sexta-feira, 3 de novembro de 2017

"Bancarrota espiritual e moral"


No entanto, para considerar os nossos dias como sendo os melhores de sempre seria preciso que estivéssemos muito distraídos, já para não dizer indiferentes ao drama dos restantes seres humanos que vivem na miséria. Embora a literacia científica e técnica nunca tenha estado tão desenvolvida, o público dedica muito pouco tempo à leitura de romances ou de poesia, que continuam a ser a forma mais garantida e recompensadora de penetrar na comédia e no drama da existência, e de ter oportunidade de reflectir sobre aquilo que somos ou que podemos vir a ser. Ao que parece, não há tempo a perder com a questão pouco lucrativa de, pura e simplesmente, “ser”. Parte das sociedades que celebram a ciência e a tecnologia modernas, e que mais lucram com elas, parece estar numa situação de bancarrota “espiritual”, tanto no sentido secular como religioso do termo. A julgar pela aceitação despreocupada das crises financeiras problemáticas – a bolha da Internet de 2000, os abusos hipotecários de 2007 e o colapso bancário de 2008 – parecem igualmente estar numa situação de bancarrota moral. Curiosamente, ou talvez não tanto, o nível de felicidade nas sociedades que mais beneficiaram com os espantosos progressos do nosso tempo mantém-se estável ou em declínio, caso possamos confiar nas respectivas avaliações. (...) Ao longo das últimas quatro ou cinco décadas, o grande público das sociedades mais avançadas aceitou, com pouca ou nenhuma resistência, o tratamento cada vez mais deformado das notícias e das questões públicas concebidas para se enquadrarem no modelo de entretenimento da televisão e da rádio comerciais. As sociedades menos avançadas não têm demorado a imitar essa atitude. A conversão de quase todos os “media” de interesse público ao modelo lucrativo de negócios veio reduzir ainda mais a qualidade da informação. Embora uma sociedade viável deva preocupar-se com a forma como o Governo promove o bem-estar dos cidadãos, a noção de que se deve proceder a uma pausa diária de alguns minutos e fazer um esforço para se ficar a par das dificuldades e dos êxitos dos governos e dos cidadãos não só se tornou antiquada, como quase desapareceu. (...) O resultado, intensificado pelo declínio dos jornais impressos e pela ascensão e domínio quase absoluto por parte da comunicação digital e da televisão, é a carência profunda de conhecimentos pormenorizados e não-partidários dos assuntos públicos, a par do abandono gradual das práticas da reflexão ponderada e do discernimento sobre os factos. É preciso ter o cuidado de não exagerar a nostalgia por um tempo que nunca existiu por completo. Nem todo o público estaria seriamente informado, reflexivo e exigente. Nem todos os cidadãos tinham reverência pela verdade e pela nobreza de espírito, já para não falar de reverência pela vida. Não obstante, o presente colapso da consciência pública séria é problemático. As sociedades humanas encontram-se previsivelmente fragmentadas segundo uma variedade de medidas, como literacia, nível de habilitações, comportamento cívico, aspirações espirituais, liberdade de expressão, acesso à justiça, estatuto económico, saúde e segurança ambiental. Dadas as circunstâncias, torna-se mais difícil do que jamais foi encorajar o público a promover e a defender uma lista de valores, direitos e obrigações que não sejam negociáveis. (...) Por outro lado, em geral, o público não dispõe nem de tempo nem de método para converter as quantidades imensas de informação em conclusões razoáveis e de uso prático. Além disso, as empresas que geram a distribuição e a agregação de informação ajudam o público de forma dúbia: o fluxo de informação é orientado por algoritmos da empresa que, por sua vez, influenciam a apresentação, de modo a adequar-se a uma variedade de interesses financeiros, políticos e sociais, a par do gosto dos utilizadores, para que estes possam continuar fechados no silo de opiniões que os entretêm. (...) Não há grande incentivo para debater, e muito menos aceitar opiniões divergentes. (...) A exaustão provocada pelo excesso de factos recomenda uma fuga para as crenças e as opiniões pré-definidas, em geral as do grupo a que o indivíduo pertence. Isto agrava-se pelo facto de tendermos naturalmente a resistir à mudança de opinião, pese embora a disponibilidade de provas em contrário, e por mais inteligentes e informados que sejamos. (...) Trabalhos realizados pelo nosso instituto [Instituto do Cérebro e da Criatividade na Universidade da Califórnia do Sul, EUA] mostram que isso é verdade em relação a crenças políticas, mas imagino que também se aplique a uma grande variedade de crenças, desde a religião e a justiça à estética. O nosso trabalho mostra que a resistência à mudança está associada à relação conflituosa entre sistemas cerebrais relacionados com a emotividade e a razão. (...) Nota-se uma tensão crescente entre o poder de um público vasto que parece mais bem informado do que nunca, mas que não dispõe do tempo ou dos instrumentos para julgar e interpretar a informação, e o poder das empresas e dos governos que controlam a informação e sabem tudo o que há para saber acerca desse mesmo público. Como sanar o conflito resultante?

António Damásio, no capítulo A crise, do seu novo livro A estranha ordem das coisas, hoje em pré-publicação no Público. Na íntegra, aqui.

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