quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Desejo


duelo, aliança, bênção[1]

tu conheces a veemência do nosso desejo, / os gemidos no escuro, / a apóstrofe das úlceras // não se interrompa em nós / o fio que corre, / a obstinada voz  / invertendo escalas // não torne a frieza do lugar / mudo e quieto o coração, / mas que o teu fogo permaneça / e clame a pedra da aluvião que a inunda, / a sedução do Nome e a sua aura  // não se abandone a leira que a tua mão / o tempo todo cava / à imortalidade mineral, / nem ao positivismo dos cemitérios brancos, // Deus que invocamos nesta hora / como um duelo, uma aliança e uma bênção


[1] José Augusto MOURÃO, O Nome e a Forma (poesia reunida), Pedra Angular, Lisboa 2009, 131.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Um ensaio para guardar


À falta de uma reflexão mais desenvolvida - afora os textos programáticos no Público, logo no dia seguinte à renúncia de Passos Coelho, por Paulo Rangel ou Pedro Duarte - sobre o futuro do PSD durante o ainda extenso período eleitoral que o partido viveu, o artigo que Marina Costa Lobo publicou, este fim de semana, na revista do Expresso fica como um marco para que, já com nova liderança, o Partido Social Democrata possa reponderar caminhos a seguir.
Talvez, de imediato, uma das interpretações/conclusões - que me parecem pertinentes - que Marina Costa Lobo deixa é que a reivindicação de um acantonamento à direita, para prosseguir, faz sentido porque foi ratificado nas urnas (nas últimas legislativas) perde para um olhar qualitativo que permita perceber que à época em que - mesmo assim, perdendo 800 mil eleitores face a 2011 - a coligação PaF é a força política mais votada, a troika saíra e Passos assumia-se para esses portugueses que maioritariamente lhe confiaram o voto como o único capaz de cumprir as metas orçamentais e outras com que o Estado português se comprometera. Se cada um pensar no que se dizia à sua volta, do que era o pensamento maioritário, por exemplo, face a outras propostas dar-se-à conta do maior ou menor acerto - creio que maior - do que a este respeito escreve Costa Lobo. Ora, os factos que sucederam a 2015 - os resultados das mesmas metas - atingidos, até ao momento, pelo actual Governo quebrariam, no entender da politóloga a ideia, por um lado, de competência exclusiva e, por outro, de solução única. Assim, o acantonamento que havia sido ratificado em 2015 - num certo sentido; noutro, a soma que permitiu outra coligação de forças, nem tanto - não valeria já para os dias de hoje. Quando se fala em acantonamento, aqui, parte-se da leitura dos próprios portugueses sobre o posicionamento ideológico do PSD actual, como estando, nos inquéritos a que se refere a investigadora, no nível 8 de uma escala de 0 a 10, em que zero representa o posicionamento mais à esquerda e 10 o situar mais à direita.
Uma outra ideia, não tão frequente como isso no espaço público quando se debate o PSD: foi a doença de Sá Carneiro, e a sua substituição momentânea por Emídio Guerreiro e Sá Borges que consolidaram a mescla entre um PSD mais à direita, ou mais encostado à esquerda, respectivamente, dado que as lideranças impuseram um cunho próprio ideológico a um partido não claramente definido desse ponto de vista. Embora tenha saído muita gente do PSD, escreve Marina Costa Lobo, referindo-se aos que se desiludiram por a via não ser estritamente social-democrata - e ouçam-se ou leiam-se os testemunhos, por exemplo, dos Professores Figueiredo Dias ou Jorge Miranda sobre a altura em que o PSD foi efetivamente social-democrata...e estamos a falar de antes da década de 1980 - ainda ficaram bastantes. Aqui, a académica do ICS não se fica pela abstracção da referência e aponta Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite como fazendo parte dessa linhagem social-democrata que permaneceu no partido, no que não deixa de ser uma interpretação controvertida (só para dar um exemplo, a exaustiva análise de Ana Rita Ferreira ao programa de Manuela Ferreira Leite para as legislativas de 2009 apontam para uma matriz claramente liberal e não social-democrata).
A autora deste ensaio no Expresso, indica que o factor credibilidade da liderança como fundamental, para os portugueses, dada a personalização que hoje a política contém (como mostram os estudos efectuados) e, nesse sentido, a projecção de alguém como sendo competente é decisiva - neste âmbito, Marina Costa Lobo usa, com coragem e acerto, a palavra "harakiri" para explicar do que o PSD se livrou na última escolha eleitoral interna (o factor que, desde a primeira hora, e pese o caciquismo que pudesse existir - e que no final se viu existir em ambos os lados - me fez pensar que Rio venceria as eleições, como aqui previ mais do que uma vez; se bem que com o desenrolar de processos desta natureza, com o seu quê de emotivo, nos faça sempre colocar várias hipóteses). E sublinha que os portugueses que o PSD "perdeu", esses 800 mil que se foram entre 2011 e 2015, eram em larga maioria de classes desfavorecidas. Mas o PSD "perdeu-os" não para o PS, mas para a abstenção. Ora, como a maior parte dos inquiridos - ou pelo menos a fatia mais larga; quer dizer, outras fatias juntas ultrapassam esta - afirma situar-se, na escala de 0-10, no quadro esquerda-direita, entre o 4 e o 6, voltar a ganhar estes eleitores, e aqui voltamos à questão ideológica, significaria deslocar do 8 para um espaço mais moderado. 
Outro ponto que a investigadora faz, com naturalidade mas muito obliterado durante os quatro anos da legislatura anterior, é que o liberalismo, no PSD, tem em Durão Barroso um impulsionador de registo (cerca de 10 anos antes de Passos).

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Dilacerante


O livro Uma boa morte, de Hans Kung, procura ser uma exposição de motivos religiosos/teológicos, a partir dos quais, dentro de uma mundividência cristã, seria possível compatibilizar crença em Deus e defesa da eutanásia. Sendo que se trata, creio, de uma posição bastante minoritária no interior da Igreja Católica,pelo menos ao nível eclesiástico (hierarquia) o livro, há um mês traduzido para português, publicado há 4 anos em alemão - Kung tem dupla nacionalidade e residência, alemã e suiça -, procura falar, pois, em primeiro lugar, e em grande medida, para a comunidade crente cristã católica. Ao procurar explorar a que considera ser correcta imagem de Deus - e as consequências de aí a tirar -, bem como operando sobre as passagens bíblicas que contendem com o suicídio, Kung fala, pois, desde logo, para pessoas que, à partida, e sem excluir outras, se reconhecem fiéis desse depositário da fé de raíz bíblica. Neste contexto, não pode deixar de suscitar algum sorriso irónico que nos debates acerca da eutanásia - nomeadamente, em Portugal - defensores da legalização deste instituto, brandam o livro, por exemplo numa legítima opção de leitura do mundo ateia, dizendo aos seus opositores "vêde bem como Hans Kung prova que Deus não quer que as pessoas sofram até ao fim...". Isto nada desmerece, evidentemente, do argumentário apresentado pelo teólogo, mas não deixa de ser um bocadinho absurdo da parte de alguns dos que o esgrimem.
Entender, como Hans Kung entende, que se Deus for o fundamento da confiança não poderá proibir ao ser humano que disponha da vida quando em sofrimento (p.45, síntese) é buscar um argumento teológico. Não busca, neste contexto, um argumento universal (para crentes e não crentes, digamos assim). Afirmando que sem desmerecer a reflexão intelectual, por vezes a experiência própria, empírica é mais marcante, Kung traz à liça a situação de extremo sofrimento que o irmão viveu, bem como a vida em que um amigo muito próximo se deixou vegetar para intentar uma aproximação ao problema, desde há décadas, que lhe permite considerar que justamente porque acredita e tem confiança na vida eterna é que não pretende prolongar a vida quando regressar à infância, não reconhecer amigos e familiares, estiver completamente dependente. Kung regista mesmo que nenhuma passagem bíblica proíbe expressamente o suicídio (p.48). 
Face à objecção de que se a vida é dom de Deus, tirar (ou solicitar que tirem) a vida a si mesmo seria negar esse dom, H.Kung entende que a responsabilidade perante o dom da vida não deve cessar no final desta e que é legítimo, porque Deus não pode querer que se esteja em sofrimento e este não deve ser glorificado, evitar colocar-se num estádio mais próximo do animal (não racional). Kung cita a mulher do seu amigo quando este se encontrava em estado vegetativo: "o meu marido há muito que partiu; esta não é a mesma pessoa". Numa palavra, "como pode um Deus que ama as criaturas obrigar os seres humanos a perseverar no sofrimento?". A questão é que Kung desenvolve acerca do processo de Alzheimer - para concluir que não quer viver assim (sem conhecer ninguém, numa regressão ao estádio infantil ou animal). Na Alemanha, há cerca de 1,3 milhões de pessoas com Alzheimer. Numa das partes do livro, em que se transcreve uma entrevista de Kung à ARD, a entrevistadora pergunta: "a única resposta digna perante Parkinson é o suicídio?". O teólogo responde que não foi bem compreendido; defende a possibilidade de ele não querer, não se trata de uma defesa universal obrigatória de quem tem certas doenças a prosseguir a eutanásia. E, todavia, descrevendo o processo de Alzheimer seríamos levados a concluir que o estado de qualquer doente nessa situação é de tal ordem...que o autor consideraria impróprio para prosseguir o caminho terreno
A sua posição de que se acreditarmos na vida eterna, então não quereremos prolongar eternamente a vida terrena também poderá levar a uma objecção em sentido oposto: a remissão para a vida eterna, para o para lá da morte terrena, se apressada, não poderá constituir uma desvalorização desta última? Evidentemente, Kung delimita de forma estrita as circunstâncias em que a eutanásia seria permitida - e aduz o dado muito relevante de uma esmagadora percentagem de fiéis católicos na Alemanha serem favoráveis a esse instituto (e, portanto, não o verem como contrário à sua fé; e tomando a relevância do sensus fidei)
Hans Kung considera que em pleno século XXI vivemos mais tempo do que seria suposto há poucas décadas e a doutrina deve ser fiel a essas mudanças e acompanhá-las - já não viveríamos um tempo "natural", mas um tempo criado humanamente (com as melhorias na medicina, com mais medicamentos, maquinaria, etc.), pelo que até o cortar o que seria divino é agora rutura com o meramente humano (uma distinção certamente não isenta de dificuldades, até porque muita gente sofre de modo bem precoce na sua vida).
O problema da eutanásia continua a ser dilacerante e as cartas que Hans Kung recebeu quando expôs a sua posição - nomeadamente, no último volume das suas memórias - e que agora, com grande honestidade intelectual, deixa fixadas neste livro, são disso perfeita tradução: desde os mais rasgados elogios pela coragem da posição minoritária e ousada (e verdadeira para quem a entende mais iluminadora para quem está em tais posições de sofrimento), até à censura e à desilusão de doentes católicos que se viram assim abandonados por alguém que fora durante décadas uma inspiração. Para quem quer pensar neste problema, no interior do que possa ser uma posição congruente com o cristianismo e uma posição menos presente na esfera pública, Hans Kung dá, aqui, um contributo, mesmo no fio da navalha (com o risco da incompreensão, ou de gerar novas confusões, mas que em muitos países tem esse condão de acrescentar a argumentos, mesmo que patenteados na esfera teológica). Kung que simpatiza mais com a abdicação de Ratzinger do que com a exposição de dor – e com a noção de que não se desce da cruz – de João Paulo II. Cristo tem uma posição privilegiada, singular, única e, portanto, o que passou na cruz e viveu na morte não terá repetição. Um Papa não é um vice-Deus; seguimento e não imitação de Jesus Cristo é o que propõe.

