quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Os diários de Marçal Grilo (IV) (Unidimensionalidade)


O Instituto [Superior Técnico] é a minha Escola. Ali me licenciei e me doutorei. Ali soube o que era um chumbo e o que era não desistir. (...) Visto à distância, o currículo dos cursos de Engenharia, praticamente idêntico ao da FEUP, era muito desequilibrado. Talvez possamos dizer o mesmo hoje quando vemos que o diplomado não teve grande contacto com qualquer matéria fora do âmbito das ciências básicas - Matemática, Física, Química e Biologia e das disciplinas relacionadas com as engenharias. Faltam a estes cursos, bem como aos de Medicina e Economia, elementos de Ciências Humanas.
Não é aceitável que um diplomado em Engenharia não tido a possibilidade de frequentar e ser examinado em áreas como a Filosofia, a Sociologia, a História, o Teatro, a Música, a História da Arte, o Cinema ou as Relações Internacionais. A cultura geral com conhecimento bem sistematizado enriquece muito a pessoa. Lamento que na minha formação no IST tenha estado afastado destes domínios durante tantos anos.
A complexidade do mundo em que vivemos obriga-nos a possuir uma cultura vasta e uma visão dos problemas que não é certamente dada por um curso em que o currículo e os conteúdos das diferentes matérias têm um espectro fino e orientado apenas para a resolução de problemas unidimensionais. Da mesma forma, os alunos dos cursos de Letras deveriam ter algumas matérias que tradicionalmente pertencem a outros ditos mais das ciências exactas. A Estatística, por exemplo, é muito relevante, tal como algumas noções de Biologia.
Esta possibilidade não existe em Portugal, embora na Universidade de Aveiro qualquer estudante possa hoje frequentar outras disciplinas para além do seu currículo sem qualquer pagamento extra.

Marçal Grilo, Quem só espera nunca alcança, Clube de Autor, 2017, p.63

P.S.: António Ramalho Eanes é 7/8 anos mais velho do que Eduardo Marçal Grilo. São conterrâneos. Ramalho Eanes foi colega do irmão de E.M.Grilo. Neste livro, o engenheiro civil dá conta da sua grande admiração por Ramalho Eanes, sendo certo, também, que viria a ser um dos seus conselheiros para a educação, mas não aderiria ao PRD por desde a primeira hora ter pressentido que se tratava de um "flop". Nesta sua conversa auto-biográfica, Grilo deixa registado que Eanes fora um excelente aluno de liceu e que nas caricaturas e mensagens no final do Secundário era esperado que se candidatasse a Medicina. Já o ex-ministro da Educação, avalia-se como "aluno razoável" no Liceu - média de 15 valores - e muito mais aplicado no ensino Superior - média de 15 valores mas que viria ter equivalência a 16 - e um doutoramento por unanimidade com louvor e distinção. Teve um ano, ainda, no Imperial College, de Londres.

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