sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Cheias de 1967 (II)


P.S.2: Era impossível, além de tolo, tentar esconder a devastação material e humana. Doze anos mais tarde investiguei o assunto para uma cadeira universitária. Passei noites em arquivos. Soube da contribuição da Gulbenkian, imediata, para uma percentagem importante das reparações. A solidariedade de próximos (havia vizinhança nas cidades), amigos, empresas, agremiações. Os "párias" e aviadores da Ota a darem as refeições aos desalojados. A PSP, GNR, bombeiros, semanas sem folgas nem dormida.
P.S.3: concluí que, durante 10 dias, todos os jornais e revistas de 1967 ocuparam 90% das primeiras páginas com o acontecido. Acompanharam, registaram e publicaram o evoluir do número de mortos (de 100 a quase 500), com base nas informações municipais. E a Life moveu-se por onde quis, a trazer aos americanos o rosto do desastre português.
P.S.4: O regime era o que era, o exame prévio foi uma vergonha, mas a ideia do silêncio público é um mito urbano de hoje. Ofensivo para uma geração martirizada.

Nuno Rogeiro, Restauradores, in Relatório Minoritário, Sábado nº709, 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2017, p.68.

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