quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Debates partidários (II)


1.Nuno Garoupa vem chamando a atenção para a realidade mais estrutural da crise do PSD, como tendo eclodido no pós-cavaquismo, não mais o partido se encontrando, verdadeiramente, com o país, desde então. E, com efeito, com mais ou menos críticas, com mais ou menos autoritarismo durante o segundo mandato, os Governos liderados por Cavaco Silva acabaram por deixar uma imagem de realização e associados a tempos de bonança que lhe valeram uma Presidência - bastante mais infeliz por sinal - durante 10 anos. Barroso saiu, Santana falhou, Passos extremou. De facto, nunca mais o país maioritário voltou a sintonizar-se com o PSD. A esta indicação, que não é tão evidente como poderá parecer à primeira vista dado que quase ninguém procede a ela, não corresponderá, a meu ver, um diagnóstico completamente acertado sobre as causas de tal situação. Por exemplo, Nuno Garoupa diz que Passos deixou à esquerda todas as "causas de uma sociedade moderna" (cito de cor, do seu terceiro texto no DN dedicado ao assunto PSD, há duas semanas), nomeadamente em causas culturais ou de costumes, insistindo num tom conservador. Em realidade, há mais de uma década, Passos esteve a favor dos argumentos pelo sim, no referendo sobre o aborto; o seu PSD votou a favor das "barrigas de aluguer", nunca lhe escutámos oposição às solicitações para quem reclama a eutanásia...Para mim, é evidente que Passos foi tão liberal nos costumes, como na economia. Não se trata de estar de acordo com estas opções - como não estou; cura-se é de não identificar causas erradas para a tal falta de sintonia do PSD com o país. 
Há sectores no PSD - ou próximos deste - que me parecem querer "recentrar" o partido por aqui, dando assim a imagem de grande modernidade ("para conquistar o eleitorado urbano", dizia José Eduardo Martins, na TSF, apelidando as posições de Santana Lopes, sobre a canabis nomeadamente, de "ultramontanismo"; no debate desta manhã, Santana, que falou numa "ditadura moral da esquerda", afirmou-se contra a legalização da prostituição, como já se havia mostrado contra a eutanásia, ao contrário das posições de abertura face a estas matérias, por parte de Rio; tecnicamente, sim, nestes âmbitos, as posições de Santana, ao contrário das de Passos, são "conservadoras"). Sem prejuízo do prestígio e do reconhecimento intelectual, académico, técnico de muitas destas personalidades - e da sua reputação internacional que costuma render cá dentro também -, a realidade é que a defesa do liberalismo económico, por muitos rejeitado no que este tem/teve de consequências práticas, não pode ser obliterado, nem transmutado por nenhuma soma de "grandes saltos de modernidade"(que, pelos vistos, para alguns sectores, questões como as "barrigas de aluguer" representam).

2.O mais interessante que ocorreu esta manhã no que aos debates no interior do PSD diz respeito, passou-se com os comentários de Luís Montenegro na TSF ao debate entre Santana e Rio. Montenegro foi não só bastante crítico de ambos, com o objectivo de a nenhum se colar - embora tenha ficado bastante claro que votará contra Rui Rio -, como trazia já o programa alternativo: "nenhum dos candidatos deixou uma linha" sobre serviços públicos essenciais como a educação e a saúde e quando questionados sobre que medidas reverteriam foram incapazes de dar exemplos, ao passo que Montenegro trazia na manga as respostas, fosse na possibilidade da gestão de hospitais por Misericórdias, fosse no restabelecimento dos contratos de associação em matéria educativa. Quem tem alternativas, quem vem com programa, quem se demarca de dois candidatos, evidentemente, tem a candidatura em marcha e o lançamento só não pode considerar-se feito, esta manhã, na TSF, porque ocorreu por interposta pessoa, na RR/Público: Relvas, na noite anterior, lançou o futuro do PSD de daqui a dois anos e o primeiro nome que referiu foi Montenegro. A seguir, Pinto Luz. Moedas será "um bom número dois". E de Rangel, já nem se fala (de aí me ter parecido que não seria fácil ao eurodeputado ver de novo o Comboio parar para poder entrar, se bem que com certos maquinistas vale mais não seguir viagem). Rio percebeu a jogada de Relvas e denunciou-a. Santana, sem se rir,  sobre o caso, disse que não fala "dos outros", depois do que disse de Ferreira Leite, Morais Sarmento, António Capucho ou Pacheco Pereira.

3.O debate nas rádios foi, de longe, o mais urbano. O que também revelou muito do artificialismo de algazarras anteriores, feitas para a mise en scene. Por isso, aliás, bastante razão tem Rio de que este tipo de debates pouco acrescenta a qualquer esclarecimento. Por isso também não vale a pena rasgar as vestes e clamar por "pouca vergonha" sempre que há um confronto com estas características. 
Na campanha, houve questões interessantes trazidas pelo Público, mas que não têm merecido nenhum debate na sociedade portuguesa, como a possibilidade de os mandatos governativos terem uma maior duração - um ponto que o filósofo político Daniel Innerarity tem colocado sobre a mesa, para poder haver menos dependência de ciclos eleitorais e se poderem tomar medidas de fundo menos populares com medo das eleições (quase) logo a seguir. Não se falou, de facto, de saúde e educação, o que releva da supremacia do económico-financeiro sobre tudo o mais, no estádio em que nos encontramos. Com alguma nuance, ainda, no Público: Rio afirmou que as escolas de hoje são piores face às de há 30 ou 40 anos, reproduzindo as desigualdades pré-existentes na sociedade. E, no entanto, os resultados nacionais com escolas em territórios socialmente desfavorecidos são do melhor a nível internacional, os resultados em testes internacionais melhoram há mais de uma década, são realizados sucessivos esforços de qualificação profissional e pedagógica dos professores...pelas intervenções que variadas vezes lhe ouvi e li fazer, duvido muito que David Justino, o autor do programa de Rui Rio, subscrevesse esta afirmação.
Rio opta pelo financiamento essencialmente público dos partidos, ao contrário de Santana Lopes (cuja posição, em uma semana, foi evoluindo). Rio falou mais livremente sobre vários temas - incluindo o de dar expressão aos votos em branco (ideia que não me convenceu), com diminuição de deputados. O tema da variabilidade das pensões em função do estado da economia, curiosamente, nenhuma discussão mereceu. Rio sustentará um governo minoritário do PS, Santana recusa fazê-lo. Rio quer défice zero, Santana não faz questão. Rio diminui a despesa, Santana só quer aumentar o crescimento. Ambos diminuirão o IRC. Santana reconduziria a PGR, se pudesse, Rio não se compromete com uma opinião.

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