sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Universidades americanas


Concretamente, o que é que lhe agrada nas universidades americanas?

Primeiro, os recursos de que dispõem. Depois, a abordagem do ensino: é muito democrático. O aluno é respeitado como uma pessoa inteligente que quer aprender. Não vai decorar um catecismo para depois repetir no exame. O professor orienta, abre os horizontes do aluno. Há uma grande consciência de que o aluno precisa de crescer por si, a partir de dentro, e desenvolver-se. (...)

[E relativamente às universidades portuguesas?]

Há facetas que são endémicas. Muitos dos professores foram formados na universidade onde leccionam. Herdaram hábitos e estão a transmiti-los aos alunos. Nas universidades americanas, em regra, uma pessoa não fica a leccionar na universidade onde se formou. Quando termina o doutoramento, tem de ir leccionar noutro lugar, para se libertar do "complexo do pai" e sentir-se livre de expressar divergências em relação aos seus formadores. Há um grande arejamento. (...)

A questão da hierarquia é mais atenuada aqui ou nos EUA?

Lá, a relação é bem mais horizontal. Não é que não haja hierarquia, mas encaixa numa atitude completamente diferente. A começar por algo simples. A rapaziada nova, no primeiro ano, pergunta: "Como é que o senhor quer que eu o trate?". E eu, que não sou nenhuma excepção, costumo dizer: "Olha, desde que eu saiba que estás a falar comigo, podes tratar-me como quiseres. Podes chamar-me Onésimo". E muitos fazem-no. Um ou outro chama-me "Mister Almeida", outros tratam-me por "Professor". Hoje, o mais normal é o uso do primeiro nome. E, no entanto, na aula sou Professor. Uma coisa é a autoridade e o respeito pela pessoa que está a ministrar, a gerir o conhecimento, outra o facto de ele ser uma pessoa humana. (...) Se o professor falhou, qualquer aluno pode corrigi-lo. Se o professor não for capaz de admitir: "Tem razão" ou "Não sei, mas vou ver e logo te respondo por e-mail", esse professor fica diminuído perante os seus alunos. 

Mas já se sentiu desconfortável por ser chamado à atenção por um aluno?

Não. Por exemplo, no outro dia eu estava a explicar que, tal como no inglês, em que Josephson significa "filho de Joseph", também em português Fernando Fernandes é Fernando filho de Fernando. O mesmo acontece noutras línguas. E dei exemplos, inclusive em italiano: Galileu Galilei...Um aluno interveio: "Desculpe, mas no caso de Galileu não foi essa a razão". E explicou-se. Eu agradeci. Mais tarde fui verificar e ele tinha razão. Mas na altura disse-lhe apenas: "Olhe, não sabia. Obrigado". Aprendi imenso a ensinar. Dizia-se antigamente que no primeiro ano nós ensinamos mais do que sabemos; no segundo, ensinamos o que sabemos; e a partir daí começamos a ensinar menos do que sabemos. Quanto mais inteligentes os alunos são, mais inteligentes são as perguntas. E uma pergunta inteligente é a melhor coisa que um professor pode ter. Nunca penso naquilo, no entanto, vai pensar. Quem tem um grupo de alunos muito dotados, e motivados e interessados, está sempre a aprender.

Onésimo Teotónio Almeida, Jornal de Negócios, nº3654, 29-12-2017, Weekend, p.8

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