Nas sociedades modernas, segundo Gauchet, a religião (no singular ou no plural, pouco importa para este efeito) sobrevive, mas separada do mundo social e político. Separada no sentido em que os não influencia e muito menos os determina. Mas, como se disse há muito tempo, quando cai a teoria platónica dos dois mundos e se abole o mundo transcendente (ou o mundo das formas ou o mundo das ideias), o mundo que resta (o mundo sensível, temporal, da experiência, o mundo «meramente humano») afinal também não sobrevive. Quer dizer que a relação entre ambos também era constitutiva do mundo da «experiência». Desaparecendo o mundo do além, é «este» mundo que se vê radicalmente diferente. A dinâmica da «saída da religião» parece seguir o andamento nietzschiano do colapso da teoria dos dois mundos. Neste caso, o mundo social e político transforma-se porque absorve e reconstitui o reflexo que a religião emitia sobre ele. Não se trata de uma simples operação aritmética de subtracção. A «política do homem» faz-se agora, não a prefigurar o céu, não em substituição do céu, nem contra o céu, mas simplesmente sem o céu. Uma experiência que, como se sabe, não tem quaisquer precedentes históricos.
Se é verdade que o homem ocidental se tornou «metafisicamente democrata», isto é, consciente de que a ordem que habita é da sua criação e de que se rege por leis que ele próprio fez e mais ninguém, então a invocação de uma terceira pessoa fora do universo dos homens obreiros da ordem que habitam tem de assumir uma carácter clandestino e até insuportável. Insuportável porque, na luta entre a política da autonomia e a política da heteronomia, a primeira é para a segunda a manifestação da insolência e da soberba, e a segunda é para a primeira um despotismo intrusivo e paternalista. (...) A imanência radical da vida colectiva nas sociedades modernas tem esta consequência. «A compreensão temporal de nós mesmos - falo da compreensão espontânea, quotidiana, prática - é real e completamente subtraída à imemorial estruturação religiosa do tempo» [Marcel Gauchet, La religion dans la démocratie, p.30]
Miguel Morgado, O conservadorismo e outros ensaios, Edições 70, 2017, pp.85-86
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