UMA CONFIANÇA RACIONAL, RAZOÁVEL E RESPONSÁVEL?


Devo ou não esperar que alguma realidade seja a realidade última de toda a realidade? Uma vida eterna, um repouso eterno, uma felicidade eterna? Tal é o tema da confiança, mas acrescento de imediato: não de uma confiança irracional, mas de uma confiança responsável. Porque é a realidade desta vida de aqui e de agora, são todas as nossas experiências neste mundo, tanto as positivas como as negativas, as experiências vividas felizes que desejamos que durem, mas também todo o não compensado, o não resolvido, tudo o que permanece de maneira provisória, é tudo isso que me dá suficientes motivos para ousar um "sim" a uma vida depois da morte desta. Sem esse "sim", a vida acabaria por me parecer sem objectivo, sem sentido, sem consistência, e o mundo, em última instância, extremamente injusto.
Será irracional a confiança em Deus? Não, a mim parece-me o mais racional de tudo aquilo de que pode ser capaz o ser humano: não é real somente o mensurável, o demonstrável em termos físicos, biológicos ou matemáticos; o que podemos ver, tocar, compreender e avaliar não é a última realidade. Respeitando as convicções do que creem de outro modo, direi que me parece absurdo pensar que precisamente o ser humano seja um ser que morra num nada - tão absurdo como a ideia de que o Big Bang surja do nada. E é assim que me abandono com plena confiança à ideia de que, tal como o universo e o ser humano não podem proceder do nada, também não se dirigem para o nada; de que a passagem para a morte e a própria morte são apenas estações às quais se segue um novo futuro; de que a vida é mais forte do que a morte e de que o ser humano morre nessa primeira e última realidade inconcebível e inabarcável, que não é um nada, mas antes a realidade mais real. Sim, tal é a convicção de judeus, cristãos e muçulmanos, bem como, de outra maneira e com imagens e registos diferentes, de outras religiões: onde o ser humano alcança a última etapa da sua vida, não o espera um nada, mas esse Todo a que os judeus, cristãos e muçulmanos chamam Deus e que é um lugar seguro para os mortos

Hans Kung, Uma boa morte, Relógio D'Água, Lisboa, 2017, pp.122-123.



domingo, 28 de janeiro de 2018

"ACHEI GRAÇA À VIDA"



1.Chegou, com o saco do Expresso na mão. A primeira questão que lhe foi colocada por Fernando Alves passou por uma citação do GPS, de Fareed Zakaria. Respondeu, Sobrinho Simões, remetendo para o que afirmou um Professor (futurista) japonês no "2077 - 10 segundos para o futuro". Mais tarde, falou-se no novo Ministério da Solidão, de Theresa May. Há, percebe-se, objectos culturais, conteúdos de cidadania que são, hoje, incontornáveis numa conversa educada.

2."Os alunos de Medicina são educados, inteligentes, simpáticos. Mas são muito pouco interessantes". Porquê? "Porque não sabem contar histórias". São muito bons em testes escritos, mas não na oralidade.

3.A ideia do Professor japonês do programa 2077, a gente vai com o frasco e faz o chichi na casa de banho e percebe, de imediato, se tem cancro não deixará os patologistas sem trabalho? Não, porque a inteligência artificial é essencial para o big data, mas depois é preciso personalizar - ver, face àquelas características, àquele diagnóstico (mecânica), a história da pessoa, a profissão da pessoa, os ritmos da pessoa (mas não temos já robots, mesmo para a pessoa concreta, a perceber com mais eficácia a existência de cancros e possíveis tratamentos adequados - fica-nos a interrogação das leituras recentes). A questão é se não teremos o diagnóstico de casos de cancro que o não são com a proliferação dessa mesma inteligência. A uma crescente medicina da Precisão, é preciso complementar com uma medicina descritiva/narrativa.

4.Em Portugal, somos muito medicamentados (auto e hetero-medicamentados). Comparamos mal - por excesso - com os países nossos homólogos. Por outro lado, temos taxas de sobrevivência ao cancro melhores do que a média europeia. Em Portugal, há uma boa medicina oncológica. As pessoas, mesmo com cancro, acabam por ser tratadas de modo a que este seja gerido (durante anos), acabando, até, aquele ser humano por morrer por outro motivo (que não aquela doença). Em vários casos, as pessoas, em Portugal, têm, face a um diagnóstico de cancro, uma atitude pré-moderna (pensamento mágico) de que é impossível terem o tumor, que não o "têm", que aquilo não acontece com elas.

5.Cada vez vamos ter uma população mais envelhecida. Esta, não pode ser toda remetida para os hospitais. Por vários motivos, incluindo os custos exorbitantes que tal acarretaria. A melhor solução seria a da telemedicina. Os espanhóis apostaram muito na medicina familiar. Há cerca de metade dos transplantes renais em Espanha face ao caso português.

6.Se as pessoas, mesmo idosas, forem intelectualmente activas, diminuem as alterações cognitivas (para pior). Mesmo para a efectivação da telemedicina, necessário seria que as pessoas tivessem as suas capacidades cognitivas resilientes. Já dormir pouco, e de forma irregular é mau: contribui para a possibilidade de a pessoa vir a ter Alzheimer

7.Manuel Sobrinho Simões não tem telemóvel, facebook - "mas tenho tablet" -, nem sabe cozinhar. Mas considera essencial as pessoas aprenderem numa relação física com as coisas. Os psiquiatras - porque contam histórias engraçadas - e os arquitectos são as duas categorias profissionais de que mais gosta.

