quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Um conservador?


Neste sentido, o desígnio de Bento XVI de articular a liberdade humana com a responsabilidade, a razão com os conteúdos éticos, a solidariedade com o amor corresponde, em última análise, a um esforço profundo de edificação da boa sociedade. É o seu contributo para uma sociedade que prefigura a Cidade de Deus. Por vezes diz-se que, neste domínio, o papa é «conservador». De uma certa perspectiva, o epíteto não é inteiramente enganador. Afinal, o propósito de proteger e reconstituir os conteúdos morais da sociedade, que não podem estar à mercê do ímpeto destruidor de certas forças sociais, económicas, políticas e históricas, pode ser visto como um acto de conservação, porquanto há coisas e práticas, costumes e símbolos que é conveniente e necessário conservar. Mas este seria apenas um ponto de vista excessivamente unilateral. Se, como nesta concepção, a boa sociedade e os conteúdos morais que a acompanham forem elevados pelo amor, a atitude meramente passiva de conservação perde consistência. O amor, ou a caridade na verdade, é sempre, como se sabe, promessa de transformação.

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, p.150

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