terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Os diários de Marçal Grilo (VIII) (a pobreza)


Fui hoje à entrega do Prémio Gulbenkian da Solidariedade, que foi dado a uma organização que se dedica ao apoio e à reintegração dos “sem-abrigo”. Fiquei impressionado com o discurso do representante desta associação, Comunidade Vida e Paz. Fiquei chocadíssimo quando ele sublinhou que os “sem-abrigo”, por força da sua desinserção social, acabam por esquecer o próprio nome, uma vez que há muito que deixaram de o ouvir! É impressionante. Pior ainda é saber que no ano passado foram enterradas em Lisboa 166 pessoas cujas famílias já nem sabiam da sua existência! Completamente abandonados, marginalizados e esquecidos!

Diário, 20.10.2004

Era calçado só para alguns. Na escola primária tinha muitos colegas que andavam descalços. Vinham sem sapatos, com as calças presas por um cinto feito com um bocado de pano e com uma bolsa às costas onde levavam a ardósia para escrever e fazer as contas. A escola pública ofereceu-me o primeiro contacto próximo com a realidade, muito mais do que o que tinha em casa, onde às vezes, em noites de Inverno com chuva e frio, alguém tocava à porta e a criada vinha dizer:
- Está lá fora uma mulher com três filhos, todos descalços e cheios de frio, a pedir que lhes dêem qualquer coisa para comer.
Eram momentos muito dramáticos em que a mãe mandava vestir e calçar os miúdos com o que havia em casa nos armários, ao mesmo tempo que lhes serviam a comida que tinha sobrado do almoço ou do jantar e que estava no frigorífico.
Aliás, a mãe, como a maior parte das senhoras pertencentes a uma classe economicamente mais desafogada, tinha os “seus” pobres privativos. Pessoas com dificuldades, geralmente viúvas ou velhinhos, que apoiava regularmente, dando-lhes dinheiro ou um cabaz de produtos, como arroz, café, massa, bacalhau, açúcar e conservas. Era um tempo difícil e duro para muita gente. A fome e a miséria tinham presença viva na cidade.

A CRISE; os fechos de empresas; os despedimentos; o aumento dos impostos; o imposto extraordinário sobre o 13º mês; o Cavaco a dizer há uns meses (ainda com o Sócrates) que há limites para os sacrifícios; a baixa dos salários…Entretanto, em Portugal, as 25 pessoas mais abastadas viram as suas fortunas crescer 18,4 por cento nos últimos tempos. Como é que estes crescimentos se verificaram? Que impostos é que esta gente paga? Onde é que as suas empresas estão registadas? Que benefícios receberam do Estado? Que razões invocaram para despedir parte dos seus funcionários? Que uso fazem dos off-shores?
Os Governos, sempre tão prontos a carregar sobre os mais fracos, deviam responder a estas perguntas quando tantos e tantos sofrem na pele um desemprego que as despersonaliza e as atira para a valeta como se fossem um bem descartável.
Sempre houve ricos e pobres, sempre haverá, mas neste momento estamos como estava o Brasil nos anos 80, quando os Ricos viraram Milionários e os Pobres se tornaram Miseráveis.

Diário, 8.8.2011


Este relatório lançado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos mostra que há dois mitos que são mesmo mitos. A crise não poupou os mais pobres. Pelo contrário, foram estes os mais afectados com a perda de rendimento disponível, na ordem dos 25 por cento. Por outro lado, segundo mito, a crise afectou a classe média, o que também não é verdade. Os mais pobres e mais jovens foram os mais afectados. As crianças foram as que sofreram mais, o que nos devia envergonhar a todos. A diminuição da prestação do apoio social – rendimento mínimo, apoio de solidariedade a idosos, abono de família – foi fatal para muitas famílias que viram os seus rendimentos fortemente reduzidos, levando a que muitos não tivessem o mínimo para viver decentemente. Um em cada cinco portugueses vive com menos de 442 euros por mês e temos no país cerca de 2,20 milhões de pobres. É uma situação intolerável.

Diário, 22.09.2016

Os níveis de risco de pobreza anunciados recentemente em Portugal ainda são elevados. Desceram um pouco nos últimos dois anos, mas basta ir à porta de um restaurante ou de um supermercado ao fim do dia e ver as pessoas que vão lá ver se recebem alguma coisa, para constatar que o problema se mantém.

Incrível, um dado apresentado por Noah Harari no livro Homo Deus – História Breve do Amanhã. “Os 62 homens mais ricos do mundo têm tanta riqueza acumulada quanto 3,6 mil milhões de cidadãos do mundo”. As desigualdades são demasiado gritantes para poderem durar. Não é possível nem moralmente entendível uma distorção destas na distribuição da riqueza.

Diário, 27.06.2017


Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube do Autor, 2017, pp.216 e segs.

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