sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Os diários de Marçal Grilo (VII) (política)


Sobre os primeiros [os deputados], a minha opinião é muito crítica. (...) no Parlamento não se pensa muito. Nos debates, a notória falta de preparação chegava a ser confrangedora, preocupavam-se sobretudo com as questões do dia-a-dia, com o que vinha no jornal, e não propriamente com assuntos de fundo. Quando eu tinha propostas de espectro mais largo queriam medidas concretas, quando levava ao Parlamento medidas concretas, queriam enquadramentos gerais. (...) As pessoas de maior qualidade estavam na primeira e na última fila. Na primeira sentavam-se os dirigentes dos grupos parlamentares, nas últimas os membros que não estavam na melhor sintonia com os líderes do grupo parlamentar. Havia depois uma massa de deputados menos activos, que pensava pouco, estudava quase nada e tinha uma participação a raiar o irrelevante. Sobrava um grupo, a que Ferro Rodrigues e eu chamávamos os hooligans - estavam junto à parede e emitiam uns sons que não se entendiam, serviam só para interromper e criar confusão. Julgo que o cenário não mudou muito de então para cá.

Dos deputados há de tudo - miúdos, ignorantes e tontos. Há alguns que passam as sessões a dizer bocas e a fazer provocações. Felizmente que há um grupo qualificado que dignifica o conjunto

Diário, 12.11.1995

Recordo-me de uma triste tarde em que se discutia o Pacto Educativo e o plenário estava quase vazio. Disputava-se o Portugal-Croácia [Euro 1996]. Os deputados saíam e entravam, gesticulavam dando conta do progresso do jogo, e quando houve um golo ou uma jogada arrebatadora do Figo, até palmas se ouviram no hemiciclo. Não é só o futebol que os entusiasma. O que se passou depois de Portugal ter vencido o festival da canção da Eurovisão foi dos espectáculos mais tristes a que já assisti. Levantarem-se todos para aplaudir o feito é de um ridículo inacreditável, muito pouco digno da Assembleia da República. Ganhar o festival é uma coisa trivial, não há nenhum país na Europa (talvez só a Albânia) que festeje a vitória com os deputados, a parecerem uns badamecos, de pé, no Parlamento
Nas reuniões da Comissão Parlamentar Especializada, o cenário só se diferenciava para pior. Trocavam bilhetinhos, estavam sempre a levantar-se para irem fumar ou atender o telemóvel, liam revistas, rasgavam papéis...parecia uma turma malcomportada

Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube do Autor, 2017, pp.146-147

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