Enquanto mexia em papéis antigos, recordava sínteses com meses, nas crónicas semanais que fui fazendo na rádio. Deixando, aqui, em diferentes posts, sublinhados dos livros que me foram essenciais ao longo do ano, todavia, a rádio - como seria a crónica no jornal - obriga à sistematização e a um pequeno acrescento, uma nesga de luz que se ousa. Esta semana, Paulo Rangel, no Público, falava de Yuval Noah Harari, em Homo Deus, como já um clássico. A este, mas ainda mais do meu agrado - por exemplo, Harari, no que às imagens de Deus diz respeito, fica-se por um tradicionalismo e por concepções que foram populares mas estão, felizmente, ultrapassadas ao nível teológico, pelo que as conclusões não se seguem necessariamente, do mesmo modo que por vezes surge um tanto optimista, talvez em demasia, no que à fome, peste e guerra diz respeito -, somo, sempre, A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq (que, tendo saído há uma década, e inscrevendo-se no registo romanesco - se bem que futurismo, e, portanto, ficção há, também, em Homo Deus), penso que continua com uma frescura essencial para compreender estes nossos dias). Segue-se, então, uma das duas crónicas de rádio que dediquei a Homo Deus.
Biopolítica
Epicuro
dizia que de nada valia orar aos deuses, sendo a felicidade o único motivo da
existência. À época, uma blasfémia; hoje, o autoflorescimento
– como exclusivo leit-motiv da vida –
tornou-se concepção dominante ou hegemónica. Diferentemente do filósofo grego,
os pensadores modernos entenderam que a felicidade não se resumia a um
objectivo pessoal, mas tratava-se de um desígnio coletivo. Neste sentido,
aliás, o Estado de Bem-Estar foi,
originalmente, planeado no “interesse da nação e não no dos indivíduos
necessitados” (p.43). Para Bismarck,
no final do séc.XIX, com o estabelecimento, inédito, de pensões e segurança
social estatal, o desiderato era alcançar a lealdade dos cidadãos e não,
propriamente, aumentar a qualidade de vida das pessoas.
Se
é certo que a Declaração de Independência
dos EUA faz menção à felicidade, esta perspectiva-a como direito à busca da (felicidade) e não direito à (própria) felicidade,
o que acarreta(va) diferenças (políticas) de monta: na primeira das
formulações, impedir-se-á o Estado de se intrometer na vida de cada um,
limitar-se-ia a esfera deste – obrigações de non faccere; no segundo dos casos, em se entendendo que cabe ao
Estado a promoção da felicidade (colectiva) dos cidadãos, as obrigações são já positivas (obrigações de faccere).
Perceber,
exactamente, o que significará felicidade,
nem sempre se afigurará fácil, sobretudo se recorrermos a instrumentos tantas
vezes debitados nos media, como o
PIB: tendo um PIB per capita muito
superior ao da Costa Rica, Singapura, no entanto, vê os seus cidadãos, nos
inquéritos internacionais, mostrarem-se muito menos satisfeitos com a vida do
que os seus homólogos costa-riquenhos. Os dados internacionais, neste contexto,
não podem deixar de nos fazer reflectir: “apesar
da maior prosperidade, conforto e segurança, a taxa de suicídios no mundo
desenvolvido (…) [é] também muito mais elevada do que nas sociedades
tradicionais” (p.45). Ilustrando, vemos que no “Perú, Guatemala, Filipinas e Albânia (países em vias de desenvolvimento
e com instabilidade política), em cada ano suicida-se uma em cada cem pessoas.
Em países ricos e pacíficos como Suiça, França, Japão e Nova Zelândia,
anualmente tiram a vida a si mesmas vinte e cinco em cada 100.000 pessoas”
(p.45).
