais interessada na solução bioquímica. Não importa o que digam os monges nos Himalaias, ou os filósofos nas suas torres de marfim; para o gigante capitalista, a felicidade é prazer. Ponto. (…) Tanto a investigação científica como a actividade económica orientam-se a este fim, e cada ano produzem-se melhores analgésicos, novos sabores de gelados, colchões mais cómodos e jogos mais aditivos para os nossos smartphones, de modo a que não padeçamos de nem um só instante de tédio enquanto esperamos o autocarro” (p.55). Contudo, gelados e telefones inteligentes não bastarão e, no limite, será a remodelação do homo sapiens que se visará (a ascensão a deuses), através de: a) engenharia biológica (não haveria razão, segundo este posicionamento, para que o sapiens seja a última estação); a engenharia cyborg (fusão do corpo orgânico com dispositivos não orgânicos, como mãos biónicas, olhos artificiais, ou milhões de nanorrobots, que navegarão pela nossa torrente sanguínea, diagnosticarão problemas e repararão danos: “um cyborg poderia existir em numerosos lugares ao mesmo tempo. Uma médica cyborg poderia realizar operações cirúrgicas de emergência em Tóquio, em Chicago e numa estação espacial em Marte, sem sair do seu escritório em Estocolmo. Só necessitaria de uma conexão rápida à internet, e uns quantos pares de olhos e mãos biónicas. Mas, pensando bem, porquê pares? Porque não quartetos? De facto, inclusivamente estes são realmente supérfluos. Por que é que um médico cyborg teria que suster na mão um bisturi de cirurgião quando poderia conectar a sua mente diretamente ao instrumento. Talvez isto pareça ficção científica, mas já é uma realidade. Recentemente, uns monos aprenderam a controlar mãos e pés biónicos não conectados ao seu corpo mediante elétrodos implantados no seu cérebro. Pacientes impossibilitados são capazes de mover extremidades biónicas ou de utilizar computadores só com o poder da mente. Se uma pessoa quiser, já pode controlar à distância os dispositivos eléctricos de sua casa utilizando um capacete eléctrico que «lê a mente». O uso do capacete não requere implantes cerebrais. Funciona ao ler os sinais eléctricos que passam através do couro cabeludo. Se alguém quiser acender a luz da cozinha, coloca o capacete, imagina algum sinal mental pré-programado (por exemplo, que a sua mão direita se move) e o interruptor aciona-se. Podem comprar-se estes capacetes pela internet por apenas 400 euros. No início de 2015, a várias centenas de trabalhadores do centro de alta tecnologia Epicenter (Estocolmo) foram implantados microchips nas mãos. Os chips têm o tamanho aproximado de um grão de arroz e armazenam informação personalizada de segurança que permite aos trabalhadores abrir portas e usar fotocopiadoras com um simples movimento de mão. Esperam que em breve possam efectuar pagamentos da mesma forma (…) «na atualidade (…) necessitamos de códigos, pin, contra-senhas: não seria mais fácil simplesmente tocar com a mão?»”, pp.57-58); c) engenharia de seres não orgânicos (produção de seres totalmente não orgânicos: “as redes neurais serão substituídas por programas informáticos com capacidade de navegar tanto por mundos virtuais como não virtuais, livres das limitações da química orgânica. Depois de quatro mil anos a vagar dentro do reino dos compostos orgânicos, a vida saltará para a imensidade do reino inorgânico e adoptará formas que não podemos imaginar nem sequer nos nossos sonhos mais fantásticos” (p.58).
Em realidade, não é possível imaginar-se, agora, com a mente e os desejos que possuímos como será a vida de quem possuirá uma outra mente e desejos, mas podemos concluir que quando e se a tecnologia nos permita remodelar a mente humana o homo sapiens desaparecerá, a história humana chegará ao seu fim e iniciar-se-á um processo completamente novo (p.59). As mudanças surgem a uma velocidade inaudita e nada parece poder deter tal aceleração (nem a morte), e para colocar o pé no travão necessário seria saber onde o travão se encontra.
De acordo com Noah Harari, a nova ordem – felicidade, divindade, imortalidade – serão só para alguns, e nos bairros mais sórdidos permanecerá a eterna luta com a pobreza, a doença e a violência. E mesmo a demanda daqueles novos valores está longe de ser um projecto com a certeza de êxito. Não podemos prever, com certeza, mesmo olhando para o passado. Este, de resto, serve para verificarmos o pouco natural, óbvio, inevitável do nosso estádio: estamos assim, numa dada etapa, mas se olharmos para trás com atenção, poderíamos ter seguido outras linhas, encontrarmo-nos em estações diversas desta, não era inevitável nem óbvio que fossemos assim. Olhar para trás permitir-nos-á, pois, propiciar caminhos diversos da tendência que se encontra agora à nossa frente. Enunciar um caminho, um diagnóstico cultural – como o de uma nova ordem que se vê despontar – surge, ultima ratio, como denúncia dessa mesma ordem, ou, quando menos, de consequências (nefastas) que pode adquirir o novo horizonte.
Num paradoxo tremendo, levar a apologia do humanismo (o culto da humanidade), que nos tem guiado nos últimos 300 anos, até ao seu extremo (alçar, à letra, o humano a deus, capaz de se criar e modificar, por completo), poderá significar o fim desse mesmo humanismo (porque poderia já não ser do humano que falaríamos). Aqui a nuance face a Sloterdijk: onde este vê na falência do humanismo – ler amansa a alma – a necessidade de antropotécnicas, Harari vê nas antropotécnicas o culminar e o apogeu do humanismo que nesse mesmo limite se negaria (a si mesmo, porque com as antropotécnicas mais arrojadas, e até técnicas não ligadas já ao antropos, superaria o humano).

