domingo, 26 de novembro de 2017

IDEOLOGIAS DO PRESENTE


NOVOS MAPAS DO TERRITÓRIO

Ainda nos recordamos do insistente refrão que referia a pós-modernidade como a época do fim das ideologias e das grandes narrativas. Essa estação, porém, está a ser ultrapassada e, no que às ideologias diz respeito, assiste-se à recomposição plural do mapa do território. É importante não demonizar as ideologias, pois elas representam encruzilhadas a que a nossa humanidade vai chegando no seu saber, desejo, certezas/incertezas, vulnerabilidade. Mas é fundamental que as ideologias se deixem criticar e complementar, mantendo a porosidade necessária para uma revisão dos próprios processos. Elas são ferramentas de construção da realidade social e o naufrágio a que nos conduziram em outras fases da história (algumas bem recentes) exige responsabilidade e prudência. 
Em que cenário emergem estas novas ideologias? Como é patente aos nossos olhos, trata-se de um cenário de fragmentação. Uma das dificuldades da hora presente é mesmo que as nossas sociedades se parecem mais com a heterogeneidade de um mosaico desencontrado, do que a uma imagem agregadora e unitária. Instalou-se, além disso, no pensamento contemporâneo uma repartição em disciplinas com um elevadíssimo grau de especialização. E já o filósofo Ortega y Gasset alertava para a barbárie que a especialização pode representar, pois absolutiza o pormenor, incapaz de uma visão antropológica e cosmológica de carácter global. O risco é cairmos numa rede de reducionismos vários que capturem o debate público e a vida comum
Cinco ideologias (chamemos-lhe assim, mesmo reconhecendo a ambiguidade e os limites desta designação) ganham cada vez mais espaço. Uma primeira é o trans-humanismo, que entende o ser humano como pura transição. Como tal, distingue três fases: a do ser humano (que é o ser humano nas suas condições naturais de origem), a do trans-humano (que é o ser humano alterado e melhorado nas suas capacidades por meio da técnica) e o ser pós-humano (um ser tão extraordinariamente alterado que já não pode ser classificado como humano, mas é um produto utópico da biotecnologia).
Uma segunda ideologia é o animalismo, que aposta na implosão de qualquer diferença substantiva entre homem e animal. A diversidade é explicada unicamente como gradual ou acidental e não como ontológica. Nascem daqui as teses radicais que vão na linha de uma quase equiparação entre os direitos dos animais e os dos humanos.
Uma terceira ideologia é o neurocientismo, que não se deve confundir com as neurociências. As suas raízes terão de ser procuradas no materialismo que encara o ser humano como uma espécie de máquina, com distintos componentes e estruturas que constituem um todo complexo, mas que não é capaz de verdadeira liberdade. Pelo contrário, onde julgamos que há uma acção livre, o que temos é um predeterminismo observável nos circuitos neuronais.
Uma quarta ideologia é a teoria do género, que hoje se manifesta com reivindicações públicas, políticas e éticas de grande impacto. Nesta visão a condição sexual converte-se numa opção que se pode tomar e alterar, pois é parte da vontade humana escolher que condição sexual assumir.
Uma quinta ideologia reporta-se àquilo que Gianni Vattimo chamou pensiero debole (pensamento débil). Um dos seus traços é a consideração de que não há propriamente uma substância ontológica na nossa humanidade. Ela é sim um recetáculo que recebe estímulos de todo o tipo e que vão configurando no tempo. Desse modo, nós somos o que lemos, o que comemos, o que consumimos. E a vida torna-se uma inevitável categoria líquida, onde o processo se sobrepõe à forma.

José Tolentino de Mendonça, Novos mapas do território. Que coisa são as nuvens, Revista do Expresso, Expresso 25-11-2017, p.94


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