domingo, 12 de novembro de 2017

Realismo


Por «realismo» entende-se algo tão simples como a abertura à totalidade da realidade.
Assim, enquanto os vários socialismos colocam no centro da problemática política os conflitos e os dilemas  de natureza socioeconómica (a condição opressiva do trabalhador como agente no mercado de trabalho, a desigualdade na repartição dos rendimentos, a dinâmica das estruturas produtivas e por fora), como se todos os restantes problemas que afectam a condição humana e a determinam fossem uma sua decorrência, também os vários liberalismos reincidem na mesma unidimensionalidade ou parcialidade ao focar o essencial do problema do indivíduo com o direito (o exercício concreto dos direitos individuais, a lista dos direitos reconhecidos e protegidos, o compromisso e conflito entre direitos). Socialismos e liberalismos escolhem uma parte da realidade humana e fazem dela a substância da sua problematização. A prática política obriga-os depois a outras considerações, mas só com extrema dificuldade esse recuo penetra no conteúdo da teoria política e social.
Ora, o conservadorismo «realista» supera essa parcialidade, essa unidimensionalidade, e situa a acção humana, os conteúdos espirituais e sociais da existência, assim como a própria razão histórica, numa totalidade referencial em que não existem aspectos da vida superiores no complexo de conteúdos morais e culturais. É um animal simbólico, homo religiosus. É um animal socialis e um animal laborans. E por aí adiante. Daí que a formulação aristotélica continue a ser a mais satisfatória - o homem é um ser político por natureza e que constitui e revela o seu próprio mundo porque possui a faculdade da linguagem. (...)
Para o conservadorismo, não existe uma única forma de onde brotam os infinitos problemas sociais e políticos - nem sequer a «cultura», noção onde frequentemente se refugia algum pensamento conservador para substituir uma parcialidade nociva por uma abstracção multivalente. (...) Para as teorias socialistas e liberais os estados de «excepcionalidade» são interrupções aberrantes de uma condição essencialmente estável. Já o conservadorismo compreende a essencial fragilidade dos assuntos humanos. Assim se dispõe como uma confrontação com a (ir) regularidade das emergências, que portanto devem ser controladas e integradas politicamente, e não ser emissoras de pânicos sociais catastróficos ou causadoras de rupturas constitucionais dramáticas. E a abertura à realidade contempla desde o início todas as possibilidades de interrupção exógena ou endógena da normalidade política. Isto é, estas não são consideradas aberrações que o pensamento deve excluir ou como condições que um futuro radioso poderá pura e simplesmente abolir

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, pp.30-32

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