No seio de cada universo espiritual que cada comunidade política necessariamente constitui, não se nega a heterogeneidade ou as tensões. Mas, se for o próprio cariz de universo espiritual a ser negado à comunidade política, se não há qualquer bem comum a ser partilhado pelas partes que constituem a comunidade política, então ela ou já não existe ou está prestes a deixar de existir - de forma violenta ou não.
E há que reconhecer este limite de integridade, estabilidade e até prosperidade da comunidade política - a sua forma de universo espiritual comum, por mais heterogéneo e complexo que possa ser. Se essa unidade for radicalmente posta em causa, a política tem de enfrentar esse facto e não refugiar-se por detrás de uma teoria do pluralismo dos valores que silencia a resposta política ao problema em toda a sua extensão e gravidade. Mas também significa que cabe à política, dentro dos seus limites próprios, cuidar da conservação dos elementos basilares constitutivos desse universo espiritual.
Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, p.45
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