As exigências da política são de tal ordem que podem conduzir os seus actores a uma «cegueira ética». A tendência para o empobrecimento espiritual das sociedades ocidentais estimula as condições propiciadoras dessa mesma «cegueira ética», que afecta, ou pode afectar, políticos e cidadãos comuns. Superar a «cegueira ética» solicita uma certa força espiritual que é difícil, se não impossível, receber sem o auxílio da fé ou da abertura à verdade da fé. É certo que a política mobiliza o uso da razão, e não da fé. Mas as perdições da razão requerem uma orientação e uma bússola que só pode provir de um domínio que transcenda a própria política.
Note-se que o papa não pretende que a Igreja se imiscua nas questões do Estado ou criar um falso vínculo entre a adesão à fé e conduta católicas, por um lado, e a política sã, por outro. Bento XVI aceita como aquisições que podem reclamar validade universal a proibição da imposição de uma religião pelo poder do Estado, a liberdade religiosa, o respeito pelos direitos fundamentais e iguais para todos os homens e a separação de poderes e o controlo da acção do Estado (...)
O que me parece crucial para este papa é que a voz da fé possa assumir-se, sem complexos ou pressões externas, como interlocutor indispensável na orientação da razão política nas sociedades.
Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, p.143.
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