sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Riso


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Considere-se uma das características das pessoas que as distinguem das outras espécies: o riso. Nenhum outro animal ri. (...) Mas em que consiste o divertimento? Nenhum filósofo, estou em crer, conseguiu alguma vez responder cabalmente. A descrição de riso de Hobbes como «glória súbita» tem uma certa qualidade mágica, mas «glória» sugere que todo o riso é uma forma de triunfo, o que está longe da verdade. Schopenhauer, Bergson e Freud tentaram identificar o pensamento peculiar que se encontre no cerne do riso - nenhum deles, creio, com mais do que um sucesso parcial. Helmuth Plessner viu o riso e o choro como chaves da condição humana, características que tipificam a nossa distinção. Mas esta linguagem fenomenológica é opaca e não conduz a uma análise clara do riso e das lágrimas.
Contudo, uma opinião razoável poderá ser afirmar que o riso exprime uma capacidade para aceitar as nossas inadequações muito humanas: rindo, podemos atrair a comunidade de sentimento que nos vacina contra o desespero. Este facto sobre o riso - apontar para uma comunidade de sentimento - foi bem apontado por Frank Buckley. Todavia, dessa sugestão segue-se outra: só um ser que faz juízos pode rir. De um modo geral, rimos de coisas que ficam aquém das expectativas ou de gracejos que põem as nossas acções lado a lado com as aspirações que ridicularizam. (...)
Por conseguinte, para explicar o riso temos de explicar os processos peculiares de pensamento envolvidos no nosso julgamento dos outros: temos de explicar o prazer que sentimos quando o ideal e o real entram em conflito e também a intencionalidade social peculiar deste prazer. Claro que podemos intentar este tipo de explicação, postulando programas cognitivos no cérebro humano e na «mente física» nos quais são impressos. Mas por enquanto a explicação será pura especulação, com pouco ou nenhum contributo da genética.

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.27-29

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