sábado, 4 de novembro de 2017

Pankaj Mishra e a civilização materialista

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Em Tempo de raiva. Uma história do presente, Pankaj Mishra vê na revolução industrial, na sociedade comercial anglo-americana, um caminho para um mundo plano, arrasando todas as especificidades nacionais, culturais, locais ("para destruir um povo há que cortar-lhe as raízes", p.93). O materialismo, o culto do deus Baal, a única ideologia/religião universal, contra o qual Dostoeivsky se voltará -  e, de resto, Nietzsche verá em Cadernos do subterrâneo o emergir do homem do ressentimento -, implicará, para milhões, o destruir de autoridades tradicionais sob a alegação de que a felicidade será o resultado dessa inserção - certamente bem sucedida - nesse mesmo acumular de riqueza (felicidade igual a conforto material). Quando, contudo, esta (a riqueza, o conforto material) não surge, em mais nada consistindo a felicidade segundo o novo dogma, e em se transmutando todas as alternativas de sabedoria outras (deitadas para o caixote de lixo da história, com a prudência de um elefante na sala), restará o ressentimento (a cólera, a raiva, a inveja, o ódio) como reacção. As soluções abstractas (sem atender ao que cada espaço se poderia melhor aplicar), os homens miméticos ("a construção da nação e do Estado na era pós-colonial foi um projecto grandioso: centenas de milhões de pessoas foram convencidas a rejeitar - e muitas vezes a desdenhar - um mundo vindo do passado que existia há milhares de anos e a lançarem-se num jogo de risco que criaria cidadãos modernos, que seriam laicos, esclarecidos, cultos e heróicos", p.155) por todo o globo, soluções estas como que representando um (actualizado) património dos philosophes das luzes aplicado à escala global (contra esta abstracção já se levantara Tocqueville), levou ao desenraizamento de tantos. Rousseau teria sido o primeiro a agitar - contra Voltaire - o sentimento do povo contra as elites (ou estas como sendo rapaces face ao povo, desprezando-o).

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