1.A principal novidade de O
polvo encarnado (Ideias de Ler, 2017), de Francisco J. Marques e Diogo
Faria, passa por inserir e contextualizar os mais recentes acontecimentos
obscuros no futebol português, numa teia de poderes que tem 15 anos ("pelo
menos, nos últimos 15 anos", p.8). Isto é, deixamos, neste livro e
nesta abordagem, de ter um plano muito apertado dos
acontecimentos - dos quais estamos a ter uma sucessiva actualização, relativos
a esquemas poluídos de bastidores do futebol português, dos últimos 4 anos -
para passarmos a um plano muito mais amplo/global do
que está em causa.
2.Considero que se trata
de uma lente mais apurada para interpretar os factos: a)
porque, e isto é o fundamental/mais importante, a meu ver, ela regista a
verdade histórica (ignorar, ou passar uma esponja, pelo "vergonhoso
campeonato de 2004-2005", só para dar um exemplo, era inaceitável); b)
porque o concentrar exclusivo nos quatro anos do treta oferecia,
com facilidade, a acusação de que se tratava de uma mera justificação para os
campeonatos formalmente atribuídos ao clube da luz.
3.A origem genética desta
captura dos órgãos decisores do futebol português fica, indissociavelmente,
ligada a uma afirmação de Filipe Vieira de que o importante
era ter gente na Liga [hoje, em grande medida, FPF, dada a transferência de
órgãos de tutela da arbitragem, disciplina, justiça para aquela sede]. Essa
frase célebre é, não raro, trazida à colação no debate público, mas
contraditada por representantes encarnados que chegam a negar a sua
existência. O polvo encarnado cita [p.14], quem mais, A
Bola, de 2 de Junho de 2003, p.3, que reproduz - imagina-se que com
fidelidade estrita - o grande líder: "O Benfica tem
prioridades definidas e uma das mais prementes, devido à sua dimensão, era
voltar a ter presença nos órgãos sociais e de decisão do futebol português,
concretamente a Liga".
4.De resto, este documento
do diretor de informação e comunicação do FCP e de um outro membro deste
departamento, revela-se, sobretudo, como uma sistematização da quantidade
de casos estranhos - em prejuízo, direto e indirecto do FCP -
do futebol português, na última década e meia, oferecendo-se, em
realidade, como uma interpretação - que, estou certo, recolheria consenso entre
a nação azul e branca - do que foram os últimos 15 anos do futebol português.
Assim, e como, aliás, Francisco J.Marques não deixou de advertir, ninguém vá ao
engano, procurando notícias (propriamente) bombásticas no livro.
O livro recorda o Estorilgate [Carlos
Xavier, à Sábado de 4 de Dezembro de 2015: "No
Estoril, quando fui adjunto de Litos, passei por uma situação incrível. O
presidente deixou que a equipa descesse para a segunda divisão a troco de ir
jogar contra o Benfica ao Algarve apenas por causa da receita. Perdemos porque
dentro de campo as coisas estavam todas feitas, ao ponto de mais tarde eu e o
Litos termos sido ouvidos pela Polícia Judiciária sobre o caso o que se tinha
passado. O jogo foi comprado, ou vendido, neste caso"]; a colocação
de Cunha Leal no centro
das operações e as decisões deste sempre enviesadas (como nesse ok ao Algarve, o caso Ricardo
Rocha, inscrito irregularmente, ou os bilhetes não vendidos em 5% ao FCP,
para a Luz, em 2004-2005, com a anuência do diretor-executivo da Liga); a
participação de Cunha Leal no filme sobre Carolina Salgado realizado
por João Botelho [que, refira-se, disse já ter vergonha e
estar arrependido de ter assinado semelhante fantochada, assumindo ter-se
tratado de uma vingança, por situação ocorrida com o seu sogro, Carlos
Pinhão]; a entrada em cena de Ricardo Costa; o gigantesco
castigo aplicado a Hulk por parte do
órgão liderado por Ricardo Costa (contraditado, em última instância
jurídica-desportiva, com uma redução abismal da pena...depois de esta cumprida,
sendo relembradas as recentes palavras de Jesualdo Ferreira a ABola de
que sem aquele castigo o FCP teria sido "tetra campeão"); os sumaríssimos, entre a farsa e a
tragédia, aplicados semanalmente a jogadores do FCP (nem um jogo, nem um
joguinho aplicado a jogadores encarnados; McCarthy
apanha 2 jogos em virtude de uma destas manigâncias, recorre e como resultado
passa para três jogos de castigo...apanhando o terceiro jogo o FCP-clube da luz
a realizar no Dragão: não fora o Conselho de Justiça e assim teria sido); o
castigo aplicado a Lisandro Lopez por simulação de um penalti,
castigo inédito e ainda irrepetido no futebol português; a utilização, por
Ricardo Costa, de escutas em sede de processo disciplinar; a preterição de
possibilidade de defesa a Pinto da Costa durante o dito processo; a dualidade
de critérios disciplinares para com Maxi Pereira de vermelho
ou de azul, as nomeações de Vítor Pereira, o controlo das
classificações de Ferreira Nunes, as subidas e descidas de
árbitros, uma comunicação social manipuladora...etc, etc, etc. [Marco
Ferreira, relembrado (p.47), ao DN: "Eles têm medo que Vítor
Pereira acabe com as suas carreiras como acabou com a minha. Sou um exemplo
para eles daquilo que se pode passar. Eu era árbitro internacional e nunca na
história de Portugal um árbitro internacional tinha descido à segunda categoria"]
Talvez pelo rocambolesco
do tema, também pelo ineditismo do caso, vale a pena relembrar hoje, o apoio
de Manuel Vilarinho a um partido político, em plena campanha
eleitoral. A citação [p.165] é do Expresso: "Foi uma
decisão, uma deliberação dos órgãos sociais do Benfica: apoiar esta
candidatura, apoiar o PSD. Exatamente para ter influência nas eleições. Nós não
somos feijão-frade. Não temos duas caras. Queremos que tenha influência".
