sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Natureza (biologia) e cultura


Porque será que os seres humanos eliminam periodicamente, pelo menos em parte, os ganhos que fizeram culturalmente? (...) Segundo a perspectiva biológica que delineei, os repetidos fracassos dos esforços culturais não deveriam surpreender. Eis porquê. A base fisiológica e o principal interesse da homeostasia [tendência para o equilíbrio e a conservação de elementos fisiológicos e do metabolismo, através de elementos de regulação] básica é a vida de um organismo individual dentro das suas fronteiras. Dadas essas circunstâncias, a homeostasia básica continua a ser uma questão um tanto ou quanto limitada, concentrada no templo que a subjectividade humana concebeu e erigiu - o eu. A homeostasia pode ser alargada, com mais ou menos esforço, à família e ao pequeno grupo. E pode ser ainda mais alargada para grupos maiores, pela força da nossa vontade civilizacional, o que depende de circunstâncias e de negociações em que os benefícios gerais e o poder estejam bem equilibrados. Contudo, a homeostasia básica, tal como a encontramos nos nossos organismos individuais, não se preocupa espontaneamente com grupos muito vastos, sobretudo grupos heterogéneos, e muito menos com culturas ou civilizações como um todo. Esperar harmonia homeostática espontânea de colectividades grandes e cacofónicas é esperar o improvável. (...)
A diversidade étnica e de identidade cultural, característica fundamental da Humanidade, resulta naturalmente dessa vontade e tende a enriquecer todos os participantes. Todavia, a diversidade contém a semente do conflito. Ela aprofunda as divisões intra e extragrupo, alimenta a hostilidade, e faz com que seja mais difícil chegar a soluções de governação gerais e implementá-las, sobretudo numa era de globalização e de interligação de culturas
É pouco provável que a solução para este problema seja a homogeneização forçada das culturas, algo que, na prática, é inalcançável, além de indesejável. A ideia de que a homogeneidade tornaria as sociedades mais governáveis ignora um facto biológico: os indivíduos que pertencem a um mesmo grupo étnico diferem em termos de afectos e de temperamento. (...) A única solução razoável e, assim esperamos, viável para o problema consiste em enormes esforços civilizacionais através dos quais, graças à educação, as sociedades consigam cooperar no desenvolvimento de requisitos fundamentais para a governação, pese embora as diferenças, sejam grandes ou pequenas. (...) [Há ainda dificuldade em conseguir harmonizar os] conflitos com origem no interior de cada indivíduo, ao choque entre impulsos positivos e afetivos, e impulsos negativos, hetero e autodestrutivos. Nos últimos anos da sua vida, Sigmund Freud viu a bestialidade do nazismo como uma confirmação de que a cultura nunca seria capaz de domar o nefasto desejo de morte que ele acreditava estar presente em cada um de nós. (...) Em 1932, Einstein escreveu a Freud, pedindo conselhos sobre como prevenir a conflagração mortífera que ele via aproximar-se (...) Na sua resposta, Freud descreveu a condição humana com uma clareza impiedosa e lamentou-se a Einstein dizendo-lhe que, tendo em conta as forças que estavam em jogo, não tinha quaisquer conselhos a dar, não tinha como ajudar, não tinha qualquer solução, tinha pena e não mais. Note-se que o principal motivo para o seu pessimismo era a condição internamente imperfeita do ser humano. Não atribuía culpas às culturas, nem a grupos específicos. Apenas culpava os seres humanos.
Ainda hoje, aquilo a que Freud chamou de «desejo de morte» continua a ser um factor importante por trás dos fracassos sociais humanos, embora eu o descrevesse com termos menos misteriosos e poéticos. Segundo penso, esse factor é um componente estrutural da mente cultural humana. Em termos neurobiológicos contemporâneos, o «desejo de morte» de Freud corresponde à activação desregrada de um conjunto específico de emoções negativas, a subsequente perturbação da homeostasia e o caos avassalador que isso provoca nos comportamentos humanos individuais e colectivos. (...)
Diz-se comummente que a activação dessas emoções negativas é um regresso à nossa emotividade animal, mas isso é um insulto desnecessário a muitos animais. Essa avaliação está parcialmente correcta, mas nem de longe capta a natureza mais sombria do problema. Nos seres humanos, a destrutividade da ganância, da fúria e do desprezo, por exemplo, foi responsável por actos de crueldade impensada perpetrada, desde a Pré-História, por seres humanos contra outros seres humanos. Em muitos aspectos assemelha-se à crueldade dos nossos primos símios, famosos por desmembrarem o corpo dos rivais, reais ou supostos, mas por certo aprofundado por certos refinamentos bem humanos. Os chimpanzés nunca crucificaram outros chimpanzés, mas os romanos inventaram a crucificação e crucificaram seres humanos. É preciso invenção criadora humana para conceber novos métodos de tortura e de morte. A raiva e a malícia humana são apoiadas por conhecimentos abundantes, por raciocínio retorcido e pelos poderes desgarrados da tecnologia e da ciência que os seres humanos têm ao seu dispor. (...) Por que motivo os animais não exibiam lutas culturais (...) a resposta é clara: os animais carecem da estrutura intelectual necessária para o fazer. Nós temo-la. (...)
