segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Uma palavra de esperança sobre a morte




P. Pablo Lima


O que não é a morte para a Bíblia? A Bíblia desmistifica a morte: para os povos semitas, ela era uma divindade; para a Bíblia será mais um acontecimento. No panteão da cultura semita, cultura que se encontra antes do Antigo Testamento mas também que lhe dá vida/alimenta, encontra-se o deus morte. Uma espécie de irmão do deus Baal, muito idolatrado pelos judeus nas escrituras (denunciadoras) do Antigo Testamento, que, de resto, será morto por este deus morte (que, por sua vez, sucumbirá às “mãos” da irmã do deus Baal e que passado algum tempo ressuscita). A morte, na Bíblia, deixa, pois, de estar personificada e passa a ser um acontecimento de todas as criaturas vivas (não apenas dos humanos, mas de todas as criaturas vivas). É verdade que em Jeremias 9, 20, p.ex., se diz que “a morte subiu pelas janelas, meteu-se nos nossos palácios, exterminou as crianças e os jovens”, no que são resquícios raríssimos daquela concepção da morte enquanto divindade.
Na Bíblia, nos textos mais antigos do Antigo Testamento, não havia a ideia de vida para além da morte (em Isaías, “para quem desça ao túmulo, acaba a esperança na tua fidelidade. Só os vivos podem louvar-te”; no Livro dos Salmos: “na morte não haverá lembrança de Ti, no Sheol quem te lembrará?”). Para o judeu antigo, a vida nesta Terra é única, por isso preciosa, dom, sagrada. Alguns textos sapienciais referem-se a uma morada dos mortos, o Sheol, que é já um avanço; mas sem consciência. De aí que se enquadrasse a sobrevivência como se traduzindo em deixar descendência.
O culto dos mortos surgiu no Antigo Egipto – a oferta, a oração aos mortos, o vestir muito bem os mortos surge no Egipto. Israel recusou este culto aos mortos, porque não concebia sobrevivência pós-mortem. Em Israel, o culto dos mortos era estritamente proibido (bem como orações sobre os mortos). Previa-se a existência de sete dias de luto, com rasgar de vestes e cinza em cima das cabeças – mas apenas. O luto era apenas uma expressão de dor: nunca uma oração ao defunto, ou pelo defunto [no contexto dos sécs.X-IV a.C.]. Até a sobrevivência da alma, postulada cultura helénica de então, encontrava grandes resistências de aceitação por banda da cultura hebraica. Não existe no mais original da Bíblia um dualismo antropológico, sendo que a ruah será quase como que o respirar, quase a garganta, sendo que séculos volvidos se tornará a dimensão espiritual, o pensamento, o lado emotivo da pessoa. No AT, não há uma grande reflexão teológica sobre a morte; é vista como um dado natural e universal. Mas há uma morte ideal, isso sim, descrita, nomeadamente, no Génesis: morte ditosa, com as últimas vontades feitas, e já com uma idade provecta.
Descrição de duas personagens no Antigo Testamento: Elias e Enoch. Estes textos começam, então, a abrir a porta para a entrada da vida eterna. O que a morte nos ensina é que a vida é frágil e breve (sempre frágil e sempre breve). Moisés é a única pessoa que sabia até onde (de onde não passaria, não propriamente o dia e a hora) duraria a sua estadia na Terra (caso único na Escritura).
A certa altura, a Bíblia apresenta a morte como um castigo. Um castigo pelo pecado. E até um castigo pelo pecado de Adão. Posteriormente, face a este mesmo absurdo da morte, a culpa passa para o inimigo: a culpa é do demónio (“foi por inveja do diabo que entrou a morte no mundo”, diz o Livro da Sabedoria). O pensamento de São Paulo tem um pouco disto: “o salário do pecado é a morte”. Mas a ideia central do AT é: a morte é um absurdo.
A expressão pecado original não é uma expressão bíblica: trata-se de uma expressão Patrística. É uma categoria bastante problemática, sendo que nos últimos 60/50 anos tem sido tentada repensada pelos teólogos. Então, e os que morrem sem terem feito mal algum, as crianças, as vítimas inocentes da história?
Mesmo o Livro de Job, na medida em que, no final, Job passa a ter uma vida melhor do que aquela que tinha antes de as coisas começarem a correr-lhe mal – e isso não suceder, normalmente, com as pessoas, dado que quando as coisas começam a correr mal correm mesmo mal e não ficam num estado melhor do que antes -, não será um livro completamente conseguido ou satisfatório. A morte, mesmo para a Bíblia, é revoltante, é injusta, absurdo. Vapor, tudo é vapor (diz o Ecclesiastes, normalmente traduzido por vaidade, tudo é vaidade).
Aqui, coloca-se a questão de Camus – perante o absurdo -: não será o suicídio a única questão filosófica [início de O mito de Sísifo]. E como vê a Bíblia o suicídio? Judas suicidou-se, mas o rei Saúl, o primeiro rei israelita também se suicidou. Na Bíblia aparecem 4 suicídios: os de Sansão, Saul e seu escudeiro, Ahitofel e Judas. Ahitofel comete suicídio por orgulho (por frustração por não ter sido ouvido); Judas, por remorsos. A Bíblia diz que só Deus pode reclamar a vida humana. Na tradição hebraica, o suicídio de Saul levanta a questão do suicídio que santifica ou ofende o nome de Deus.
Para o AT há antídotos para começar a vencer a morte (durante a própria vida, durante a existência): a) sabedoria ou vida justa; b) práticas de reanimação; c) a existência da ruah (espírito). No cristianismo, não é o homem que vai ao encontro de Deus, mas o Deus que veio “montar a tenda no meio de nós”. A existência de “santos” é completamente estranha ao AT. Só Deus é santo. A ideia de comunhão do homem com Deus é, pois, verdadeiramente singular no eclodir bíblico, na sua máxima intensidade, no NT. Forte como a morte é o amor. A morte biológica deixa de ser uma morte identitária. Se Deus ama tanto os seus fiéis, não pode permitir que esta os separe de SI. Qual o sabor da morte, nas Escrituras? A morte é amarga (Ben Sirá: ó morte, como é amarga a tua lembrança; Ecclesiastes: encontrei algo mais amargo do que a morte – um certo tipo de mulher). Jesus saboreou a morte em favor de nós. Deus beija na hora da morte. É como retirar um cabelo da taça do leite. É preciosa, aos olhos do Senhor, a morte dos seus fiéis. Um beijo para ser autêntico não pode ser roubado; tem que ser trocado entre duas pessoas que se conhecem e se amam: a vida é o tempo oportuno para preparar o beijo de Deus.

Sem comentários:

Enviar um comentário