8.Por falar em histórias, certa vez Sobrinho Simões almoçava com um médico amigo, quando o empregado lhe pergunta o que pretende almoçar. Escolhe um bife com batatas fritas. O seu interlocutor não esconde o espanto: "o Professor vai comer isso?!". E ele: "Sim, vou. Até como carne de mais". "Pois eu sou vegetariano!",atira-lhe o colega, com superioridade. Sobrinho Simões não se fica: "Pois fique sabendo que se é vegetariano deve-o a mim! Ou pensa que podia ser vegetariano há 10 mil anos? Foi, também, a comer carne que o ser humano é hoje como é (com as características biológicas, resistência, cognição que hoje possui). Ou você pensa que alguém fica esperto a comer raízes?" (gargalhada geral). Hoje, o nosso cérebro, por exemplo, pesa 1,4 kg. 

9.O homem que a revista "The patologist" classificou como "o mais influente patologista do mundo" e foi, em 2002, Prémio Pessoa, diz não ter "medo de morrer; tenho pena de morrer", o que é diferente. É que "achei graça à vida". E "tomara eu ser crente". Jubilado, ainda trabalha pro bono no Hospital de São João, ainda acompanha alunos, mas não dá já as mesmas aulas que outrora, o que lhe causa desconforto. Em podendo, permanecerá a trabalhar depois dos 90, ou a participar, ensinando e aprendendo em Universidades Seniores - essa é a sua vocação.
Vê as profissões a diluírem-se, o que lhe causa estranheza. O filho esteve a estudar, durante cinco anos, no melhor local inglês para a formação em medicina (ou na especialidade pretendida) e nem um único colega inglês encontrou - não querem ser médicos. A conversa foi tomando vários rumos e tópicos diversos - por exemplo, assinalou-se que o coelho foi o último animal a ser domesticado, há 2000/3000 anos, ou que em Portugal há 30% de pessoas que são intolerantes ao leite, enquanto que na Lapónia todas são tolerante dada a falta de Sol (este torna-se fundamental para a sobrevivência). O inverso sucede na África subsariana, lá onde todos são intolerantes ao leite, com excepção dos pastores da Nigéria. 

10.No Espaço Miguel Torga, vimos, ainda, a exposição de Duarte Belo, fotos recentes de locais por onde, outrora Miguel Torga andou - dos penedos, das fragas, das montanhas do Alvão, do Marão, do santuário de Panóias, de São Leonardo de Galafura, peregrinando entre nós.

São Martinho de Anta, 27-01-2018



Fim da sessão, pelas 20h. Mais de meia centena de pessoas, num final de tarde gelado, acudiu ao Espaço Miguel Torga para ouvir o "patologista mais influente do mundo". A grande maioria, vilarealenses. Incluindo o Reitor e vice-Reitor da UTAD, vários professores, autarcas, arquitectos. Um público qualificado, também com significativa presença jovem.

Sábados excelentíssimos


Ontem, ao fim da tarde, em São Martinho de Anta, no Espaço Miguel Torga, Fernando Alves conversou com Manuel Sobrinho Simões que, uma vez mais, se revelou um excelente comunicador.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Ensino e Desenho


O ensino fez parte da sua vida. Quando chegava à primeira aula o que é que dizia aos seus alunos? 
"Bom dia", se era de manhã (risos). A única coisa que eu tinha a preocupação - porque lembro-me de quando fui estudante, quando comecei os estudos -, era não destruir o que as pessoas têm dentro, neste caso, candidatos a arquitetos, em nome de que sabedoria for, destruir isso. Lembro-me muitas vezes dessa crítica que ouvi do mestre Carlos Ramos perante um trabalho que devia ser uma desgraça completa. Ele não disse: "Desista de arquitetura". Desistir nunca é o melhor. 


Vai lá com o treino?
Com certeza que vai com o treino. Vai com a abertura de espírito e dos olhos. Ver...Faz falta ver.


Mas se pudesse dar um conselho não dava?
Não é de conselhos...Há uma coisa que é a própria pessoa. Se contribuir para abrir o espírito e a informação, sim; agora diz que preciso desenhar muito, ver muito. Ainda hoje, na escola, aqui é muito importante o desenho porque o desenho contribui para a qualidade e profundidade do "ver" muito grande. Mas há muitas escolas pelo mundo fora em que o desenho não existe. O desenho acabou. Há muitíssimas escolas de arquitetura onde já não se faz desenho, e é um treino fundamental como complemento do conhecimento. Não exclui os outros, mas é complementar e é insubstituível.

No seu caso é também um escape...
Pode ser um escape no meu caso ou em qualquer caso. O desenho para mim também é uma libertação, uma possibilidade de espontaneidade que nos é facultada. Também há isso, há gozo no desenho, há prazer. Mas já é mais um instrumento também de comunicação com o próprio e com os outros. 

Há sentimento em passar para a folha em branco aquilo que lhe vai dentro...
Há uma relação direta muito grande entre a mente e a mão que desenha. Foi o Alvar Aalto que escreveu um pequeno artigo em que falava exatamente disso. Agora há gente que fala sobre isso com grande sabedoria e profundidade. Por exemplo, [há] um arquiteto finlandês [Juhani Pallasmaa] que escreveu dois livros magníficos sobre esse assunto da ligação entre a mão e o cérebro, como é que nessa relação há uma maior abertura de penetrar na realidade. Depois também há gozo para quem gosta. Mas não é condição para fazer boa arquitetura desenhar bem, estou a falar do desenho como instrumento. É uma coisa que me impressiona muito ouvir de pessoas: "Eu para desenho não tenho jeito nenhum". Isto é curioso porque quem vê os desenhos das crianças na escola primária, todos eles são...expressivos. Refletem o interior da pessoa e são belíssimos. Não me lembro de ver desenhos de criança que não diga: "Olha que interessante". Depois, começam a crescer e lá lhes ensinam que não têm jeito para desenho e deixam  de desenhar. Ficam com [essa ideia de que é] um talento tão especial que ou se nasce assim ou...Não é bem assim, como acontece com tudo

Álvaro Siza Vieira, entrevistado por Filipe Santa Bárbara, Visão, 25-01-2018


Burocracia


[A burocracia] é infernal e, às vezes, torna-se absurdo. Por exemplo, no tema da casa, hoje é obrigatório. Suponho que em Portugal ainda não chegou a esse ponto, mas em França sim. Faz um bloco de apartamentos e todos os apartamentos têm de estar preparados para handicapés (deficientes), o que faz com que, de acordo com as normas, o quarto de banho às vezes - não estou a exagerar no que digo - é maior do que um quarto de dormir. Vi isso em França, porque ali concentra-se a atenção para as aprovações, tem de ser X por X e o quarto de dormir, é um quarto. Há coisas verdadeiramente absurdas.

Álvaro Siza Vieira, entrevistado por Filipe Santa Bárbara, para a Visão, 25/01/2018.

Arquitetos


As pessoas com quem provavelmente gosto mais de trabalhar são engenheiros e com quem trabalho muito. É uma coisa que impressiona como em Portugal a relação entre as diferentes disciplinas que têm que ver com o projeto eram óptimas e bem regulamentadas. Um projeto tinha de ter X profissionais, estruturas, arquitetura...estava tudo regulamentado. Os honorários dos projectistas estavam absolutamente regulamentados, engenheiro de estruturas, a percentagem era em relação ao seu campo de trabalho, o arquiteto em relação à sua vocação e função de coordenador de uma equipa grande. Atualmente é uma trapalhada. A Comunidade Europeia decidiu que não havia tabelas de pagamento, é o livre, o que funciona bem é o livre, e portanto deixou de haver regras e passou a haver muitas vezes uma concorrência absolutamente inacreditável. Não admira que haja quem faça projetos sem qualquer pagamento ou com um pagamento diferente, porque, realmente, não há regras nenhumas. É possível aparecer um cliente - eu continuo a trabalhar com o que era a tabela - e às vezes pedem-me um projeto, proposta de honorários e dizem: "Eu arranjo por metade". Arranje, parabéns!

Álvaro Siza Vieira, Idem.

Arquitetura

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Na arquitetura em geral, como olha para ela? Arte? Negócio? Serviço Público?

É tudo isso. É um negócio, a arquitetura é paga. Não é um negócio, é um modo de vida profissional. Mas também tem implícito tudo o resto, e se não existe o resto então não é arquitetura. Quando existe a procura da beleza que, no fundo, é o máximo da funcionalidade, não é arte, é construção. Mas a procura da beleza está na natureza da arquitetura, acho eu. Um arquiteto do Renascimento, o Bernini dizia que a função principal do arquiteto está em tornar belo o que não é. Acho que ele disse isso referindo-se a uma das suas obras que é uma magistral escadaria num canto lateral do Vaticano e que era um buraco, e é ali que constrói a famosa escadaria. Se se conseguir transformar em belo o que não o é ou em belo o que aparece de novo, é arte com certeza.

Álvaro Siza Vieira, entrevistado por Filipe Santa Bárbara, para a Visão, nº1299, de 25-01 a 31-01-2018, p.65.

