quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Cheias de 1967

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A maioria das pessoas dos sectores mais politizados da universidade, num momento de transição e radicalização que acabava com o refluxo da crise das prisões de 1965, conhecia muito mal o país. O inquérito da JUC [Juventude Universitária Católica] feito nesses anos revelava que apenas 4% dos estudantes universitários vinham de meios operários e camponeses e, no caso de Lisboa, não havia o forte recrutamento da província que existia em Coimbra pelo que a maioria tinha, quando muito, uma experiência urbana e mesmo essa parava à porta da Lisboa dos bairros de lata. A politização, por muito que fizesse as pessoas falar dos "operários e dos camponeses", esses entes, como aliás a maioria dos portugueses pobres, passava ao lado de uma sociedade desigual e fortemente classista
Em certos cursos esse acantonamento social era ainda mais evidente, como era o caso de Direito. Recordo-me de Marcelo Caetano na aula de apresentação nomear os alunos um a um e comentar "não foi o seu tio que esteve aqui há uns anos?", e "conheço muito bem o seu pai", "já cá teve um irmão, não é verdade?" e por aí adiante. A elite do país reproduzia-se em sossego naquelas salas e anfiteatros
As cheias de 1967 foram um choque neste mundo estofado e confortável e arrastaram uma aliança entre estudantes católicos e ferozes ateus marxistas-leninistas para irem para a zona da tragédia fazer o que podiam. Nem sequer os rodriguinhos de "ir ao povo" funcionavam, nem sequer o desprezo pela "caridadezinha" - era pura e simplesmente ir ajudar a parte de trás de Portugal, que era afinal quase todo o Portugal, representado naqueles mortos enlameados e nos sobreviventes igualmente enlameados das margens do Tejo. O choque foi brutal, até porque ali se percebia tudo sobre um Portugal que muitos viam apenas na retórica política e agora percebiam justificar ainda mais a revolta, sem ser pelos livros, mas pela realidade. Aquele país de mortos por contar, aquele país de vivos miseráveis, aquele país que deliberadamente se tentou esconder por todos os meios, era o Portugal imperial que terminava no ponto mais alto de "Portugal", o monte Ramelau em Timor. Se era assim cá, a meia dúzia de quilómetros de S.Bento, como seria tudo o resto? Eu vi

José Pacheco Pereira, As cheias de Lisboa, in Sábado nº709, 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2017, p.16.

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