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

"A alternativa de Jesus"



No tempo de Jesus, não temos âmbitos de racionalidade estritamente separados – o religioso, o político, o económico, o cultural -, antes tudo se encontra mesclado. Não há, de resto, sequer, uma palavra aramaica para “religião”. A religião está presente em tudo, inspirando uma dada maneira de viver.

Jesus nunca explica, com um discurso conceptual, o que é o Reino de Deus. Segue o caminho dos poetas, aqueles que rompem a linguagem. Se tivéssemos grandes poetas cristãos, hoje, seriam eles que nos ajudariam a começar a mudar. A vida organizada tal como a quer Deus – isso seria o Reino de Deus.

Reino (Basileia, em grego) é um termo político. Que toda a gente falava para se referir ao Império Romano. Portanto, note-se a expectativa: em vez de “Império Romano” o “Império de Deus” (como alguns já traduzem). E, em vez do dinheiro e do poder, a que Roma e seus principais dignitários atribuíam tanta importância, este “Reino” coloca em primeiro lugar os últimos, os que não têm voz.  Quando dizemos, no Pai-Nosso “venha a nós o vosso Reino”, isso significa que o Reino não está aqui, e, por outro lado, que pedimos, nesta oração, não para ir ao Céu, mas que o Reino possa chegar à Terra.

