quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"A que espécie pertencemos?"


Quando Darwin e Wallace apresentaram a ideia de selecção natural, foi discutido se algumas das nossas características «superiores», como a moral, a consciência de nós mesmos, o simbolismo, a arte e as emoções interpessoais, cavavam um tal fosso entre nós e os animais «inferiores» a ponto de exigirem uma explicação de outro tipo. Inicialmente, Wallace pensou que não, mas depois mudou de ideias, chegando à conclusão de que existe um salto qualitativo na ordem das coisas que situa as faculdades mais elevadas da espécie humana numa categoria diferente da categoria daquelas características que partilhamos com os nossos vizinhos de evolução. Nas suas palavras: «somos dotados de capacidades intelectuais e morais não necessárias à luz dos requisitos da evolução», e a existência dessas capacidades não podia, por conseguinte, ser explicada pela selecção natural dos mais aptos.  (...)
Reflectindo nisto, parece-me claro que Wallace tinha razão ao colocar a ênfase nas características que pareciam pôr a Humanidade num mundo à parte, embora estivesse certamente errado ao pensar nessas características como «não necessárias à luz dos requisitos da evolução», pois se temos atributos adaptativos, a racionalidade é com certeza um deles. Por outro lado, a racionalidade está, num certo sentido dessa difícil expressão, «na nossa essência». Por conseguinte, Wallace apontava para o facto de nós, seres humanos, mesmo sendo animais, pertencermos a uma espécie que não ocupa um lugar no esquema das coisas comparável ao ocupado pelos outros animais. Aqui a controvérsia filosófica - uma controvérsia paralela à existente entre biólogos e psicólogos evolutivos relativa à importância da cultura - é precisamente uma controvérsia acerca da natureza humana: a que espécie pertencemos?

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.11-12 e 22.

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