
Também neste fim de semana, pude, finalmente, ver I am not your negro, de Raoul Peck. Extraordinário documento - baseado no manuscrito inacabado Remember this house, de James Baldwin, lido, na voz-off de Samuel L.Jackson, das representações norte-americanas (mais voluntaristas/perversas, mais inconscientes/mais perversas talvez no que tem de naturalização, impensada/irrefletida, dessas imagens), ao longo de décadas - em particular no cinema, mas ainda na publicidade, ou em programas de tv: uma antologia impressiva - da população negra nos EUA, em narrativa cheia de vivacidade, ritmo, colocando-nos, por um lado, entre 1955 e 1968 - intervalo de tempo em que grandes líderes das comunidades negras, nos EUA, Malcom X, Martin Luther King ou Medgar Evers emergiram, ainda se encontravam na sua juventude, aos vinte e alguns anos, na esfera pública norte-americana e a data em o último deles foi assassinado...à semelhança do que sucedera com os restantes dois referentes - e, por outro, nos traços de semelhança com a actualidade. Os supremacistas brancos, com suas suásticas, o segregacionismo, os negros como tendo uma espécie de condição natural à servidão, as lógicas de combate (com ou sem recurso à violência, com as estratégias a serem discutidas e, porventura a aproximarem-se, mesmo partindo de mundividências diversas) entre as comunidades negras, a elegia da música, do rosto, do modo negro de habitar o mundo, a tentativa, bem intencionada, de passar por cima dessas diferenças de cor de pele (mas a demonstração como tais tentativas pretendiam ignorar esse papel decisivo), o modo como a religião podia ser usurpada para os piores fins ("deus perdoa o homicídio ou o adultério, só não perdoa a integração"), os EUA como tendo criado, justamente, "o negro" e como necessitando de se questionar sobre o porquê de o ter criado, os ganhos de produtividade e crescimento económico - em particular no Sul - conseguidos à custa de trabalho escravo ou mão de obra barata, as forças de segurança como perpetuando uma ordem injusta, os demónios interiores de uma dissonância entre vida pública e vida privada (com esta mergulhada num grande crise de auto-confiança e autoridade), os negros que depois de mais de 450 anos nos EUA finalmente conseguem eleger um Presidente (negro), os EUA indagados até à medula num filme-documentário a guardar.
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