Sabemos
que a felicidade se jogará em uma dimensão psicológica
e, também, no plano biológico. No
primeiro dos casos, a relação que estabelecemos com as expectativas (que vamos
formulando) determinarão o nosso grau de
felicidade. No segundo dos âmbitos, estaremos moldados pela nossa
bioquímica. Ora, se assim é, então muitos sugerem que para aumentar a nossa
felicidade devemos manipular a bioquímica humana (para além de se insistir,
hoje por hoje, na mudança na didáctica e pedagogia nas escolas, “pela primeira vez na história, pelo menos
alguns, acreditam que seria mais fácil mudar a bioquímica dos alunos”; 12% dos soldados norte-americanos no Iraque
e 17% dos que se encontravam no Afeganistão tomavam comprimidos para dormir, ou
anti-depressivos para lidar com a depressão e a angústia da guerra). Em
2009, metade dos presos das cadeias federais dos EUA tinham ido para à prisão
devido às drogas; 38% dos detidos italianos estribavam na mesma causalidade;
55% dos presos do Reino Unido padeciam de igual problema. Assim, a realidade
com a qual nos deparamos é que “o Estado confia conseguir regular a busca
bioquímica da felicidade, ao separar as «más» manipulações das «boas». O
princípio é claro: as manipulações bioquímicas que reforcem a estabilidade
política, a ordem social e o crescimento económico são permitidas e até
fomentadas (por exemplo, as manipulações que acalmam as crianças hiperactivas
na escola, ou que fazem os soldados avançar na batalha). As manipulações que
ameacem a estabilidade e o crescimento são proibidas (…) À medida que a busca
bioquímica da felicidade se acelere, remodelará a política, a sociedade e a
economia e será cada vez mais difícil controlá-la” (p.53).
Grande
parte do que agora podemos aqui ler fora antecipado, desde há muito, em Regras para o parque humano, de Peter Sloterdijk, um livro tão
provocador como capaz de um diagnóstico cultural que, em boa medida, parece a
caminho de cumprir-se. Veja-se a seguinte descrição, de Yuval Noah Harari, sobre como, hodiernamente, se encara a procura
da felicidade: “a solução bioquímica
consiste em desenvolver produtos e tratamentos que proporcionem aos humanos um
sem fim de sensações prazenteiras, de modo a que nunca nos faltem. A sugestão
de Buda era a de reduzir a nossa ânsia de sensações agradáveis e não permitir
que estas controlem a nossa vida (…) Hoje em dia, a humanidade está muito mais
interessada na solução bioquímica. Não importa o que digam os monges nos
Himalaias, ou os filósofos nas suas torres de marfim; para o gigante
capitalista, a felicidade é prazer. Ponto. (…) Tanto a investigação científica
como a actividade económica orientam-se a este fim, e cada ano produzem-se
melhores analgésicos, novos sabores de gelados, colchões mais cómodos e jogos
mais aditivos para os nossos smartphones, de modo a que não padeçamos de nem um
só instante de tédio enquanto esperamos o autocarro” (p.55). Contudo,
gelados e telefones inteligentes não bastarão e, no limite, será a remodelação
do homo sapiens que se visará (a
ascensão a deuses), através de: a) engenharia
biológica (não haveria razão, segundo este posicionamento, para que o sapiens seja a última estação); a engenharia cyborg (fusão do corpo orgânico com dispositivos não orgânicos, como mãos biónicas,
olhos artificiais, ou milhões de nanorrobots,
que navegarão pela nossa torrente sanguínea, diagnosticarão problemas e
repararão danos: “um cyborg poderia existir em numerosos lugares ao mesmo
tempo. Uma médica cyborg poderia realizar operações cirúrgicas de emergência em
Tóquio, em Chicago e numa estação espacial em Marte, sem sair do seu escritório
em Estocolmo. Só necessitaria de uma conexão rápida à internet, e uns quantos
pares de olhos e mãos biónicas. Mas, pensando bem, porquê pares? Porque não
quartetos? De facto, inclusivamente estes são realmente supérfluos. Por que é
que um médico cyborg teria que suster na mão um bisturi de cirurgião quando
poderia conectar a sua mente diretamente ao instrumento. Talvez isto pareça
ficção científica, mas já é uma realidade. Recentemente, uns monos aprenderam a
