terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Os diários de Marçal Grilo (X) (o futuro de Portugal)


Há que desenvolver o sector dos caminhos-de-ferro para potenciar a importância dos nossos portos e de Sines em particular, que tem tido um crescimento brutal, ao contrário dos outros, que estão quase estagnados. Trata-se de aproveitar o nosso posicionamento geo-estratégico - a abertura e duplicação da capacidade do canal do Panamá vai permitir-nos ser o país receptor das mercadorias que os navios trazem da Ásia, e temos de ter capacidade de as levar ao resto da Europa. (...) Depois temos a plataforma continental que vai ser entregue ao país dentro de dois ou três anos. Este é um desafio para décadas. O país tem de encontrar um modelo jurídico para lidar com o que está no fundo do mar e debaixo do fundo do mar. Negoceia concessões? Com quem e como? Cria uma empresa pública? O próprio Estado gere a plataforma? Contratamos e fazemos acordos com empresas? Terá de ser um pouco parecido com o que se passa com os países produtores de petróleo, que utilizam muitos modelos diferentes.
A plataforma continental não resulta de uma discussão política, mas sim de uma análise científica e técnica sobre o contorno definido geologicamente pelas características da crosta terrestre. Portugal vai-se tornar num dos dez países com maior área no mundo, uma coisa gigantesca, pois engloba a Madeira e os Açores. Há, pois, que encontrar formas para explorar aquilo que existe, designadamente metais raros, fontes térmicas, eventualmente, petróleo e gás. (...)

(Há pouco tempo fiquei perplexo com o que vi na Universidade de Aveiro. Estamos a ter problemas gravíssimos de poluição no mar. No Ecomar, no departamento dedicado à fauna marinha, existe uma parte de investigação e uma parte hospitalar e de recuperação dos animais, coisa única na Europa. Tem um acordo com a Fundação Oceano Azul e com o próprio Oceanário de Lisboa, e um dos animais que lá estava era um golfinho fêmea que tem uma gastrite crónica provocada pelo plástico que comeu). (...) 

Olho com alguma apreensão para a geração mais nova. Espera-os um mundo muito rápido, avassalador, que muda à velocidade da luz. E receio que não estejam treinados para isso.

O que é preciso é fazer um "bom curso" e não "o curso". Vocações muito marcadas só são verdadeiras em meia dúzia de casos. Hoje, a profissão ou as profissões que se vão desempenhar não têm muito a ver com os cursos que se tiram, a não ser em alguns casos específicos.

Diário, 23.01.2008  
(...)

Pela primeira vez na história, os filhos podem vir a ter condições piores do que as que os pais tiveram. Os desafios serão muito intensos e eu gostaria que tivessem os instrumentos necessários para os enfrentar, gostaria de dar-lhes mundo (por isso é que ofereci agora um ano, um gap year, no Dakota do Sul, à minha neta Matilde).

Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube de Autor, 2017, pp.313 e segs.

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