Habitação social


Há poucos programas de adaptação social, há pouca habitação social...É uma coisa muito abandonada, não só em Portugal, pode dizer-se que em todo o mundo. Naquela altura, coincidindo com a revolução portuguesa, havia um ambiente na Europa propício. Em Itália havia programas de habitação social ou de apoio à autoconstrução, por exemplo no Sul de Itália, sobretudo na Itália mais pobre; em França, também muito; na América do Sul, evidentemente, muito também. Portanto, havia um apelo, muito por circunstâncias da evolução política também, no sentido de um apoio, da habitação social, da habitação para o maior número, dos direitos à habitação. Portugal entrou nesse ambiente também. Realmente esse tipo de trabalho é que me levou a ser convidado primeiro para Berlim, depois para a Holanda, sempre em temas de habitação social. Depois, até tive de fazer concursos para sair dessa limitação programática. Essa tendência que há de classificar arquitectos ou outras profissões como especialistas disto, especialistas daquilo...A arquitectura tem de ser tudo menos isso, não é uma especialidade, não há um especialista, não pode haver se se quer qualidade. (...) Depende tudo da vontade política. Existe talvez a crença de que a construção é um assunto de empresas, de privados, que cobre todas as necessidades, mas está à vista que não cobre. Há muita gente que não tem acesso por falta de dinheiro ao que está no mercado ou ao que é posto no mercado. Uma acção dos Estados é fundamental e, para isso, tem de haver vontade política e meios.

Álvaro Siza Vieira, entrevistado por Filipe Santa Bárbara, para a Visão, nº1299, de 25-01 a 31-01-2018, p.65.

Portugal e as empresas tecnológicas

O Brexit e a Premier League


Qual será o impacto do Brexit para a Premier League? Ninguém sabe...será que alguém pensou nisso?  Terão alguma vez colocado a hipótese disto acontecer? Aparentemente, e o mais certo, é que o Brexit represente um enorme problema para a Premier League. A verdade é que vamos fechar as fronteiras e automaticamente isso vai dificultar a ida de jogadores europeus para o Reino Unido porque todos vão precisar de autorização de trabalho. Bom, é uma excelente notícia para os restantes campeonatos europeus, sobretudo aqueles que têm mais força, mas um tremendo desafio para os responsáveis da Premier League.

Rick Parry, fundador da Premier League, em entrevista José Carlos Lourinho, para o Et Cetera, suplemento do semanário Jornal Económico, 26-01-2018, p.5

P.S.: 70% dos jogadores da Premier League são estrangeiros. Com o Brexit, os jovens ingleses poderão ter mais oportunidades, mas muito talento (futebolístico) poderá não mais ser mobilizado para aquele campeonato. Se isso sucedesse, seria possível, senão provável, que os patrocinadores retrocedessem no seu investimento naquela liga e, com isso, os próprios contratos (fabulosos) de televisão minguassem significativamente. Pelo menos, enquanto desafios, estas questões são hoje objecto de debate no Reino Unido. Porque, ademais, a indústria do futebol no Reino Unido é muito relevante economicamente: no final da época 2013/2014, a Premier League contribuiu com o pagamento de 2800 milhões de euros em impostos, dando trabalho a 100 mil pessoas e contribuindo com 3900 milhões de euros para o Produto Interno Bruto. Nessa mesma época, registou-se a visita de 800 mil turistas que colocaram o Reino Unido na sua rota de viagem apenas para assistir aos espectáculos de futebol proporcionados pelos jogos da Premier League. Resultado: a média de lotação dos estádios da Premier League atingiu 95,9% da sua capacidade com uma média de assistência de 36691 espectadores.


Ojo


Leio, no artigo de Mira Amaral, no Jornal Económico desta sexta-feira (26/01/2018), os dados económicos relativos à realidade espanhola em 2016: Madrid, Navarra e País Basco eram as regiões de Espanha com PIB per capita superior ao da Catalunha. Na Catalunha, vivia 16% da população residente em Espanha, sendo que a região era responsável por 19% do PIB do espanhol.

Retrocesso face à responsabilidade com o ambiente

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E até na Europa se começa a levantar o pé do acelerador dos esforços para tentar reduzir, o mais depressa possível, a emissão de gases com efeito estufa. O último sinal foi dado pela Alemanha, onde o acordo de coligação negociado entre Angela Merkel e Martin Schulz abandona o objectivo de diminuir essas emissões em 40% até ao ano de 2020. O motivo: a ainda grande dependência das centrais a carvão, fundamentais para alimentar a forte indústria do país.

Rui Tavares Guedes, A realidade e os números, Visão, 25/01/2018, p.8. 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O CÉU


Sobre o Céu:

Não podemos ignorar que a ideia do céu se transformou radicalmente com os cálculos dos astrónomos, com as imagens e os panoramas dos telescópios e dos satélites, com as viagens e as sondas espaciais. O "céu" do qual fala a fé não é - bem vistas as coisas - aquilo que está por cima do mundo, não é um céu em sentido físico (no sentido que sky tem em inglês). O céu da fé (em inglês, heaven), não é o céu dos astronautas, como justamente testemunharam esses astronautas que, por ocasião da primeira viagem à Lua, recitaram no cosmos a passagem bíblica da criação do universo. Não, a ingénua ideia antropomórfica de um céu por cima das nuvens é pura e simples superstição. Deus não vive como "ser supremo acima" do universo, num sentido local ou espacial, nem num 'além-mundo'. Nós, cristãos, cremos que Deus está presente no universo.
O céu da fé também não é um lugar que esteja fora do universo, não é um céu em sentido metafísico. Deus não está, num sentido espiritual ou metafísico, "fora" do universo num além extrauniversal, num "para lá do mundo". Nós, os cristãos, cremos que o mundo está escondido dentro de Deus.
Portanto, o céu da fé não é um lugar, mas uma maneira de ser; o Deus infinito não é localizável no espaço, não é limitável no tempo. Se nos referimos ao céu de Deus, que este seja, então, esse "domínio" invisível, essa "morada" de Deus, do "Pai", da qual o céu físico visível poderá ser um símbolo da sua extensão, da sua claridade e da sua luz. Como em termos poéticos o exprime do mesmo modo o hino nacional da Suiça: "Nos espaços luminosos do céu, posso sonhar sereno e livre!". Todavia, considerado numa perspectiva sóbria e piedosa, o céu da fé não é outra coisa senão o âmbito de Deus, oculto, invisível e inconcebível, do qual a Terra não está excluída - um âmbito que, antes, segundo a mensagem de Jesus Cristo, tudo encaminha para o bem e participa da soberania e do reino de Deus.

Hans Kung, Uma boa morte, Relógio d'Água, Lisboa, 2017, pp.121-122.

Jornalismo como pilar da democracia


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Vi-o hoje. Aprende-se um pouco de história, tem dois grandes actores (um ambicioso director de jornal, Ben Bradlee, enérgico, sem demasiados pruridos, cheio de vontade de vencer, nas audiências e nas manchetes que marcam a História, interpretado por Tom Hanks, e uma mulher ferida, cujo marido se suicidara, de pele dura, sensível e pertencente à boa sociedade, mas olhada de soslaio por ser mulher, de uma força inquebrantável, firme e sentido de missão do e para com o jornalismo (e, mais ainda, deste para com a nação), dona do PostKatharine Graham em papel desempenhado por Meryl Streep), mas não é imprescindível ir ao cinema: o filme tem alguns flashs espectaculares de Spielberg - como as máquinas, as rotativas no momento decisivo da impressão do jornal que explica como há 6 anos sucessivas Administrações norte-americanas sabiam que a guerra do Vietname estava perdida mas insistiram em mandar centenas de milhares de jovens norte-americanos -, alguns diálogos interessantes, mas, globalmente, não é um grande filme. O continuum político-mediático, a disputa jurídica sobre os limites da liberdade de expressão/interesses da nação (Defesa), o lembrar, em nossos dias, de uma imprensa livre como pilar da democracia, o perigo da sedução política aos jornalistas e vice-versa (em relações que desafiam eticamente ambos os lados), a amizade ou a verdade, o sentido do dever, jornalistas com talento e bem pagos para uma comunidade decente, os limites com que se joga para obter novas informações,  as fugas de informação como despoletar de grandes casos, a competição jornalística e a adrenalina dos contra-relógios da primeira página, os primórdios do Washington Post, antes de ser um jornal nacional, a luta, primeiro contra, depois com o The New York Times - que principia por lançar a bomba (do relatório de Robert McNamara), suscitando fortes reacções de multidões nas ruas americanas e o início do fim da guerra, perante a irritação e a tentativa de assassinato desta imprensa por Nixon. Foram os Pentagon Papers

OS PORTUGUESES E A DEMOCRACIA


Mas se é verdade que o apoio dos portugueses ao regime democrático é largamente maioritário, não é menos verdade que esse apoio coexiste com o apoio dos portugueses a outras formas de regime de tipo autoritário, nomeadamente (a) o apoio a um regime de um líder forte sem controlo eleitoral nem parlamentar, bem como (b) o apoio a um regime em que a responsabilidade das decisões mais importantes para o país cabe a um corpo de especialistas e não a políticos democraticamente eleitos para tal
Se atendermos ao facto de entre 2008 e 2014 a adesão dos portugueses a formas autocráticas de governo - nomeadamente a um «governo de um líder forte» ou a um «governo de especialistas» - se situar nos 50% e 67% respectivamente, a questão do apoio à democracia enquanto «único regime legítimo» não pode deixar de suscitar justificada apreensão.