controlar mãos e pés biónicos não conectados ao seu corpo mediante elétrodos
implantados no seu cérebro. Pacientes impossibilitados são capazes de mover
extremidades biónicas ou de utilizar computadores só com o poder da mente. Se
uma pessoa quiser, já pode controlar à distância os dispositivos eléctricos de
sua casa utilizando um capacete eléctrico que «lê a mente». O uso do capacete
não requere implantes cerebrais. Funciona ao ler os sinais eléctricos que
passam através do couro cabeludo. Se alguém quiser acender a luz da cozinha,
coloca o capacete, imagina algum sinal mental pré-programado (por exemplo, que
a sua mão direita se move) e o interruptor aciona-se. Podem comprar-se estes
capacetes pela internet por apenas 400 euros. No início de 2015, a várias
centenas de trabalhadores do centro de alta tecnologia Epicenter (Estocolmo)
foram implantados microchips nas mãos. Os chips têm o tamanho aproximado de um
grão de arroz e armazenam informação personalizada de segurança que permite aos
trabalhadores abrir portas e usar fotocopiadoras com um simples movimento de
mão. Esperam que em breve possam efectuar pagamentos da mesma forma (…) «na
atualidade (…) necessitamos de códigos, pin, contra-senhas: não seria mais
fácil simplesmente tocar com a mão?»”, pp.57-58); c) engenharia de seres não orgânicos (produção de seres totalmente não
orgânicos: “as redes neurais serão substituídas por programas informáticos com
capacidade de navegar tanto por mundos virtuais como não virtuais, livres das
limitações da química orgânica. Depois de quatro mil anos a vagar dentro do
reino dos compostos orgânicos, a vida saltará para a imensidade do reino
inorgânico e adoptará formas que não podemos imaginar nem sequer nos nossos
sonhos mais fantásticos” (p.58).
Em
realidade, não é possível imaginar-se, agora, com a mente e os desejos que
possuímos como será a vida de quem possuirá uma outra mente e desejos, mas
podemos concluir que quando e se a tecnologia nos permita remodelar a mente
humana o homo sapiens desaparecerá, a
história humana chegará ao seu fim e iniciar-se-á um processo completamente
novo (p.59). As mudanças surgem a uma velocidade inaudita e nada parece poder
deter tal aceleração (nem a morte), e para colocar o pé no travão necessário
seria saber onde o travão se encontra.
De
acordo com Noah Harari, a nova ordem – felicidade, divindade, imortalidade –
serão só para alguns, e nos bairros mais sórdidos permanecerá a eterna luta com
a pobreza, a doença e a violência. E mesmo a demanda daqueles novos valores
está longe de ser um projecto com a certeza de êxito. Não podemos prever, com
certeza, mesmo olhando para o passado. Este, de resto, serve para verificarmos
o pouco natural, óbvio, inevitável do nosso estádio:
estamos assim, numa dada etapa, mas se olharmos para trás com atenção,
poderíamos ter seguido outras linhas, encontrarmo-nos em estações diversas
desta, não era inevitável nem óbvio que fossemos assim. Olhar para trás
permitir-nos-á, pois, propiciar caminhos diversos da tendência que se encontra
agora à nossa frente. Enunciar um caminho, um diagnóstico cultural – como o de
uma nova ordem que se vê despontar – surge, ultima
ratio, como denúncia dessa mesma ordem, ou, quando menos, de consequências
(nefastas) que pode adquirir o novo horizonte.
Num
paradoxo tremendo, levar a apologia do humanismo (o culto da humanidade), que
nos tem guiado nos últimos 300 anos, até ao seu extremo (alçar, à letra, o
humano a deus, capaz de se criar e modificar, por completo), poderá significar
o fim desse mesmo humanismo (porque poderia já não ser do humano que
falaríamos). Aqui a nuance face a Sloterdijk: onde este vê na falência do
humanismo – ler amansa a alma – a
necessidade de antropotécnicas,
Harari vê nas antropotécnicas o culminar e o apogeu do humanismo que nesse
mesmo limite se negaria (a si mesmo, porque com as antropotécnicas mais arrojadas, e até técnicas não ligadas já ao antropos, superaria o humano).
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