quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Debates partidários


O segundo dos debates para a liderança do PSD, entre Rui Rio e Santana Lopes foi pior do que o primeiro: Judite de Sousa quis mais do mesmo e, enquanto o despique verbal decorreu na televisão generalista, certamente à cata de audiência, puxou-se, de novo, pelo lado pessoal (contabilizei 25 em 30 minutos, no Jornal da TVI). Se o original não foi bom, imagine-se o prato requentado, com os já esperados ajustes tácticos de ambos os candidatos: de um lado, Santana prescindiu de metade da agressividade do primeiro debate; por outro, sem ir ao extremo de Lopes no primeiro frente a frente, Rio não resistiu à politiquice dos recortes de jornal e de ir também um pouco à canela do seu oponente político. Em direto e ao vivo, falou da falta de credibilidade do seu adversário. No mais, assistiu-se ao que se sabia do domínio da técnica de debate: sempre melhor Santana Lopes a interromper, a provocar, a procurar irritar, a levar a conversa e a fazer o seu ponto político. Deu empate, segundo os comentadores, mas dir-se-ia que mais por controlo de danos de Santana - que considerou mais prejudicial ir à jugular de Rio, como da primeira vez. 
E, todavia, David Justino encontraria, no final do debate, um ponto substantivo de diferenciação, na medida em que Lopes prometeria alcançar os bons resultados orçamentais - e, eventualmente, diminuir a dívida - por conta do crescimento (embora Santana não prometesse "défice zero" e fosse dizendo que não estava obcecado com o tema), enquanto Rio apertaria com a despesa do Estado. Eis a ironia, sublinharia Carlos Carreiras: os que tanto criticaram Passos Coelho por "neoliberal" apoiam agora o candidato que mais segue, então, nessa defesa de corte na despesa, rumo ao "défice zero", um modelo de tipo austeritário (Santana não prometeu cortes na despesa). Judite de Sousa  não foi capaz de perguntar como se alcançava o défice zero, ou "um bocadinho de superávit"com o corte na despesa, isto é, em que despesas cortaria. Dois dias antes destes debate, (bem) entrevistado na sic, por Clara de Sousa, se cortaria "nas prestações sociais, na educação, na saúde?", Rui Rio respondeu: "bem pelo contrário!". Qualquer dia estão de regresso as famosas "gorduras" ao discurso político (na medida em que se diz diminuir a despesa, mas questionado se se mexe nas grandes cifras do Estado, se responde com um "bem pelo contrário"). Se as regras contra-cíclicas mandam fazer o que Rio enunciou na sic - excedente em ciclo positivo, para poder ter défice em ciclo económico nefasto -, a única questão seria se depois de quatro anos muito depressivos para o bolso dos portugueses e com os serviços públicos sob pressão, haveria grandes possibilidades destes cortes (ainda que o princípio me pareça bem). 
Talvez fosse a esta ausência de anúncio de cortes na despesa que José Eduardo Martins - que expressou apoio a Rui Rio; ele que, justamente, fora ao congresso do PSD reivindicar mais social-democracia - se referia quando falou em "programa expansionista" de Santana Lopes (o que muito me surpreendeu; não tinha dado por isso). Santana Lopes falou no "estado abusador", propôs a baixa de irc - vejam o debate sobre a baixa de impostos nos EUA, disse, a este propósito, André Freire no programa como José Eduardo Martins - e não vi em que sentido se poderia qualificar o seu programa como o fez José Eduardo Martins. 
Nos debates sobre o momento, Maria João Avillez deu o seu empurrãozinho a Santana Lopes - hoje, no Observador, percebendo-se como o passismo está mobilizado neste sentido - enquanto Manuela Ferreira Leite sublinhava as credenciais de economista como factor para se votar em Rio (o argumento tecnocrático, como se estivéssemos a escolher o líder da ordem dos economistas, foi mauzinho) e fez equivaler convicções a social-democracia ("o dr.Rui Rio é social-democrata porque é um homem de convicções"). É verdade que não se pode estabelecer de uma vez para todas o que significa ser hoje social-democrata - um ponto em discussão e a estabelecer tanto na teoria como na prática - mas pareceu-me que quer do ponto de vista jornalístico, como do comentariado, como entre políticos a confusão doutrinária e a ligeireza da abordagem foram a nota. 
Diversamente da abordagem de Ferreira Leite, Clara de Sousa ao perguntar a Rio quando foi a última vez que foi ao teatro fez uma espécie de statement - tirando economia e finanças.... - e o embaraço foi como o aumento de impostos de outrora: colossal. A mesma jornalista que foi capaz de detalhar as trapalhadas de Santana e de o colocar em sentido durante toda a entrevista que com ele realizou - o que Rio nunca esteve perto de conseguir. Até por comparação com os seus pares, Clara de Sousa saiu com nota elevada numa campanha eleitoral que existiu durante 15 dias. 

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