Na realidade, o Benfica não entregara ao Estado o valor do IRS que era
descontado aos salários dos jogadores, ficando a dever cerca de 10 milhões de
euros, mas o Governo - resultante das eleições em que Vilarinho queria influir
- aceitou como garantia 20% das acções da SAD do clube, que nem sequer se
encontravam cotadas em bolsa, avaliando-as unitariamente em 3,30 euros, um
valor que foi considerado manifestamente exagerado. Para, por exemplo, assinar
um contrato relacionado com a construção do estádio a aceitação da garantia
revelou-se essencial.
5.Um ponto para mim
curioso do livro prende-se com a avaliação estrita das arbitragens nas últimas
épocas, comparando, nomeadamente, os prejuízos do FCP nos consulados de Julen
Lopetegui e Nuno Espírito Santo.
Aqui, vale a pena não ter
a memória curta: com o FCP a fazer várias exibições de gala, com um excelente
plantel, chegando aos 1/4 de final da Champions, onde chegou a
vencer, na 1ª mão o Bayern, e com o clube da luz, em 6 jogos, a conseguir uma
vitória, na mesma competição, eis que Lisboa, para esconder a sucessão obscena
de jogos adulterados pela arbitragem, decide assestar baterias em Lopetegui - o
treinador mais odiado do Porto, pelo menos no pós-Villas Boas. Adeptos
do FCP vão na casca de banana e
alimentam o discurso anti-Lopetegui. Embora a avaliação da SAD do FCP, e em
particular do seu experimentado Presidente, fosse inequívoca - Lopetegui
continuou para a época seguinte mesmo sem que o FCP formalmente tenha ganho
qualquer competição - a verdade é que a quando da saída deste treinador a
própria estrutura do FCP o veio cumular de defeitos.
Pois bem, o que dizem
agora o Diretor de Informação e Comunicação do FCP e outro membro deste
departamento? Com base no critério - certamente, discutível, como outros - da
opinião dos ex-árbitros que compõem o painel do jornal OJOGO, e
atendendo a penalties por marcar ou mal assinalados (além de golos mal
validados ou invalidados), a conclusão é a de que (convertidos os penalties em
causa) a equipa de Lopetegui "poderia ter sido campeã com 15 pontos de
vantagem" (p.40). Mais: "por muito que custe reconhecê-lo aos
arautos do regime, nessa época o FCPorto foi, de muito longe, a melhor equipa
portuguesa" (p.40). À lenga-lenga
e à lenda negra de que a equipa nada
jogava, que era só posse, que se jogava para trás e para o lado, o
diretor de informação e comunicação do FCP responde do modo concludente e
contundente que acabámos de verificar.
Então e por comparação
com a época de NES? Não foi esta a pior época de sempre a nível de arbitragem,
tudo somado, para o FCP? Não, não foi. A pior, como sempre aqui se disse - e
como causa próxima para grandes desaires financeiros foi a golpada determinante
- foi a do tempo de Lopetegui. Cito, de novo, os autores de O polvo
encarnado: "se (...) em 2014/2015 [época de Lopetegui] os Dragões
foram muito penalizados e o Benfica muito beneficiado, desta vez os erros
incidiram especialmente sobre a equipa portista, enquanto houve um certo
equilíbrio entre prejuízos e benefícios à turma da Luz" (p.41).
Com um certo recuo vê-se
melhor e neste aspecto também se fez justiça ao treinador basco.
