domingo, 24 de dezembro de 2017

Quando ainda se acredita(va)


A minha mãe obrigava-nos a ver todos os grandes ciclos de cinema. Um dos gozos que tínhamos era descrever os filmes do Dreyer que ela nos obrigava a ver. Sempre nos obrigou a ler e a ver muita coisa. Nesse sentido, foi muito presente e preparou-nos muito bem. 

Manuel Aires Mateus, arquitecto, Prémio Pessoa 2017, em entrevista ao Expresso deste Sábado


P.S.: hoje falta convicção e motivação - as pessoas como que perderam a razão/o argumento - para procurar levar a cabo uma educação que vise esta elevação e confronto com as obras maiores do espírito. E então relembre-se o argumento: do contacto com as grandes obras do espírito humano é que a pessoa se eleva, está mais perto de conhecer o coração e condição humanas, pode superar preconceitos vários em contacto com outras, múltiplas, vozes que lhe conferem um horizonte de largo espectro, segue rumo a esse desiderato maior de ser um homem livre. Nos termos relembrados por Rob Riemen, essa elevação, segundo Espinosa, levaria o indivíduo a (procurar) ultrapassar  a estupidez, ou, em termos cristãos, essa elevação levaria o homem a procurar tornar-se mais justo. Se quiséssemos, com o mais recente Roger Scruton, a nossa humanidade não é dada, é conquistada e podemos compreender como da paideia a propor se encontram propostas como a acima descrita.

P.S.1: Lendo-se alguns dos artigos de Klaus Mann, em Contra a barbárie, melhor se percebe a inspiração de Riemen, em O eterno regresso do fascismo e o significado que aí a palavra "fascismo" adquire: a mesma noção presente na descrição de a revolução niilista, isto é, embora um conjunto de pessoas que estão em partidos possam acenar com uma determinada retórica que possa recobrir a defesa de determinados valores políticos, a sua prática demonstra que essa alusão a tais valores é meramente instrumental em um projecto (pessoal) de poder e que, no fundo, tais pessoas nada defendem (e como Grouxo Marx, perguntam "gostam destes princípios? Se não, tenho ali outros"). Não acreditam em nada e, recorde-se, estão, portanto, em óptimas condições para acreditar em tudo (fazer de conta que acreditam em alguma coisa para além da sua carreira; olhamos hoje tanto para a realidade que nos rodeia e é tão isto, infelizmente...não necessita de adquirir contornos de completa catástrofe...basta ser banal e insidioso, como é, esse mal).


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