quarta-feira, 22 de novembro de 2017

"A alternativa de Jesus"



No tempo de Jesus, não temos âmbitos de racionalidade estritamente separados – o religioso, o político, o económico, o cultural -, antes tudo se encontra mesclado. Não há, de resto, sequer, uma palavra aramaica para “religião”. A religião está presente em tudo, inspirando uma dada maneira de viver.

Jesus nunca explica, com um discurso conceptual, o que é o Reino de Deus. Segue o caminho dos poetas, aqueles que rompem a linguagem. Se tivéssemos grandes poetas cristãos, hoje, seriam eles que nos ajudariam a começar a mudar. A vida organizada tal como a quer Deus – isso seria o Reino de Deus.

Reino (Basileia, em grego) é um termo político. Que toda a gente falava para se referir ao Império Romano. Portanto, note-se a expectativa: em vez de “Império Romano” o “Império de Deus” (como alguns já traduzem). E, em vez do dinheiro e do poder, a que Roma e seus principais dignitários atribuíam tanta importância, este “Reino” coloca em primeiro lugar os últimos, os que não têm voz.  Quando dizemos, no Pai-Nosso “venha a nós o vosso Reino”, isso significa que o Reino não está aqui, e, por outro lado, que pedimos, nesta oração, não para ir ao Céu, mas que o Reino possa chegar à Terra.

1º: A compaixão como grande motivo de actuação.
Deus é compassivo: “Sede compassivos como é compassivo o vosso Pai do Céu”. A investigação actual sobre Jesus, por parte de crentes, agnósticos, puros historiadores, chega a esta conclusão: Jesus é alguém que viveu e comunicou uma experiência sã [santa] de Deus. Jesus não desfigurou a imagem de Deus, projectando sobre Ele medos, ambições, fantasmas; a experiência de Jesus é limpa. Jesus nunca fala de um Deus indiferente, longínquo, de costas para o mundo. A Deus interessa tudo o que faz sofrer, ou gozar, os humanos. Jesus não fala em leis de Deus [como a lei natural; algo muito válido, mas tributário da Grécia], antes diz que Deus atrai pelo amor; atrai impulsionando as consciências para o amor; para Jesus, Deus é entranhas, Deus é compassivo. O primeiro que Deus tem por nós é a ternura compassiva. É como o que sente uma mãe grávida face ao filho dentro de si. Nas Cartas de São João, Deus é amor e é verdade: “Deus é amor compassivo”. As grandes parábolas de Jesus – filho pródigo, do bom pai – que mais impacto criaram, que melhor preparou, que mais mexeram com os galileus foram as que transmitiram que Deus é amor compassivo; isto não era um patriarca da Galileia, mas uma mãe, e Deus é assim.
O deus santo do Templo era agradável aos puros, e maldizia os impuros; amigo dos observantes da lei e inimigo dos pecadores; então, Jesus descobriu que naquela sociedade havia muitos discriminados. Os leprosos, os cegos, os mudos não podem entrar no Templo. As mulheres não tinham acesso ao pátio dos varões, pois eram “impuras” (menstruação, etc.). Em vez do “sede santos, como o vosso Deus é santo”, do Levítico, “sede compassivos como o vosso Pai é compassivo”. Deus é grande não por expulsar os pagãos, os impuros, os observadores da lei, mas porque é compassivo com todos; a compaixão é a única maneira de nos parecermos um pouco a Deus, a Jesus: terá de estar sempre no centro das nossas vidas.

2º A dignidade dos últimos como meta. A compaixão vai fazer-te dirigir-te, em particular, aos que sofrem. Jesus tinha a consciência de que aquilo que anunciava era um desafio para todos. Jesus encontrou-se com uma religião que durante séculos havia modelado os costumes e a liturgia dos tempos: era a religião de Moisés. Jesus vai mudando estas convicções: por exemplo, a ideia de “povo eleito” [Israel]. Então, e os outros? O amor de Deus é assim tão pequeno que não caiba nele mais do que um povo? Outro dogma mosaico: a destruição dos pagãos (“os romanos ao mar” [atirar os romanos ao mar]). Outra convicção: Jerusalém teria de ser o centro da Terra. Eles queriam ser a Roma do futuro. Mas Jesus chama-os a acolherem o Reino de Deus: uma vida mais ditosa, mas em especial para os últimos. O Reino de Deus está próximo e há que ter um coração muito mais sensível para com todos, lutar a dignidade das pessoas, as pessoas são muito mais importantes que as coisas, as instituições. Há que organizar a vida a partir dos últimos. Ora, do ponto de vista da religião mosaica, tudo estava à espera de uma intervenção divina que destruísse os ímpios. Jesus não se coloca ao lado do povo eleito contra os povos pagãos; Deus não vai reinar na Terra, destruindo povos. Desde o Oriente e de ilhas longínquas virão pessoas que participarão no Reino de Deus; não se coloca ao lado dos justos contra os pecadores – desde sempre, há pessoas que se crêem santas que pensam que Deus está a favor deles contra os “maus” (os maus são os outros); Jesus pede conversão a todos, santos e pecadores, pois pede que todos se encaminhem em relação aos que mais sofrem.  

