sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Os diários de Marçal Grilo (VI) (pay-back)


O Ensino Superior deve ser pago porque corresponde a uma valorização pessoal enorme que a pessoa leva para qualquer parte do mundo. Não havendo propinas, faz-se um investimento que pode não ter retorno para o país, se a pessoa, e bem, assim o entender.
As universidades lutam com problemas financeiros, todos o sabemos. Porém, têm hoje capacidade para apoiar os estudantes, individualmente, não apenas as suas associações. A Universidade de Aveiro, por exemplo, tem um programa de apoio aos alunos em que ninguém fica fora da instituição por falta de condições financeiras; tem no seu orçamento verbas destinadas aos estudantes, o que é inédito em Portugal.
Há uma parte no financiamento das instituições do Ensino Superior que falta desenvolver: a constituição de endowments, ou seja, de fundos financeiros pertencentes às instituições que permitam ter uma maior disponibilidade orçamental. Isto faz-se com a criação de um fundo no qual são colocados donativos de ex-estudantes, de empresas, e outros, como têm as universidades americanas, privadas e públicas. Nos EUA há mais de 200 universidades públicas com fundos acima dos dois mil milhões de dólares, sendo que os grandes contribuintes são em geral ex-estudantes (estes montantes parecem muito elevados, mas são muito reduzidos quando comparados com o que se passa nas universidades privadas; Harvard, por exemplo, dispõe de um endowment na ordem dos 36 mil milhões de dólares). 
Os europeus não têm muito esta cultura do fund-raising, nem do pay-back. Não lhes passa pela cabeça restituir à instituição que os formou uma parte da verba que o Estado gastou nessa formação para que possa ser aplicada em benefício de outros. Por outro lado, como os europeus já pagam impostos muito elevados, não se sentem na obrigação de dar mais às instituições públicas que funcionam com o dinheiro desses mesmos impostos.
Também não é fácil para os reitores fazerem uma campanha de fund-raisins assente apenas nas dificuldades financeiras das universidades. Uma das formas de atrair donativos das pessoas é estas saberem que o dinheiro que estão a dar tem um objectivo concreto (bolsas, bibliotecas ou outro qualquer objectivo), e isso implica um grande planeamento, que as universidades não têm.

Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube do Autor, 2017, pp.144-145.


A guerra das propinas terminou em 1998, e de então para cá deixou de haver temas controversos! Será mesmo assim ou o movimento estudantil morreu de vez?

Diário, 21.10.2015, Marçal Grilo, p.145

P.S.: Marçal Grilo trabalhou também no LNEC, deu aulas na Academia Militar, participou em Projectos de Desenvolvimento em cooperação com o Banco Mundial, foi Diretor-Geral do Ensino Superior, Membro de Curadores da FFMS, apoiante e mandatário da candidatura de Maria de Belém à Presidência da República. 

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