6.Nenhuma novidade sobre
o caso dos emails? Não será bem assim. Pelo menos, há duas pequenas histórias
que eu não me dei conta de já terem sido contadas. Uma, relativa a Ferreira
Nunes. O vice do Conselho de Arbitragem à época, e responsável pelas nomeações,
decide interceder pelo clube da sua terra que ajudou a formar Éder,
procurando que a esta colectividade fosse entregue o valor monetário relativo
ao mecanismo de solidariedade, no
âmbito da transferência do jogador do Swansea para o Lille. Ora, para acionar
os mecanismos legais para tal efeito, o vice do Conselho de Arbitragem não está
com meias medidas e contacta o assessor jurídico de um dos principais
candidatos ao título (mas fosse qual fosse o clube e a sua escala). Nunes não
viu nenhum conflito de interesses
entre o cargo que ocupava e pedir um favor a Paulo Gonçalves (p.51).
A segunda história tem
que ver com o então presidente da AG da Liga, Carlos Deus Pereira.
Em email enviado a Pedro Guerra, escreve (p.28): "Eu
enquanto Presidente da AG e o Mário enquanto Presidente da Comissão Executiva
[sic] espetámos uma faca, talvez facalhão numa das cabeças da hidra, o Joaquim
Oliveira. O Pinto da Costa agora mais frágil vem por arrasto, porque o
J.Oliveira está falido". [isto, reportando-se à Olivedesportos]
7.Aspecto controvertido,
no livro, passa por tentar uma análise fina às tendências
políticas (clubísticas) de cada diário desportivo (por muito que,
aparentemente, estas se nos afigurem claras). Para lá da curiosidade da
indicação de uma tese de mestrado, de 2016, sobre o assunto, os autores, no
fundo, assumem saber, ao nível dos jornalistas
independentes de cada jornal desportivo, a filiação clubista destes.
Embora, é certo, isso muitas vezes seja absolutamente claro (Fernando Guerra, José
Manuel Delgado, Nuno Farinha, João Bonzinho, etc.),
será que é possível fazer esse exercício para a totalidade dos jornalistas que
em ABola, OJogo e o Record têm
uma coluna de opinião? [Ivo Miguel Costa Neves, dissertação à
Universidade do Porto, é o autor da dita tese de mestrado]
8.Apesar da interpretação
fundamental dos acontecimentos da última década, feita neste livro, recolher,
creio, quase unanimidade entre os portistas, devo, no entanto, aqui, uma vez
mais, referir que no que à factualidade do processo Apito Dourado diz
respeito, circunscrever o caso às artimanhas e manigâncias jurídicas com vista
a prejudicar o FCP - que as houve - é a meu ver extremamente redutor e essa
omissão não poderia fazer parte de uma história completa deste período. Os
autores, dadas as suas circunstâncias (nomeadamente, profissionais), não
poderiam ir além da abordagem jurídica, mas esta não esgota aquele, como
qualquer outro, caso. Houve comportamentos eticamente reprováveis e isso também
não pode ser apagado da história (como receber um árbitro em casa).
9.O facto de para o
caso Apito Dourado sobejarem jornalistas, dos mais variados
órgãos comunicação social, para escreverem, como escreveram, livros sobre o tema
e darem vazão a todo o tipo de catilinárias - alguns dos quais se refugiando
agora na mais absoluta ortodoxia jurídica para pronunciarem nadas sobre o que
se passa no caso dos emails - e O polvo encarnado ser da
autoria de duas pessoas do departamento de informação e de comunicação do FCP é
mais revelador do que são os jornais desportivos portugueses e do poder fáctico
do clube da luz em Portugal do que mil teses de mestrado.
[Chega a ser cómica a
memória, passada para o livro, de, na mesma edição do jornal I, escreverem em
páginas pouco intervaladas, António Galamba, António Rola, Ricardo
Costa e Afonso de Melo]
10.Uma colectânea, um best-off do futebol português, um
documento sem grandes pretensões mas para memória
futura. Já menos a quente do que, naturalmente, quando casos sobre casos,
no campeonato, sucediam e, simultaneamente ou quase, se conheciam os emails da
vergonha. Mais madura e, por isso, mais afinada interpretação. Mas, claro: uma
interpretação. Com óculos azuis. Interpretação com óculos azuis que mais
ninguém pôde publicar, com excepção do Departamento de Informação e Comunicação
do FCP.
Interpretação de longos
dias de 15 anos, antecipados assim por José Veiga, na época 2004-2005: "Pela primeira vez, a CD da Liga está a
funcionar como deve ser. O sr. Jorge
Nuno [Pinto da Costa] ainda não percebeu que as coisas mudaram e que
as pessoas não têm medo de tomar as decisões mais justas para o futebol
nacional". Como concluem Francisco J. Marques e Diogo Faria, "quase dez anos antes de Adão Mendes
anunciar que 'hoje o SLB manda mesmo e outros lá não mexem nada', já Veiga
comunicava ao mundo que as coisas estavam diferentes" (pp.71-72)
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