OS DIAS DA
SEMANA
A morte e a eternidade
Eduardo Jorge
Madureira Lopes
O início de
Novembro é, como habitualmente, tempo de os jornais se esforçarem por falar de outro
modo sobre a morte. O francês La Croix recordou o
que uma jovem judia holandesa de 28 anos, Etty Hillesum, escreveu no seu
memorável Diário: “Já acertei contas
com a vida […] Dizendo: ‘já acertei contas com a vida’, quero dizer: a
perspectiva da morte está integrada na minha vida; olhar a morte de frente e
aceitá-la é parte da vida, é dilatar a vida. Pelo contrário, sacrificar desde
já à morte um pedaço desta vida, por medo da morte e recusa de a aceitar, é o
melhor meio de ficar apenas com um pobre fragmento de vida mutilada, que a
custo merece o nome de vida. Isto parece um paradoxo: excluindo a morte da vida
fica-se privado de uma vida completa e acolhendo-a dilata-se e enriquece-se a
vida.”
O texto foi
escrito no dia 3 de Julho de 1942 – tinha Etty Hillesum 28 anos – quando a
ocupação nazi da Holanda lhe impunha o pressentimento da iminência da morte,
que ocorreria no ano seguinte, no mês de Novembro, em Auschwitz. Pode
aprender-se muito com Etty Hillesum e o filósofo francês Martin Steffens foi
buscar à passagem citada o tom de um livro (L’Éternité
reçue), cuja publicação, há poucas semanas, justificou a entrevista ao
diário La Croix.
“Ter deixado de acreditar no além tem um
impacto na sociedade”, dizia o título da conversa, durante a qual Martin
Steffens afirma que a angústia de deixar escapar alguma coisa alimenta a
sociedade de consumo. Em muitos dos que descrêem no além, ainda assim, detecta
o filósofo algo de positivo: “o sentido da urgência, a urgência de ser feliz”.
O que Martin Steffens julga, contudo, inquietante é a circunstância de esse
sentido de urgência se encontrar desprovido de qualquer paz. Acreditar no além,
em contrapartida, suscita idêntica urgência, todavia tranquila. É que saber,
como sabem os cristãos, que tudo o que foi unido no amor nunca desaparecerá oferece
serenidade.
O filósofo cita
santo Agostinho, que diz que a cidade celeste se constrói no coração da cidade
terrestre, sendo no coração desta vida terrestre, nos pequenos gestos, na
fidelidade a um labor quotidiano, que estamos em vias de inventar a nossa vida
celeste. A vida eterna não é esta vida terrena prolongada indefinidamente –
esse é o sonho do transhumanismo que só tem um além tecnológico, julga Martin
Steffens – nem uma vida completamente nova sem qualquer relação com a que agora
e aqui se vive. A ressurreição anunciada por Cristo é a ressurreição desta vida.
É agora que, pelo amor, se passa da morte para a vida.
Só temos uma
vida e ela é eterna, escreve Martin Steffens, enfatizando que é, portanto, necessário
ter presentes simultaneamente as duas coisas: a irreversibilidade da vida e a
sua eternidade. É que, se apenas tivermos em conta o primeiro aspecto,
confrontamo-nos com este apelo angustiado – e nunca saciável – para tirar o máximo
proveito da vida, através, por exemplo, do trabalho excessivo ou do
divertimento sem limites. Isto não significa, claro, que se abdique de viver integralmente
a vida, como os que julgam que a crença na vida eterna implica o conformismo, justifica
qualquer tipo de acomodamento perante a injustiça e a infelicidade, não
percebendo que a eternidade começa já a construir-se no presente.
Martin Steffens enuncia
um convite, que outros, aliás, também já formularam, a que esta vida seja
vivida em plenitude, não por medo de, em breve, a perder, mas porque, prometida
a eternidade, não há, de facto, nada a perder. Tudo é para ganhar.
hoje, no Diário do Minho
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