quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Os católicos face à política


O que o papa [Bento XVI, na encíclica Deus Caritas Est] não diz, mas que me parece estar implícito no que escreve, pode ser descrito do seguinte modo: para que os católicos e a Igreja possam cumprir o seu papel de interlocutores no espaço público plural das sociedades modernas, é preciso levar a cabo a sua remobilização política. Mobilização política quer dizer participação política, significa participação no espaço público-político comum.
Evidentemente, não se trata aqui de fundar partidos políticos ou movimentos eleitorais, nem sequer de criar ligas católicas dispersas pelos vários partidos existentes. Trata-se, antes, de interromper uma tendência de apatia ou pelo menos de desmobilização dos católicos enquanto cidadãos católicos nas sociedades modernas. Portanto, trata-se de assumir uma responsabilidade pública.
Na verdade, é possível ler as considerações do papa como uma chamada dos católicos à responsabilidade cívica. Até porque a Igreja sempre denunciou a ilusão de que as estruturas políticas estatais pudessem substituir a espiritualidade que preenche realmente de sentido as instituições infra-políticas, assim como inúmeras práticas públicas, semipúblicas e privadas. E tão-pouco a espiritualidade cristã pode ser substituída pelas normas e conteúdos do Iluminismo setecentista que alguns reclamam como única fonte legítima do tecido moral das sociedades modernas. A assunção desta responsabilidade implica que a atitude cristã diante da política nunca poderia ser a do alheamento ou do distanciamento olímpico
A Igreja não pertence ao mundo da política, mas está presente e, no centro, se é lícito dizê-lo, do mundo da política. 
É verdade que a Igreja não é um «agente da sociedade», antes uma «sociedade distinta» e com uma vocação própria. Mas nas questões da justiça e do bem comum, e enquanto «sociedade distinta», a Igreja não está situada fora das fronteiras da política e da discussão pública. De resto, como nota Bento XVI, apoiando-se evidentemente na Cidade de Deus de Santo Agostinho, «[o]s olhos da fé permitem-nos vislumbrar que as cidades celestes e as cidades terrenas se compenetram de forma mútua e estão intrinsecamente ordenadas umas para as outras».

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, pp.144-145

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