Os homens continuam a demonstrar uma maior propensão para a violência física do que as mulheres, em consonância com os seus papéis sociais ancestrais - a caça e a luta pelo território. As mulheres também podem ser violentas, mas de notar que a maioria dos homens é composta por indivíduos afectuosos e que nem todas as mulheres o são. Claro que sobeja afecto em ambos os lados da divisória. (...) A expressão do temperamento chega até a ser influenciada pelo actual ambiente social e pelo clima. (...) Parece razoável pressupor que o equilíbrio entre a cooperação salutar e a competição destrutiva depende, em grande medida, da contenção civilizacional e da governação justa e democrática, capaz de representar aqueles que estão a ser governados. Por sua vez, a contenção civilizacional depende do conhecimento, do discernimento e, pelo menos, de um pouco de bom senso e sagacidade que advém da educação, do progresso científico e técnico, e dos bons efeitos das tradições humanistas, tanto religiosas como laicas. (...)
A educação, no sentido mais vasto do termo, é o caminho óbvio a seguir. Um projecto educativo a longo prazo que tenha como objectivo criar ambientes saudáveis e socialmente produtivos terá de destacar comportamentos éticos e cívicos e de encorajar as virtudes morais clássicas - honestidade, bondade, empatia e compaixão, gratidão, modéstia. Deverá ainda abordar valores humanos que transcendem a gestão das necessidades imediatas da vida. (...)
A condição humana engloba dois mundos. Um dos mundos é composto pelas regras naturais da regulação da vida, guiadas pelas mãos invisíveis da dor e do prazer. Não temos consciência dessas regras, nem do que lhes está subjacente; estamos apenas conscientes de determinados resultados a que chamamos «dor» ou «prazer». Não tivemos nada a ver com a criação de regras - nem com a existência das poderosas forças da dor e do prazer - e não as podemos modificar, tal como somos incapazes de alterar o movimento das estrelas ou de evitar terramotos (...) Todavia, existe ainda um outro mundo em que contornámos em parte as condições que nos foram impostas, e inventámos meios culturais de gestão da vida para complementar a variedade básica. Daqui resultaram descobertas sobre os nossos próprios universos e sobre aqueles que nos rodeiam, e daí resultou a capacidade extraordinária de acumular conhecimentos, tanto na nossa memória como em arquivos exteriores. A situação neste segundo mundo é diferente. Podemos reflectir sobre o conhecimento, analisá-lo, manipulá-lo de forma inteligente, e inventar toda uma série de respostas às regras da natureza.  (...) Culturas e civilizações são os nomes que damos aos resultados cumulativos desses esforços.
Tem sido tão difícil preencher o fosso que separa a regulação de vida imposta naturalmente e as respostas que vamos inventando que a condição humana se assemelha, frequentemente, a uma tragédia e, talvez menos frequentemente, a uma comédia. A capacidade de inventar soluções é um privilégio imenso, embora propenso a fracassos, e muito oneroso. Podemos chamar a isto «o fardo da liberdade», ou, mais concretamente, «o fardo da consciência». (...) Poderão as sociedades finalmente conseguir introduzir, através de meios seculares ou religiosos, uma forma de altruísmo inteligente e recompensadora que substitua o egocentrismo reinante? (...) Está aqui a grande novidade evolutiva das culturas humanas, a possibilidade de negar a nossa herança genética e exercer o controlo firme sobre o nosso destino, pelo menos temporariamente. (...)
As estratégias que os seres humanos se sentiram motivados a desenvolver para garantir uma boa vida - preceitos morais, religiões, modos de governação, economia, ciência e tecnologia, sistemas filosóficos, e as artes - levaram a ganhos inquestionáveis no bem-estar. Contudo, essas mesmas estratégias também levaram a graus impensáveis de sofrimento, destruição e morte. Pouco admira que, tantas vezes, os seres humanos tenham concluído imprudentemente que tinham chegado a uma era de estabilidade e de razão, em que a injustiça e a violência seriam para sempre banidas. Mas têm acabado sempre por descobrir que os horrores da profunda iniquidade ou da guerra regressam e recrudescem.
Daí a tragédia, tão bem captada pelo teatro ateniense há 25 séculos, quando os problemas que atormentavam os personagens de uma peça não eram causados pelas suas decisões, mas sim por forças caprichosas que lhes eram exteriores, deificadas, incontroláveis e inevitáveis. Édipo mata o pai e não tem como imaginar que Jocasta, a sua nova esposa, é, na verdade, sua mãe. Vê-se obrigado a desempenhar essa acções, comportando-se tão cegamente como o cego em que acaba por se tornar. Ele é obrigado. (...)
[Temos, hoje em dia a] possibilidade de planear uma estratégia mais inteligente do que no passado. Esta abordagem veria como tolice ou mesmo loucura a ideia da razão a dever assumir o controlo, uma ideia que mais não é do que o resíduo dos piores excessos do racionalismo; mas esta abordagem também rejeitaria a noção de que nos devemos limitar a promover as recomendações das emoções - ser gentil, cheio de compaixão, irado ou repugnado - sem que as filtrássemos pelo conhecimento e pela razão. A nova abordagem promoveria a parceria produtiva entre sentimentos e razão, destacando as emoções positivas e suprimindo as negativas. Por fim, rejeitaria a noção das mentes humanas no molde das criações de inteligência artificial.

António Damásio, A estranha ordem das coisas, Temas e Debates, 2017, p.298-314 

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