3º A actuação terapêutica como programa (curar a vida, de tantos medos e feridas). Não há dúvida de que Jesus dedicou a sua vida aos mais indefesos, aos mais pobres. Jesus por cima dos pobres não põe nada: nem a lei, sua pátria, povo, religião. Nisso, as fontes não deixam lugar a nenhuma dúvida. Essa é a máxima religião. Nisto a sua originalidade é grande. O sofrimento é a grande preocupação: não é o pecado, a moral, a lei; o sofrimento por causa da injustiça e da falta de compaixão; de aí, o abismo para com João Baptista: para este, o pecado era a maior preocupação, oferecendo-lhes uma liturgia de purificação. Mas o Baptista parece que não vê os enfermos, não toca num leproso, não se abeira dos endemoninhados, não se senta a comer com prostitutas, com pecadores, com gente indesejável. Para muitos exegetas, Jesus instaura um movimento religioso, sim, mas religioso-terapêutico. A Jesus preocupava, e muito, o pecado – mais do que a todos nós, e muito mais do que a todos os moralistas -, mas o grande pecado, sobretudo, que introduzamos no mundo sofrimento injusto ou que vivamos indiferentes ao que sofrem as pessoas: isso é que vai contra o coração do Pai. Quando ajudamos uma pessoa a viver melhor, com mais esperança, mais acolhida, menos só, com mais força para viver então aí está o Reino de Deus. Jesus fala da salvação eterna, mas, desde já, se coloca a tonar a vida mais sã.
Para Jesus, os milagres não são fórmulas mágicas para resolver os problemas, mas signos por onde devemos orientar-nos. A questão não são as curas, mas toda a actuação de Jesus que está voltada para criar toda uma sociedade mais sã. Toda a rebeldia de Jesus (52.13mn) face a tantos comportamentos patológicos, doentios, de raíz religiosa. Como falou Jesus contra o legalismo, contra a hipocrisia, contra o rigorismo, contra o vazio de amor. Todo o esforço de Jesus para criar uma convivência mais agradável entre homens e mulheres. Como oferecia grátis o perdão às pessoas mais afectadas, gente destruída por dentro. Como Jesus lhes dizia: “Não tenhais medo!”. Jesus foi um grande “tirador de medos”. O que pensará Deus de pessoas
que têm medo Dele? Deus não quer que ninguém tenha medo Dele. Temos que aprender a conjugar três verbos, que mudariam as nossas paróquias, as nossas comunidades, as nossas vidas: a) acolher – aprender a acolher melhor (há muitas pessoas enfermas por falta de amor, carinho); b) escutar – aprender a escutar pessoas que foram maltratadas ao longo de toda a vida; c) acompanhar – acompanhar o outro, não num momento, mas ao longo da existência. Jesus não imagina os seus discípulos como doutores, hierarcas, liturgistas, mas como curadores/terapeutas. Proclamai que o Reino de Deus está próximo e curai enfermos, tirar o mal das pessoas.

4º O perdão imerecido como horizonte (“Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”). O que mais hostilidade criou foi a amizade com os pecadores: nunca tinha acontecido nada igual. A um homem de Deus vê-se no lugar de culto, no Templo, não a cear com pecadores. Jesus aproximava-se deles como amigo. Não os ameaçava. Não lhes pede nada. Nenhum sacrifício. O que mais escandalizava a todos era a mesa aberta a todos. E Jesus repetia e repetia estes gestos. A reacção das pessoas: i) surpresa; ii) desqualificação: eis um comilão, um bebedor de vinho, um homem que ceia com pecadores.  Em Israel, pagãos comiam com pagãos, fariseus com fariseus, homens com homens. E Jesus um dia disse: “olhai que um dia as prostitutas entrarão primeiro que vós no Reino de Deus”. Pois, iria ao Índice. A sua compassividade substituiu “uma
santidade excludente”. A grande originalidade de Jesus está no acolhimento de todos. Perdão absoluto gratuito. Deus dá o primeiro passo. Ainda que caiamos podemos encontrar-nos com o perdão gratuito de Deus.

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