Conceição Pequito Teixeira, A qualidade da democracia em Portugal, FFMS, 2018, p.60

Ministério da Solidão


Curioso o novo Ministério instituído pelo Governo (Conservador) britânico: o Ministério da Solidão.  A Visão conta que este novo ministério será dirigido por Tracey Crouch, actual subsecretária de Estado para o Desporto e Sociedade Civil, que dirigirá um grupo intergovernamental que terá a missão de dirigir a acção sobre a solidão em todas as partes do Governo. "A verdade é que não se trata de um problema singular. Afecta pessoas de todas as idades, com e sem deficiência, recém-mamãs, refugiados, quem tem família chegada e quem não tem, e não tem uma solução simples. O meu desafio é o de criar e coordenar uma estratégia que cruze o Governo, empresas, instituições de caridade e muitos outros parceiros para durar uma geração", explicou Crouch. Ainda citando a newsmagazine portuguesa, "um estudo da universidade de Cambridge acrescenta que as pessoas solitárias são 50% mais propensas a terem uma morte precoce".

in Visão, nº1289, de 25/01 a 31/01/2018, p.32

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Justiça e reconhecimento

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O mundo tão complicado como ele é

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Há algum tempo que não regressava à sala de cinema do Teatro de Vila Real, mas em boa hora o fiz para ver aquele que muitos consideram o melhor filme sobre a crise - realizado por Pedro Pinho (a partir de uma ideia original de Jorge Silva Melo e baseado na peça de teatro de Judith Herzog, construído com João Matos, Leonor Noivo, Luísa Homem e Tiago Hespanha). Centrado num caso de auto-gestão - na realidade da Otis 1975-2016 - numa fábrica situada na Póvoa de Santa Iria,  mescla realidade e ficção, tem operários por actores, coloca os vários dilemas com que se deparam os que vêem a deslocalização dos seus postos de trabalho (em muitos casos em idade em que a requalificação e o emprego futuro não se vislumbram), são confrontados com os sorrisos amarelos dos "reajustamentos" e os "amanhãs que cantam" das Administrações, que se transformam em propostas de rescisão de mútuo consentimento - procurando, de uma vez, juntar cenoura com pau: "agora ainda há dinheiro, daqui a uns meses...não sei" -, os valores propostos a dividir para reinar, e depois as respostas diversas, cada caso é um caso, que trabalhadores dão ao que se lhes remete, entre a esperança e uma vida à beira do abismo, avançar (ou fuga para a frente, há escapatória?) como única alternativa para quem não concebe, não tem os instrumentos, não sabe fazer mais nada, e os dez mil euros que dão para alimentar os filhos, a escola, ao fim de um ano não se sabe mas não ficam sem comida na mesa até lá. Será isso deslealdade ao combate e ao espírito de grupo?, mas que importa quando as crianças estão nas nossas mãos?, e todavia que estratégia, afinal, há, para casa e para o emprego, como defender ambos de modo mais adequado? Sem recuos, avançam mesmo, um grupo de operários - a quem "roubaram" um conjunto de maquinaria, deixando-os na fábrica a ocupar os postos de trabalho, mas sem labor acometido, numa lógica de desgaste emocional-psicológico - para a ocupação da fábrica e mandam-se os gestores e gestoras geniais, cheios daqueles chavões tão típicos - nos intervalos da manicure - para lá de Braga. O filme, por um lado, propõe uma leitura crítica do capitalismo nas palavras - e, por vezes, na voz - de Anselm Jappe (em Portugal, publicado pela Antígona), da perspectiva sobre o significado do trabalho (apenas o que implica a mercadoria?) à questão da competição e ("vou matar o meu vizinho, ou construir uma horta comunitária?"), mas desconstrói, em simultâneo,o ideólogo puro, sem interesse pela realidade, sem interesse pelas pessoas, que vem da Argentina, como uma espécie de antropólogo ou biólogo a ver o que dá, com ratinhos que quer manipular, a experiência de auto-gestão em Portugal, no que pode ser "uma lição para a esquerda de toda a Europa". E as pessoas não querem ser "a lição para a esquerda de toda a Europa", mas dar de comer aos filhos e pagar-lhes os estudos, como desmonta o mais jovem dos operários. Uma surpresa, atira-lhe, ainda este: sair do sistema significaria  não propriamente ser de esquerda, mas nada mais do que abdicar do conforto, das mercadorias, da vida de que ninguém quer abdicar. As contradições, as hesitações, o esboço de alternativas, os limites das mesmas, o tipo que aceita a indemnização para viajar, ir de férias, e seja o que Deus quiser, ou que abandona o país para encontrar um emprego lá fora, as personalidades mais conservadoras ou mais ousadas que são os operários que decidirão se mobilizar talento - quem organize as contas na empresa - implica salários desiguais, ou se isso feriria o projecto igualitário que querem promover, a linguagem cerradamente ideológica, a importância das palavras e o que elas indicam sobre as lentes com que apreendemos o mundo e o que nele mais nos motiva ou importa. Não há solução, mas tentativas de caminho, precário, entre as críticas a um modelo, as dúvidas cidadãs e pessoais, uma sociologia que conta histórias parecidas, verdadeiras, de quem desde menino teve que trabalhar e sabe fazer tudo à mão, mais as curiosidades e o auto-didactismo de quem foi coleccionando nomes de países, capitais, dirigentes políticos. Assomos de fúria, resistência, desespero, dúvida, centralidade do trabalho na vida das pessoas, resiliência, lealdade, hesitação, vontade de mudar, famílias a cargo, precariedade existencial, idealismo, ousadia e temeridade, um mundo em ruínas, a família da empresa, a possibilidade de trair mesmo elementos dessa família, a igualdade e o poder, o deprimido e o falador, a mãe ou o quase reformado, as histórias do quotidiano que são as de décadas de dias de labuta, o abandono por parte de todos os poderes, uma miséria ao fim de tanto ano na fábrica, o mercedes do empresário quando se diz que não há hipóteses de evitar entrar em insolvência, a opacidade de quem não dá a cara, a deslocalização para ganhar mais e desligada do tecido social local, os rostos dos verdugos, a vida em apuros, o mundo tão complicado como ele é.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

POR QUE NÃO SE DEMOCRATIZAM CERTOS PAÍSES OU REGIÕES?


“De acordo com parte substancial da literatura e pesquisa desenvolvida nesta área, os processos de (A) democratização estável são improváveis em países muito pobres com Estados fracos (por exemplo, grande parte da África subsariana, também chamada África negra), (b) monarquias dinásticas que detêm as maiores reservas de petróleo a nível mundial e que gozam de apoio ocidental (por exemplo, os Estados do Golfo Pérsico) C) e os regimes de partido único com Estados fortes e altas taxas de crescimento (China, Vietname, Malásia, Singapura). D) A democratização é igualmente pouco provável em países com pouca ligação ao Ocidente (por exemplo, países situados na Ásia Central ou grande parte de África), (E) mas também regimes nascidos de uma revolução violenta (como são os casos da China, do Irão, Coreia do Norte, etc.)”

Conceição Pequito Teixeira, A qualidade da democracia em Portugal, FFMS, 2018, p.25

PAÍSES DEMOCRÁTICOS NO MUNDO


Se é certo que o número de democracias no mundo era, em 1990, de 69 num total de 167 países (41%), passando para 125 num total de 195 países (64%), em 2015, a verdade é que em muitas destas democracias não estão garantidos um conjunto substancial de liberdades civis e políticas.

