terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Os diários de Marçal Grilo (IX) (catolicismo)


Cresci católico. Hoje, sou um católico com uma prática muito pessoal (…). Uma coisa é olhar para a vida e o exemplo de Cristo, e o chamar a atenção de que a nossa vida depende dos outros e que os outros dependem de nós – isso toca-me muito e rege a minha actuação e a maneira como eu encaro a vida. Outra coisa (…) um conjunto de ideias, de ritos, liturgias, mandamentos, dogmas, etc. (…)
O Papa Francisco está a humanizar a Igreja. Acompanhei muito, nos anos 60, a evolução que se deu com o Vaticano II e o Papa João XXIII, como ele aproximou a Igreja das pessoas, alterando a parte litúrgica. Este Papa, figura muito humana e próximo do comum mortal, está a fazer algo talvez ainda mais meritório – colocar a Igreja a tratar das questões concretas do mundo. (…)
O Estaline estava muito enganado. Quando lhe falaram da importância do Papa, perguntou: “Quantas divisões é que ele tem no Exército?”. Ora, o Papa tem o poder da palavra, como diz muito bem o Professor Adriano Moreira: o poder da palavra contra a palavra do poder. Com o que diz, o Papa influencia o que as pessoas pensam. E isso é mais forte do que a força militar. A palavra dos Papas é sempre ouvida e respeitada no mundo. Mas este Papa é particularmente escutado, pois vem de uma região especial, a América do Sul, e tem uma força indiscutível, contrariamente ao Vaticano, que a tem vindo a perder.
É curioso constatar que a Igreja se reformou sempre da periferia para o interior. João XXIII recusou os primeiros textos elaborados para o Concílio produzidos no Vaticano e baseou-se muito no episcopado francês e alemão, para poder fazer as reformas que pretendia. Hoje, a periferia não é a França nem a Alemanha, mas sim a América do Sul, a África e a Ásia, é aí que a Igreja sente mais os problemas dos Direitos Humanos, da fome, da desigualdade, da ignorância e da doença. Por isso concordo com o Frei Bento Domingues, quando diz que o Papa Francisco traz as “periferias” para o “centro”.

O Papa Francisco está a mudar o discurso da Igreja e a sua mensagem de forte denúncia das desigualdades e do Poder do Dinheiro, está a trazer-lhe uma aura de grande combatente numa guerra em que se coloca ao lado dos pobres e dos desfavorecidos contra esta manipulação dos mercados por parte de quem só vê o lucro e os dólares como valores supremos.

Diário, 14.02.2016

Este não é só o Papa dos católicos. O que diz tem uma repercussão enorme nos agnósticos e ateus que acabam por ser sensíveis ao seu discurso simples, em que aborda a justiça social e ataca os males do poder financeiro. As pessoas, independentemente de terem fé ou não, ouvem-no. Ele sabe, por isso fala para o mundo, não para as ovelhas que estão no seu redil.

Este é o Papa menos clerical da história recente da Igreja. É seguramente com este discurso que a Igreja pode ter algum papel na vida das pessoas, em especial dos mais novos. (…)

Diário, 01.05.2016

Em Portugal, temos várias vozes como, por exemplo, a do Frei Bento Domingues, com a sua linguagem que não é típica da Igreja, é um bocadinho out of the box e próxima dos nossos problemas. O que é positivo, enriquece o debate, cada vez mais necessário, dentro da Igreja.
Também escutamos a voz do D.Manuel Clemente. É um homem do nosso tempo, embora de formação conservadora. Cultíssimo, o Cardeal Patriarca tem um grande conhecimento da História, não apenas da Igreja, mas do mundo e do país, sendo pois uma voz forte, muito autorizada.


Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube do Autor, 2017, pp.182 e segs.

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