quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Os diários de Marçal Grilo


O Vasco Vieira de Almeida contou imensas histórias do pai. Numa delas descreveu uma rusga que a PIDE fez lá em casa e durante a qual um polícia terá dito: "O senhor inspector, está aqui um livro cujo título é A República e que é de um tal Platão. Isto é para apreender ou não?". O pai Vieira de Almeida disse: "Eu acho que não porque, olhe, o Platão foi de facto comunista mas já abandonou o partido...".

Diário, 27.11.2003, in Eduardo Marçal Grilo com Dulce Neto, Quem só espera nunca alcança, Clube de Autor, 2017, p.38

P.S.: Marçal Grilo nasce quando o pai tem já 44 anos. O seu progenitor é germanófilo, adepto de Hitler, bem como dos nacionalistas, em guerra civil espanhola. Foi educado na ideia de que a família devia pensar uniformemente sobre temas políticos. Cedo abandonou essa ideia. Ficou-lhe sempre a questão sobre o pai que, ainda que autoritário, era incapaz de fazer mal a quem quer que fosse e ainda assim apoio a Alemanha, na II Guerra Mundial, tema recorrente de pesquisa e leitura em Marçal Grilo. O ex-ministro da Educação entusiasmou-se com a campanha de Humberto Delgado em 1958, mas nunca foi um anti-fascista que tivesse uma militância de actos hostis ao Estado Novo. Vivendo na pacata e inexpressiva Castelo Branco, onde os dias eram todos iguais e um Porshe ou uma montra nova causavam sensação, também nunca se aproximou do comunismo. Esteve à beira de embarcar para a Guiné, na Guerra Colonial, mas acabou por não suceder em virtude da Revolução. Defende o serviço militar obrigatório, o peso institucional, as regras e a disciplina que implica (apesar dos abusos de quem manda...que os há).

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