No seu mais recente livro, A natureza humana (Gradiva, 2017), o filósofo Roger Scruton escreve (p.27): "Não nego que sejamos animais; também não discordo da doutrina teológica que afirma que as nossas funções biológicas fazem parte integrante da nossa natureza enquanto pessoas humanas e também são objecto de escolhas morais fundamentais". Neste passo, remete para a seguinte nota de rodapé do fim de página: "esta perspectiva foi defendida de forma eloquente pelo papa João Paulo II na encíclica Veritatis Splendor, 6 de Agosto de 1993, secções 47 e segs.".
Serve esta brevíssima anotação para mostrar como - tal como registáramos, no último livro de Luc Ferry, 7 lições para ser feliz, também publicado este ano, e no qual o filósofo mostrara ter um conhecimento claro da encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI - relevantes pensadores, destes nossos dias de finais da segunda década do século XXI, mesmo partindo de mundividências divergentes entre si, continuam atentos, lendo e estudando, o que a partir do Magistério católico se oferece como reflexão sobre o humano. Neste caso muito particular a que se refere Scruton, à indivisibilidade alma-corpo, à recusa do esquema dualista (antropológico) e, por consequência, pois, do corpo - "Uma doutrina que separe o acto moral das dimensões corpóreas do seu exercício, é contrária aos ensinamentos da Sagrada Escritura e da Tradição: essa doutrina faz reviver, sob novas formas, alguns velhos erros sempre combatidos pela Igreja, porquanto reduzem a pessoa humana a uma liberdade «espiritual», puramente formal" [nº49, Veritatis Splendor] como lugar de escolhas morais, pois que a «alma (...) se exprime no corpo e [o] corpo [é] informado por um espírito imortal» [nº50, da Veritatis Splendor].
Se de outras àreas do saber, muitas vezes sem qualquer ponderação, se coloca fora uma tradição, uma mundividência absolutamente marcante e decisiva a Ocidente, com a alegação de religiosa - como se isso significasse capitis deminutio na cidade -, partindo de compreensões obsoletas dos principais significados que uma comunidade atribui ao que acredita, há quem não se deixe impressionar com preconceitos que nada devem a uma busca de um olhar sempre ampliado sobre as coisas e o mundo. E, neste sentido, também para o interior dessas comunidades se pode aqui falar, de modo analógico, com o que Ratzinger dizia, quando dizia que não deviam ser os crentes a viver etsi Deus non daretur, mas os descrentes a viver etsi Deus daretur. Nada raramente, há mais interesse, pelos textos provindos desta mesma Tradição, fora da mesma, do que eles são lidos e conhecidos no seu interior (pelos que enformam esse interior).
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