Conceição Pequito TeixeiraA qualidade da democracia em Portugal, FFMS, Lisboa, 2018, p.20 

domingo, 21 de janeiro de 2018

Referendos


Aqui, foi mais confirmar (com Rui Feijó):

Entre 1900 e 1993, houve mais referendos na Suiça do que nos restantes países do mundo (num total mundial de 799 referendos, houve 414 na Suiça, ao longo dos referidos 93 anos). (p.35)

Equidade


Aprendendo com o GPS de Fareed Zakaria:

O país onde houve maior mobilidade social, entre 2013-2016, foi o Canadá, país no qual o rendimento dos 20% mais pobres cresceu 24% enquanto o dos 20% mais ricos foi incrementado em 12%. Exactamente o contrário de vários outros países, incluindo os EUA.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Diários


Quinze dias volvidos, sinto-os finalmente mais descansados, tranquilos, a aula flui com outra, bem outra, leveza. A coisa dura rigorosamente uma semana. Depois, regressa o grão que faz com que pegar na máquina exija uma energia e paciência muito assinaláveis. Sigo até à biblioteca - e percebo que nos níveis mais básicos ninguém treina e ensina a pesquisar online, a selecionar o trigo do joio, uma das grandes competências para este século, advertira Eco, sem interlocutores no nosso primeiro ciclo, pelo menos (imaginam-se quiméricas revoluções onde, por vezes, falham os mínimos...de abertura a realidades que são fundamentais nos nossos dias). Não admira que, já mais maduros, ainda muitos façam copy paste à Wikipedia - a questão é, evidentemente, mais complexa e envolve a facilidade com que se copia para trabalhos sem referir fontes, problema tanto "técnico" quanto "ético". Não acontece mais vezes, essa ida ao primeiro resultado apresentado pelo motor de busca, porque em casa há hoje mais conhecimento, formação, cultura, exigência. Onde estas, no entanto, não estão presentes - e, apesar de tudo, não são assim tão poucos casos - é aquela pobreza franciscana a que me referia. 
A fechar fico a saber que entre 2008 e estes dias, o nosso concelho perdeu cerca de 3000 estudantes e que no terceiro ciclo e Secundário poderá vir a colocar-se a questão de uma sobre-oferta (e do que isso significará relativamente aos estabelecimentos de ensino do concelho).

A DEMOCRACIA É UM FENÓMENO ATENIENSE/GREGO?

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John Keane chamou recentemente a nossa atenção para dois importantes aspectos relacionados com a noção histórica de Democracia. Por um lado, reconhece «a prevalência de democracias de diferentes formas e tamanhos», muitas delas antecedendo o modelo ateniense, que remetem para «a existência na região [o mundo helenístico] de tradições inventadas de comportamento que favoreciam a igualdade, o respeito pelas leis e o autogoverno através de assembleias», deste modo lançando dúvidas fortes sobre o preconceito arreigado segundo o qual o modelo ateniense seria um fenómeno localizado e fortuito. O facto de muitas das cidades-Estado terem experimentado essas formas de Democracia apenas por períodos breves que terminariam com a sua substituição por outro tipo de regimes - aristocracia ou monarquia, tanto nas suas formas benignas como nas outras - não pode ser menosprezado, na medida em que tem sido uma importante base argumentativa daqueles que vêem na Democracia um sistema intrinsecamente propenso a falhar perante as adversidades do tempo
Por outro lado, a arqueologia linguística permite-lhe sustentar a ideia de que vocábulos fortemente aparentados com o demos da Grécia clássica se encontram numa língua pictórica chamada Linear B usada pelos Micenos da Idade do Bronze, uma civilização que terá florescido no Peloponeso por volta de meados do segundo milénio a.C. Esta civilização teria «legado aos atenienses uma família de termos que continham o vocábulo vital que simultaneamente descrevia e defendia os poderes de um grupo potencialmente activo no corpo político». Mais do que isso, as estruturas políticas micénicas ter-se-ão inspirado nos Fenícios, que as adoptaram a partir de contactos com os povos da Mesopotâmia. Em breve resumo, não só a «democracia de assembleias» deixa de poder ser vista como um fenómeno singular em Atenas, mas as suas origens remontam a tempos bem mais recuados. Keane entende que a primeira fase de criação e difusão de assembleias públicas deve ter ocorrido por volta de 2500 a.C. nos vales da Mesopotâmia, daí seguindo para leste para a Índia Védica, e para ocidente, nomeadamente através das cidades fenícias de Biblos e Sídon até à costa atlântica
A abordagem de John Keane abre novas perspectivas, e vai ao encontro das críticas formuladas por Amartya Sen a conceitos etnocêntricos de Democracia, encarados como sendo portadores de uma imposição de valores e práticas correntes no Mundo Ocidental a qualquer outra sociedade, sem respeito pelas suas tradições. (...) [ainda que] o grau de sofisticação atingido pelos Atenienses na sua Idade de Ouro, e os conceitos que então desenvolveram, continuam a ser um pináculo do génio humano, cuja atractividade se deve muito ao engenho com que foram plasmados num modelo facilmente reconhecível [ou seja, outros povos desenvolveram possíveis fórmulas em que o debate público influenciou as escolhas públicas, com participação dos cidadãos, em que existiu «deliberação pública», com tolerância e encorajamento de participação, mas sem a sofisticação do arranjo grego]. (...) Esta posição especial não implica que o debate deva ser limitado às suas fronteiras, mas, muito pelo contrário, que as diversas tradições assentes em diferentes níveis de formalização devem ser igualmente consideradas.

Rui Graça Feijó, Democracia - linhagens & configurações de um conceito impuro, Afrontamento, Porto, 2017, pp.30-32.

DEMOCRACIA ATENIENSE


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Na Atenas do séc.V a.C.., ekklesia (assembleia) reunia-se no Pnyx, local que foi sofrendo vários melhoramentos, e onde cabiam, pelo menos, 12 mil cidadãos. A assembleia tinha como quórum mínimo 6000 pessoas e uma população «elegível» para nela participar de não mais de 30 mil cidadãos - de fora, a maioria composta por mulheres, estrangeiros e escravos. Estas reuniões plenárias eram muito frequentes, cerca de 40 por ano. Um grupo de 400 indivíduos (mais tarde, cerca de 500) era designado para preparar as reuniões e organizar aspectos da vida colectiva; Atenas dispunha também de cerca de 700 archai (magistrados), que incluíam os comandantes militares. "A selecção destas pessoas era estritamente controlada, os mandatos eram geralmente de um ano, não renováveis, e o modo de escolha seguia regras que preveniam a hipótese de um mesmo indivíduo exercer cargos em anos consecutivos. Tal). Muitos séculos mais tarde, Montesquieu haveria de afirmar: «A selecção por sorteio está na natureza da democracia» (...) [Todavia] Atenas dispunha [igualmente] de um corpo de oficiais seleccionados por eleição - talvez uns 100 - e não sujeitos à regra dos mandatos não renováveis. Por exemplo: Péricles foi eleito como strategos durante vinte e cinco anos consecutivos" (pp.28-29). A isonomia - direito conferido a todos os cidadãos para exercerem os seus direitos em pé de igualdade - e a isegoria - igual direito à palavra e a apresentar propostas à Assembleia - faziam parte da estrutura democrática ateniense.
O conceito de polis tem duas acepções: tanto designa a comunidade política, como a comunidade sócio-económica.

[a partir de Rui Graça Feijó, Democracia - linhagens & e configurações de um conceito impuro, Afrontamento, Porto, 2017]

LIBERDADE, PARA OS ANTIGOS


Nós não dizemos que um indivíduo que não se interessa pelos assuntos públicos é um homem que trata apenas dos seus negócios. Nós dizemos que um homem assim não tem lugar na nossa sociedade. (Péricles, citado in Blaug and Schwarzmantel, 2014: 26)

in Rui Graça Feijó, Democracia & configurações de um conceito impuro, Afrontamento, 2017, p.27.

PURO SORTEIO, NA DEMOCRACIA ATENIENSE?


O sorteio [na selecção do corpo político da cidade-estado de Atenas clássica] apenas recaía sobre os indivíduos que de alguma forma se tinham proposto para o lugar, não sendo totalmente aleatório.

Rui Graça Feijó, Democracia. Linhagens & Configurações de um conceito impuro, Afrontamento, Porto, 2017, p.29.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Grande coligação


Em torno de que temas se vão tecendo acordos para uma nova Grande Coligação, na Alemanha, entre a CDU/CSU e o SPD? Baixa de impostos; mais apoios sociais; quota-limite para a entrada de refugiados (220 mil/ano); fim da venda de armas à Arábia Saudita.
A juventude do SPD, e a ala mais esquerda do partido, estão contra a coligação.

