domingo, 12 de novembro de 2017

O que há que conservar (politicamente)?


Em primeiro lugar, é preciso conservar a capacidade de pensar. Aqui não me refiro apenas ao exercício da racionalidade instrumental, se bem que esta, no seu devido lugar, não deva ser depreciada. Em todo o caso, este tipo de racionalidade está mais bem protegida pelas circunstâncias e estruturas próprias da sociedade moderna (...) A capacidade de pensar vai, no entanto, mais longe do que a simples racionalidade instrumental que dispõe de infinitos «objectos» que vai encontrando e que é capaz de multiplicar. Pensar devolve-nos a nós próprios. O homem e a sua existência são o seu oxigénio. Poderá supor-se que esse oxigénio é inesgotável. Porém, como Montesquieu avisou há já muito tempo, o homem é um ser capaz de se esquecer de si mesmo. Só pensar permite recuperá-lo, reconduzi-lo a si mesmo - recordá-lo de si mesmo. Pensar supõe hábitos do espírito que, como quaisquer hábitos, requerem cultivo e cuidado. Isso é importante porque só esta capacidade nos concede a possibilidade de nos abrirmos à realidade do futuro e aos bens que ela sugere
Trata-se evidentemente de uma banalidade, mas não desprovida de recomendações. Desde logo, impõe uma tarefa conservadora: a de conservar os hábitos do espírito
Em contrapartida, renova o repúdio pela ideologia, pelo gosto da simplificação redutora, pela aversão à ambiguidade do real. Exige ainda cuidados institucionais de criação de espaço para o cultivo desses hábitos e pela contenção das forças que os aniquilam, ou pelo menos os adormecem. A crítica da cultura do entretenimento, da instantaneidade da comunicação social, das hegemonias pensantes, e do endoutrinamento político-estatal não são, assim, reflexos de uma sobranceria elitista. É um exercício constante de protecção - e de conservação
Por outro lado, isto confere uma abertura à novidade histórica que não pode ser recusada. Abertura não dispensa ponderação. Mas também não é compatível com a presunção negativa da novidade. Pensar traduz um desejo pelo mundo. Por um mundo que aparenta ser essencialmente mudança e transformação. E, portanto, frustração desse desejo motriz a negação perpétua e consequente do mundo que muda.
Em segundo lugar, se o que distingue o género humano no reino animal não é a sociedade enquanto tal, mas os meios pelos quais a ordem social é transmitida através das gerações, então é forçoso problematizar não apenas a transmissão da ordem social do passado até ao presente, mas também a sua transmissão para o futuro. Isso significa que é preciso incluir numa filosofia política as mudanças na autoconsciência individual e na consciência comum colectiva no contexto dessa transmissão de «cultura», bem como a preservação dos meios de reprodução cultural. Os meios de reprodução cultural no tempo adquirem, por conseguinte, maior importância do que os conteúdos culturais que são transmitidos. (...)
Nesse âmbito, o conservadorismo do futuro, revendo-se nas tarefas humanas de experiência, descoberta e preservação da Verdade, da Bondade e da Beleza, pode ir muito mais longe e acompanhar a extraordinária frase escrita por Dostoievsky, recordada memoravelmente por Soljenitsin:, «a Beleza salvará o mundo». A velha trindade Verdade, Bondade, Beleza não é resquício de um passado supersticioso, dogmático e opressivo. Trata-se da estrutura básica de orientação dos fins da natureza e nobreza humanas.

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, pp.25-27

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