1º: A compaixão como grande motivo de actuação.
Deus é compassivo: “Sede compassivos como é compassivo o vosso Pai do Céu”. A investigação actual sobre Jesus, por parte de crentes, agnósticos, puros historiadores, chega a esta conclusão: Jesus é alguém que viveu e comunicou uma experiência sã [santa] de Deus. Jesus não desfigurou a imagem de Deus, projectando sobre Ele medos, ambições, fantasmas; a experiência de Jesus é limpa. Jesus nunca fala de um Deus indiferente, longínquo, de costas para o mundo. A Deus interessa tudo o que faz sofrer, ou gozar, os humanos. Jesus não fala em leis de Deus [como a lei natural; algo muito válido, mas tributário da Grécia], antes diz que Deus atrai pelo amor; atrai impulsionando as consciências para o amor; para Jesus, Deus é entranhas, Deus é compassivo. O primeiro que Deus tem por nós é a ternura compassiva. É como o que sente uma mãe grávida face ao filho dentro de si. Nas Cartas de São João, Deus é amor e é verdade: “Deus é amor compassivo”. As grandes parábolas de Jesus – filho pródigo, do bom pai – que mais impacto criaram, que melhor preparou, que mais mexeram com os galileus foram as que transmitiram que Deus é amor compassivo; isto não era um patriarca da Galileia, mas uma mãe, e Deus é assim.
O deus santo do Templo era agradável aos puros, e maldizia os impuros; amigo dos observantes da lei e inimigo dos pecadores; então, Jesus descobriu que naquela sociedade havia muitos discriminados. Os leprosos, os cegos, os mudos não podem entrar no Templo. As mulheres não tinham acesso ao pátio dos varões, pois eram “impuras” (menstruação, etc.). Em vez do “sede santos, como o vosso Deus é santo”, do Levítico, “sede compassivos como o vosso Pai é compassivo”. Deus é grande não por expulsar os pagãos, os impuros, os observadores da lei, mas porque é compassivo com todos; a compaixão é a única maneira de nos parecermos um pouco a Deus, a Jesus: terá de estar sempre no centro das nossas vidas.

2º A dignidade dos últimos como meta. A compaixão vai fazer-te dirigir-te, em particular, aos que sofrem. Jesus tinha a consciência de que aquilo que anunciava era um desafio para todos. Jesus encontrou-se com uma religião que durante séculos havia modelado os costumes e a liturgia dos tempos: era a religião de Moisés. Jesus vai mudando estas convicções: por exemplo, a ideia de “povo eleito” [Israel]. Então, e os outros? O amor de Deus é assim tão pequeno que não caiba nele mais do que um povo? Outro dogma mosaico: a destruição dos pagãos (“os romanos ao mar” [atirar os romanos ao mar]). Outra convicção: Jerusalém teria de ser o centro da Terra. Eles queriam ser a Roma do futuro. Mas Jesus chama-os a acolherem o Reino de Deus: uma vida mais ditosa, mas em especial para os últimos. O Reino de Deus está próximo e há que ter um coração muito mais sensível para com todos, lutar a dignidade das pessoas, as pessoas são muito mais importantes que as coisas, as instituições. Há que organizar a vida a partir dos últimos. Ora, do ponto de vista da religião mosaica, tudo estava à espera de uma intervenção divina que destruísse os ímpios. Jesus não se coloca ao lado do povo eleito contra os povos pagãos; Deus não vai reinar na Terra, destruindo povos. Desde o Oriente e de ilhas longínquas virão pessoas que participarão no Reino de Deus; não se coloca ao lado dos justos contra os pecadores – desde sempre, há pessoas que se crêem santas que pensam que Deus está a favor deles contra os “maus” (os maus são os outros); Jesus pede conversão a todos, santos e pecadores, pois pede que todos se encaminhem em relação aos que mais sofrem.  