Do avesso

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O livro começa com uma chusma de estatísticas que tanto podemos encontrar aqui, como nos livros de Pinker ou de Harari (ou também, ainda, na recente entrevista de Bill Gates à Time, por exemplo) e que supostamente documentam a nossa (humana) evolução quanto às fomes, pestes e guerras. O problema destes dados é, não raro, não resistirem a um mínimo esforço crítico em procurar perceber que realidades humanas que por trás deles estão: por exemplo, em Utopia para realistas, Rutger Bregman diz-nos que hoje há "apenas" 10% da população que é extremamente pobre. Quando se verifica o que isso quer dizer, compreendemos que estamos a falar de pessoas que vivem com menos de 90 cêntimos por dia. Não apenas 10% é muita gente, como quem viva com 1 euro por dia já não se encontra na lista. Na edição mais recente de 2077 - 10 segundos para o futuro registava-se que 800 milhões de pessoas vão, todos os dias, com fome para a cama e mais de dois mil milhões alimentam-se insuficientemente. Esta cifra dos 10% parece-me que nada explica, e surge como mais uma das estatísticas que não se aproxima realmente da situação e da qualidade de vida das pessoas - um problema que alguns destes conjuntos de dados que procuram provar como vamos andando muito melhor do que de pretérito apresentam. 
De resto, na obra de Bregman fixam-se grandes constrangimentos políticos e de modos de vida dos nossos dias, sendo que se busca a conclusão: com tanto que temos e evoluímos, como temos ainda estes problemas?! A nota não seria necessária, porque se estamos como estamos é porque não evoluímos assim tanto. Nalguns casos, como o da guerra, a doutrina divide-se quanto ao esplendoroso futuro que aí vem: a guerra foi uma constante em toda a história da humanidade e não é crível que desapareça mesmo no mais avançado panorama tecnológico; outros contrapõem: as democracias nunca se digladiram (entre si) e o caminho democrático continua a ser percorrido (para me ficar na troca de argumentos de 2077...). 
Um dos pontos do livro Utopia para realistas passa por nos mostrar o passado como um país diferente, capaz de irrigar a nossa imaginação: as coisas não têm que ser como hoje são, dado que ontem foram diferentes (e, supõe-se, não para pior, no entendimento do autor). E isso tanto nas horas vagas - no exemplo do feriado, já aqui delineado -, seja na ponderação e quase aprovação de um rendimento básico universal como sucedeu durante o final dos anos 60/início de 70, nos EUA, com a liderança da Administração Nixon. Aí, falhou a passagem da legislação nas câmaras porque, por um lado, inicialmente os democratas acharam o valor escasso e não deixaram passar; depois, porque um erro estatístico-matemático inflacionou valores de divórcios na comunidade onde o rendimento havia sido testado e isso levou ao chumbo do projecto. Finalmente, e não mais importante, porque Nixon, influenciado por assessores, fez questão de vincular a nova prestação social a trabalho ou disponibilidade para trabalho, o que não estava inicialmente previsto - petição de princípio que tornou o debate enviesado e acabou por ajudar a chumbar o projecto. Petição que impede que esta forma de combate à pobreza seja inscrita como cumprindo a legislação atinente aos direitos humanos e seja vista como uma benesse (e não um direito). Da Administração republicana liderada por Nixon fazia parte Milton Friedman. No livro, faltou explicar a diferença entre o rendimento básico incondicional defendido por liberais - de modo mais simples: o rendimento básico como substituindo, em grande medida ou na totalidade o Estado Social - e aquele postulado por sociais-democratas (a acrescer ao Estado Social como o conhecemos na generalidade da Europa Ocidental, nas suas diferenças; na boa entrevista que há dois dias lhe fez o Observador, esta questão já surge: ver aqui. ). Se outros filiam esta medida, na arqueologia da filosofia política, em Thomas Paine, Rutger Bregman fá-lo em Thomas More, em Utopia [que significa não lugar e bom lugar]. Outros diriam que é mais ou menos indiferente saber quem formulou a hipótese pela primeira vez, por pouco ligar o rendimento básico incondicional de Hayek ao de Philippe Von Parijs
Para Bregman, a utopia, se pensada como um modelo a encaixar em dado lugar, uniforme, para todos os tamanhos e gostos, transformar-se-à num desastre. A utopia só fará sentido como o apontar caminhos, o romper preconceitos e ideias feitas, o permitir sair das àguas estagnadas e da tecnocracia. A utopia seria um referencial - mas apenas - para um trabalho político que não iria além do work in progress
Na obra, por vezes, percebemos bem de onde viemos - Thatcher considerava a pobreza um "defeito de personalidade"(p.56), na abordagem não apenas moralista, mas de inexistência de sociedade e de contexto que pudesse explicar mais alguma coisa da explicação pronta a vestir do madraço, do malandro, do preguiçoso. 
Observamos, ainda, como os apoios sociais, não raro, não chegam aos pobres - menos informados e conhecedores, incapazes, sequer, de aceder a estes. E não, os pobres não gastam dinheiro em álcool e tabaco, evidenciam múltiplos estudos (p.36). Dar dinheiro diretamente aos pobres - sem o paternalismo de lhes dizer onde gastar - revela-se em diferentes partes do mundo a melhor e mais rentável opção (porque o que o estado gasta depois, em diferentes serviços, da saúde à segurança, é bem mais do que o que gastaria entregando este dinheiro aos mais pobres).
Somos surpreendidos, igualmente, pela época pré-I Guerra Mundial, praticamente a inexistência de fronteiras - e da necessidade de passaporte, exigência de países primitivos, e mesmo nestes a ser superada brevemente. A ideia de fronteiras abertas não é uma evolução ou reclamação recente: tem mais de cem anos
Tal como, por exemplo, Pedro Adão e Silva e Mariana Vieira da Silva destacaram em livro, nos anos mais recentes, entre nós, também este pensador político holandês sublinha que o Estado Social dirigido só a pobres será um pior estado social (e, logo, também para estes): " 'uma política para os pobres é uma política pobre', observou Richard Titmuss, o grande teorizador do estado social britânico. É um reflexo enraizado na esquerda tornar todos os planos, todos os créditos e todos os subsídios dependentes do rendimento. O problema é essa tendência ser contraproducente. Num artigo hoje célebre publicado no final da década de 1990, dois sociólogos suecos demonstraram que os países com os programas públicos mais universais têm sido os que mais conseguiram reduzir a pobreza. As pessoas estão essencialmente mais abertas à solidariedade se esta as beneficiar também. Quanto mais nós, a nossa família e os nossos amigos ganharmos com o Estado social, mais estamos dispostos a contribuir" (p.46). De resto, o tipo  de Estado Social que criámos foi pensado tendo em conta empregos para toda a vida e o homem como provider em casa.
E anote-se como a desigualdade está associada ao bullying: "tomemos o assédio moral (bullying) como exemplo. Os países com grandes disparidades de riqueza têm mais comportamentos deste tipo, porque há maiores diferenças de estatuto. Ou, nas palavras de Wilkinson, as «consequências psicossociais» são de tal ordem, que quem vive em sociedades desiguais perde mais tempo a preocupar-se com a forma como os outros os veem. Isso mina a qualidade das relações (que se manifesta, por exemplo, em desconfiar de estranhos e ansiar por um estatuto). O stress que daí resulta é, por sua vez, um factor determinante de doenças e problemas de saúde crónicos" (p.65). 
Cada época tem os indicadores que lhe são necessários para aferir de como vai e como vive uma sociedade - na nossa época, o PIB é manifestamente insuficiente, foram criados outros indicadores que levam em conta dimensões como a pegada ecológica mas falta ainda prosseguir. 
Há "empregos da treta" que mesmo que muito remunerados não correspondem a nada de útil para a sociedade - cerca de um terço do total de empregos - que podiam ser feitos por máquinas, ou pelo menos não serem tão bem pagos e haver uma redistribuição salarial em favor de enfermeiros, professores, empregados de recolha do lixo. Era revermos as prioridades da sociedade, agora que devíamos ter mais tempo livre para a arte, a ciência, o desporto, a família e os amigos, apostando no que vale a pena nesta vida (e até, em pessoas como idêntica formação e próxima experiência partilhar o emprego).
E, lá está, o papel dos professores: "Se há lugar onde a demanda por um mundo melhor devia começar, é a sala de aula
Ainda que possa ter fomentado o fenómeno dos empregos da treta ["num inquérito a 12 mil profissionais realizado pela Harvard Business Review, metade dos inquiridos afirmou sentir que o seu emprego não tinha «significado nem importância», e a mesma proporção era incapaz de se identificar  com a missão da empresa onde trabalhava", pp.148-149; "sondagem recente revelou que 37% dos trabalhadores ingleses consideravam ter um emprego da treta", p.149; "olhemos para a saúde, a educação, o combate aos incêndios e a Polícia e descobrimos muita gente que chega a casa todos os dias sabendo que, apesar do salário modesto, fez do mundo um lugar melhor", p.149; "na análise de Graeber, inúmeras pessoas passam toda a sua vida laboral em empregos que consideram inúteis, tais como operadores de telemarketing, gestores de recursos humanos, estrategas das redes sociais, assessores de relações públicas e uma imensidão de cargos administrativos em hospitais, universidades e gabinetes de administração pública. Graeber apelida-os de «empregos da treta»", p.147] a educação também tem sido fonte de prosperidade nova e tangível. Se fizéssemos uma lista das profissões mais influentes, professor seria provavelmente uma das primeiras. Isso não acontece porque os professores acumulam recompensas como dinheiro, poder ou estatuto, mas porque o ensino molda algo muito maior: o curso da História humana.
Pode soar grandioso, mas olhemos para um professor do ensino primário. Quarenta anos a dirigir uma turma de 25 crianças significa influenciar as vidas de mil crianças. Além do mais, esse professor está a moldar alunos na idade em que se encontram mais maleáveis. Afinal de contas, ainda são só crianças. O professor não se limita a prepará-las para o futuro, mas nesse processo tem também um papel direto em moldar o futuro delas
Assim, se há lugar onde podemos intervir de uma forma que traga dividendos para a sociedade mais à frente, é a sala de aula
Mas isso mal acontece. Todos os grandes debates sobre educação centram-se no formato. Na forma de ensinar. Nas didáticas. Apresenta-se sistematicamente a educação como meio de adaptação - um lubrificante que nos ajuda a deslizar pela vida com menor esforço. No circuito das conferências sobre educação, um cortejo sem-fim de gente que observa as tendências profetiza as futuras competências essenciais do século XXI, com as palavras da moda: criativo, adaptável e flexível
O foco invariável é nas competências, não nos valores. Nas didáticas, não nos ideais. Na «capacidade de resolver problemas», não nos problemas que precisam de ser resolvidos. Invariavelmente, tudo gira em torno da pergunta: que saber e competências precisam os alunos de hoje para serem contratados no mercado de trabalho do amanhã - no mercado de 2030? 
Mas essa é a pergunta errada.
Em 2030, é muito provável que haja uma grande procura por contabilistas despachados e sem problemas de consciência. Se se mantiverem as tendências actuais, países como o Luxemburgo, a Holanda e a Suiça tornar-se-ão paraísos fiscais ainda maiores, o que vai permitir às multinacionais escaparem aos impostos com uma eficácia ainda maior, e deixa os países em desenvolvimento com a fatia mais pequena do bolo. Se o fulcro da educação é ir ao encontro deste tipo de tendências em vez de as virar do avesso, o egotismo será por excelência a competência do século XXI. Não porque a lei ou o mercado ou a tecnologia o exijam, mas tão-só porque, ao que parece, é assim que preferimos ganhar dinheiro
Devíamos, pelo contrário, formular uma pergunta diferente: que conhecimentos e competências queremos que os nossos filhos tenham em 2030? Ora, em vez de antecipar e adaptar, estaríamos a concentrar-nos em orientar e criar. Em vez de nos perguntarmos de que precisamos para viver ou ganhar a vida num qualquer emprego da treta, iríamos refletir como queremos ganhar a vida. Trata-se de uma pergunta a que nenhuma das pessoas que anda a observar tendências é capaz de dar resposta. Como poderia fazê-lo? Limitam-se a seguir as tendências, não as criam. Isso cabe-nos a nós.
Para lhe responder, precisaríamos de nos analisar a nós mesmos e aos nossos ideais pessoais. O que queremos? Mais tempo para os amigos, por exemplo, ou para a família? Para fazer voluntariado? Para a criação artística? Para praticar actividades desportivas? A educação do futuro teria de nos preparar para o mercado laboral, mas sobretudo para a vida. Queremos domar o sistema financeiro? Então talvez devêssemos dar ensinamentos de filosofia e de moral aos futuros economistas. Queremos maior solidariedade entre raças, sexos e grupos socioeconómicos? Comece-se com um seminário de estudos sociais
Se reestruturarmos a educação em torno destes ideais, o mercado laboral há de acompanhá-la. Imaginemos que iríamos integrar nos currículos escolares mais arte, história, filosofia. Aposto que a procura de artistas, historiadores e filósofos vai aumentar. O aumento da prosperidade - e o aumento da robotização do trabalho - permitir-nos-ia por fim «valorizar os fins em detrimento dos meios e preferir o bem ao útil». O propósito de uma semana de trabalho mais curta não é ficarmos todos sentados sem fazer nada, mas despendermos mais tempo naquilo que verdadeiramente importa para nós
No fundo, não é o mercado ou a tecnologia, mas a sociedade, que decide o que tem valor real. Se queremos que este século nos torne a todos mais ricos, precisamos de nos libertar do dogma de que todo o trabalho é relevante. E, já que estamos com as mãos na massa, livremo-nos também da falácia de que um salário mais alto reflete automaticamente o valor social. Talvez possamos assim entender que, para a criação de valor, simplesmente não compensa ser banqueiro" (pp.152-155).

