O artigo de António Guerreiro, no Ípsilon desta semana, apenas corrobora o diagnóstico sobre o espírito do tempo (a que aludíamos em um post esta semana), aqui sob as categorias fortes de "regressão", "des-civilização", "pós-democracia":
António GUERREIRO, A grande regressão, Público. Ípsilon. 03. 11. 2017, 30
Se alguém fizesse uma
história semântica da ideia de progresso,
encontraria a razão pela qual o qualificativo “progressista”, que teve outrora
um uso político imoderado e de grande utilidade, já só emerge quando se fazem
escavações lexicais. Parece que já
ninguém acredita no progresso nem encontra nele uma razão capaz de fundar uma
visão do mundo. Em contrapartida, a palavra
“regressão” está em alta e revela-se mesmo capaz de dar sentido a um
conjunto de sintomas patentes nos processos sociais e políticos que marcam o
nosso tempo. Uma prova eloquente desta nova fortuna concedida à ideia de
regressão é um livro colectivo que foi publicado na Alemanha, este ano, e logo
traduzido nas principais línguas europeias. O título original é Die große
Regression – Eine international Debatte über die geistige Situation der Zeit,
um título que cita um outro, famoso, de Karl Polanyi, The Great
Transformation (1944). Mas o subtítulo, que fala da “situação espiritual [geistige]
da época”, só aparece no original por razões óbvias: ele dialoga de maneira
explícita com a filosofia e a literatura alemãs (retoma, ipsis verbis, o
título de um famoso ensaio de Karl Jaspers, de 1931). A regressão como categoria analítica da governamentalidade e das
tendências de ordem política já tinha sido introduzida, há alguns anos, por um
importante sociólogo e teórico da cultura, Stuart Hall (1932-2014), que
configurou a política de Margaret Thatcher como uma “modernização regressiva”.
O thatcherismo teria inaugurado o projecto de uma modernização reaccionária. Quais são então esses sintomas que
justificam o uso da regressão como categoria psico-política? Antes de
mais, a “fadiga da democracia”,
fazendo emergir por todo o lado não apenas formas de autoritarismo, mas também um
conjunto de práticas políticas e gestionárias que dão razão a um conceito que
foi entrando no léxico da teoria política: pós-democracia.
Num plano mais englobante, a regressão
adquire a figura de uma “des-civilização”, como se pode ler no ensaio de
Oliver Nachtwey, incluído neste livro. Remetendo para o “processo
civilizacional” de Norbet Elias, enquanto resultado de uma mutação das
estruturas sociais e da personalidade e manifestando-se no controle dos afectos
e no alargamento do espaço mental (cujo resultado foi a constituição
progressiva de um poder centralizado que detém o monopólio da violência), a
des-civlização que Nachtwey vê como uma dinâmica fundamental das sociedades
ocidentais a partir da última década do século passado seria um processo de erosão e declínio. A ideia de que o progresso traz consigo uma
regressão pode então ser deduzida destes sintomas: a sujeição ao mercado e a ausência de alternativa económica; a interrupção do processo colectivo de
mobilidade social ascendente; o triunfo da “modernidade regressiva” que se
traduz por uma igualdade horizontal de grupos com traços característicos
diferentes (a pertença sexual ou étnica, por exemplo), mas simultaneamente por
novas desigualdades e discriminações verticais. Estes e outros factores instalaram um mal-estar que é
simultaneamente social, político e cultural. O processo da civilização
de Norbert Elias já comportava esta ideia de uma des-civilização. Como muitos
outros espíritos lúcidos, Elias não
acreditou no progresso como uma caminhada irreversível nem viu a “civilização”
como uma conquista definitiva. Essa foi a ilusão da utopia iluminista e,
mais perto de nós, a dos arautos do “fim da história”. Como é que em tão pouco
tempo se passou de uma feliz escatologia para uma grande regressão?
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