3º A actuação terapêutica como programa (curar a vida, de tantos medos e feridas). Não há dúvida de que Jesus dedicou a sua vida aos mais indefesos, aos mais pobres. Jesus por cima dos pobres não põe nada: nem a lei, sua pátria, povo, religião. Nisso, as fontes não deixam lugar a nenhuma dúvida. Essa é a máxima religião. Nisto a sua originalidade é grande. O sofrimento é a grande preocupação: não é o pecado, a moral, a lei; o sofrimento por causa da injustiça e da falta de compaixão; de aí, o abismo para com João Baptista: para este, o pecado era a maior preocupação, oferecendo-lhes uma liturgia de purificação. Mas o Baptista parece que não vê os enfermos, não toca num leproso, não se abeira dos endemoninhados, não se senta a comer com prostitutas, com pecadores, com gente indesejável. Para muitos exegetas, Jesus instaura um movimento religioso, sim, mas religioso-terapêutico. A Jesus preocupava, e muito, o pecado – mais do que a todos nós, e muito mais do que a todos os moralistas -, mas o grande pecado, sobretudo, que introduzamos no mundo sofrimento injusto ou que vivamos indiferentes ao que sofrem as pessoas: isso é que vai contra o coração do Pai. Quando ajudamos uma pessoa a viver melhor, com mais esperança, mais acolhida, menos só, com mais força para viver então aí está o Reino de Deus. Jesus fala da salvação eterna, mas, desde já, se coloca a tonar a vida mais sã.
Para Jesus, os milagres não são fórmulas mágicas para resolver os problemas, mas signos por onde devemos orientar-nos. A questão não são as curas, mas toda a actuação de Jesus que está voltada para criar toda uma sociedade mais sã. Toda a rebeldia de Jesus (52.13mn) face a tantos comportamentos patológicos, doentios, de raíz religiosa. Como falou Jesus contra o legalismo, contra a hipocrisia, contra o rigorismo, contra o vazio de amor. Todo o esforço de Jesus para criar uma convivência mais agradável entre homens e mulheres. Como oferecia grátis o perdão às pessoas mais afectadas, gente destruída por dentro. Como Jesus lhes dizia: “Não tenhais medo!”. Jesus foi um grande “tirador de medos”. O que pensará Deus de pessoas
que têm medo Dele? Deus não quer que ninguém tenha medo Dele. Temos que aprender a conjugar três verbos, que mudariam as nossas paróquias, as nossas comunidades, as nossas vidas: a) acolher – aprender a acolher melhor (há muitas pessoas enfermas por falta de amor, carinho); b) escutar – aprender a escutar pessoas que foram maltratadas ao longo de toda a vida; c) acompanhar – acompanhar o outro, não num momento, mas ao longo da existência. Jesus não imagina os seus discípulos como doutores, hierarcas, liturgistas, mas como curadores/terapeutas. Proclamai que o Reino de Deus está próximo e curai enfermos, tirar o mal das pessoas.

4º O perdão imerecido como horizonte (“Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”). O que mais hostilidade criou foi a amizade com os pecadores: nunca tinha acontecido nada igual. A um homem de Deus vê-se no lugar de culto, no Templo, não a cear com pecadores. Jesus aproximava-se deles como amigo. Não os ameaçava. Não lhes pede nada. Nenhum sacrifício. O que mais escandalizava a todos era a mesa aberta a todos. E Jesus repetia e repetia estes gestos. A reacção das pessoas: i) surpresa; ii) desqualificação: eis um comilão, um bebedor de vinho, um homem que ceia com pecadores.  Em Israel, pagãos comiam com pagãos, fariseus com fariseus, homens com homens. E Jesus um dia disse: “olhai que um dia as prostitutas entrarão primeiro que vós no Reino de Deus”. Pois, iria ao Índice. A sua compassividade substituiu “uma
santidade excludente”. A grande originalidade de Jesus está no acolhimento de todos. Perdão absoluto gratuito. Deus dá o primeiro passo. Ainda que caiamos podemos encontrar-nos com o perdão gratuito de Deus.

Portugal e o cristianismo/catolicismo

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Convocar leituras/conhecimento à cidadania

Resultado de imagem para A desigualdade no mundo+Branko Milanovic


Hoje no reparo do dia, na ufm:

Vencedores e perdedores da globalização

A noção de quem são os vencedores e perdedores da globalização, bem como o estado da desigualdade económica no mundo conheceu, com o recente trabalho de Branko Milanovic - um dos mais respeitados especialistas mundiais na matéria – um incremento substantivo que vale a pena detalhar.
Devemos agora ter a clara noção de que dois grupos, à escala global, saíram vitoriosos, entre 1988 e 2008 – tendências que se terão acelerado entretanto – com o processo de integração e convergência dos mercados: por um lado, as classes médias dos países emergentes asiáticos (predominantemente da China, mas também da Índia, Tailândia, Vietname e Indonésia. Não são as pessoas mais ricas desses países, mas da classe média destes e também o que poderíamos chamar de classe média mundial). Em segundo lugar, os mais ricos que, em termos absolutos, avançaram mesmo mais que as classes médias asiáticas. Esta camada populacional mundial, os 1% mais ricos do mundo, são, predominantemente, cidadãos norte-americanos. As restantes são quase inteiramente da Europa Ocidental, do Japão e da Oceânia. Dos que restam, Brasil, África do Sul e Rússia contribuem 1 por cento cada com as suas populações.
E do lado dos derrotados da globalização? Aí, situaremos, sobretudo, aquelas classe média-baixa e pobre dos países mais desenvolvidos – que, em termos mundiais, porém, pertenciam a uma classe favorecida ao nível dos rendimentos -, que viram a sua riqueza – em particular, os rendimentos do trabalho – estagnar no período em análise. Muitos dos abalos políticos que estamos a assistir, em vários países a Ocidente, dificilmente poderão ser dissociados deste processo. Neste momento, e “pela primeira vez desde a Revolução Industrial há dois séculos, a desigualdade no mundo não está a ser impulsionada por disparidades crescentes entre países. Com os aumentos dos rendimentos médios em países asiáticos, as disparidades entre países têm, na verdade, vindo a diminuir. Se esta tendência de convergência económica prosseguir, não só irá conduzir a uma redução da desigualdade no mundo, como também atribuirá, indiretamente, uma relevância relativamente maior às desigualdades dentro dos países. Dentro de sensivelmente 50 anos, poderemos regressar à situação que existia no início do séc.XIX, quando a maior parte da desigualdade no mundo se devia a diferenças nos rendimentos dos britânicos ricos e pobres, russos ricos e pobres ou chineses ricos e pobres e não tanto ao facto de os rendimentos médios no Ocidente serem superiores aos rendimentos médios na Ásia”, assinala Branko Milanovic, em A desigualdade no mundo. Uma nova abordagem para a era da globalização, publicada pela Actual.
De entre as questões políticas colocadas pelo autor, desde logo duas adquirem especial premência: com estes dados, estaremos condenados a ser governados por populistas ou por plutocratas? Por vezes, diria mesmo, a realidade ainda se torna mais complexa, quando multimilionários, como máximos dirigentes nos EUA, ou, agora, na República Checa se assumem como os grandes guardiães dos mais frágeis, prometendo falsas soluções e mantendo as piores das políticas (veja-se a abordagem ao tema da Saúde, ou ao clima do Presidente norte-americano). Estaríamos, mesmo, perante plutocratas populistas. Como irão os países ricos gerir várias possíveis décadas de nenhum crescimento da sua classe média? É que estes resultados teriam sido certamente surpreendente para muitos, se a análise tivesse sido feita no final da década de 1980. Como observa Milanovic, “os políticos do Ocidente lutaram por uma maior confiança nos mercados nas suas economias e no mundo depois da revolução Reagan-Thatcher e não esperariam que uma muita exultada globalização falhasse em trazer benefícios palpáveis para a maioria dos seus cidadãos - ou seja, precisamente aqueles a quem estavam a tentar convencer das vantagens políticas neoliberais, comparadas com regimes de assistência social mais proteccionistas”.
O cidadão que procure uma posição equilibrada para a sua deliberação a este respeito, constatará com agrado como milhões saíram da pobreza noutras partes do mundo que não o Ocidente. E, porventura, tomará como justo um certo reequilíbrio à escala planetária. Sopesará a lógica de um consumismo que partiu da premissa do ilimitado e de recursos que se manteriam sempre, independentemente das lógicas de vida que levamos. Mas isso não pode coincidir com um argumento para calar os que, de entre os pobres, perderam com este processo, nem, tão pouco, ignorar que se devam procurar soluções políticas para que a redistribuição aconteça e que não haja um centésimo de um centésimo da população (1426 indivíduos para ser mais preciso) que têm o dobro de toda a riqueza de África. Menos de mil e quinhentas pessoas com o dobro da riqueza de um continente inteiro. Nem para impedir que os que lutam por regras de respeito pela dignidade das pessoas, contra os vários dumpings sociais, se ouçam: é que uma das grandes questões para o futuro será, como Milanovic não deixa de sublinhar, como irá a China lidar com as crescentes expectativas de participação e de democracia da sua população.

Boa semana.

Pedro Miranda