Rutger Bregman, Utopia para realistas, Bertrand, Lisboa, 2018.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

São os imigrantes parasitas dos nossos sistemas sociais?


Não há provas de que os imigrantes tenham maior probabilidade de pedir assistência que os cidadãos nacionais. Nem os países com uma rede social mais forte atraem parcelas maiores de imigrantes. De facto, se se aplicar uma correção em função do rendimento e do estatuto laboral, os imigrantes recebem menos benefícios da ajuda pública. Regra geral, o valor líquido dos imigrantes é quase inteiramente positivo. Em países como Hungria, Irlanda, Espanha, Itália e Reino Unido, chegam mesmo a trazer mais receita fiscal por agregado do que a população natural
Ainda não está convencido? As nações também podem optar por não atribuir aos imigrantes o direito a assistência pública, ou só após um número mínimo de anos, ou só quando tivessem pagado, digamos, 50 000 dólares (42 500 euros) em impostos. E poderiam fixar parâmetros equivalentes se houver o perigo de representarem uma ameaça política ou de não se integrarem. Podem criar testes de língua e cultura. Podem recusar o direito de voto. Podem expulsá-los se não encontrarem emprego. É injusto? Talvez. Mas não é exponencialmente mais injusta a alternativa de os manter lá fora?

Rutger Bregman, Utopia para realistas, Bertrand, 2018, p.200. 

Serão os imigrantes terroristas?


Novos estudos da Universidade de Warwick dedicados aos fluxos migratórios de 145 países mostram que, na verdade, a imigração está associada a um declínio nos atentados terroristas. «Quando os migrantes de deslocam de um país para outro, levam consigo novas competências, novos saberes e perspectivas», escreve o investigador principal. «Se subscrevermos a crença de que o desenvolvimento económico tem uma relação com um decréscimo no extremismo, então devemos esperar que um aumento na migração tenha um efeito positivo.

Rutger Bregman, Utopia para realistas, Bertrand, 2018, p.197. 

Esperança média de vida em África

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Segundo a Organização Mundial de Saúde, os nascidos a partir do ano 2000, em África, tinham esperança média de vida de 50 anos; em 2012, essa esperança média de vida subira, já, para 58 anos

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A mão-de-obra dos imigrantes, que é barata, vai baixar-nos os salários?


Para desmontar esta falácia, podemos olhar para um estudo do Centro para os Estudos da Imigração - grupo de reflexão que se opõe à imigração -, o qual descobriu que a imigração não tem quase efeito nenhum sobre os salários. Outros estudos demonstram mesmo que novas entradas levam a um aumento de rendimento da mão-de-obra interna. Os imigrantes diligentes fazem subir a produtividade, o que traz benefícios salariais para toda a gente
E não é tudo. Numa análise do período compreendido entre 1990 e 2000, investigadores do Banco Mundial descobriram que a emigração para fora de um país tem um efeito negativo nos salários na Europa. Os trabalhadores menos qualificados são os mais prejudicados. Nesses mesmos anos, os imigrantes eram mais produtivos e mais qualificados do que geralmente se assumia, servindo até para levar os naturais menos qualificados a ficarem à altura deles. Além disso, a alternativa à contratação de imigrantes é demasiadas vezes externalizar o trabalho a outros países. A ironia é que isso baixa os salários

Rutger Bregman, Utopia para realistas, Bertrand, 2018, p.200.

Os imigrantes ficam-nos com os empregos?


Já todos ouvimos isto. Quando um grande número de mulheres entrou de repente no mercado de trabalho na década de 1970,  os jornais encheram-se de previsões de que uma enchente de trabalhadoras com salários mais baixos iria tirar o lugar aos homens, que sustentavam as famílias. Trata-se de um equívoco insistente, este de que o mercado laboral é como um jogo de cadeiras. Não é. As mulheres, idosos ou imigrantes produtivos não afastam os homens, jovens adultos ou cidadãos abnegados dos seus empregos. Na verdade, criam mais oportunidades de emprego. Uma força de trabalho maior significa mais consumo, mais procura, mais emprego. Se insistirmos em comparar o mercado laboral com a dança das cadeiras, então será mais uma versão em que se vão juntando à festa novos participantes com mais cadeiras.

Rutger Bregman, Utopia para realistas, Bertrand, 2018, p.199

Contra-intuitivo


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Nesta era da «globalização», só 3 por cento da população vivem fora do país onde nasceram.

Rutger Bregman, Utopia para realistas, Bertrand, 2018, p.191