segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

PORTUGAL


Resultado de imagem para Portugal

No outro dia, numa entrevista na RTP2, usei a imagem do poliedro. Para mim Portugal não é uma unidade. E isso é uma questão que já vem da formação de geógrafo, com o Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico [De Orlando Ribeiro, 1945], onde se aprende essa espécie de país-mosaico, que depois a evolução histórica, quer do tempo longo, quer do tempo recente, ainda torna mais opaco. Contrariamente ao discurso que habitualmente se faz de que o rectângulo é uma unidade. (...) Se isto é um poliedro, vamos trabalhar assim. Ele vai rodando, vais fazendo as tuas viagens, e vão-se iluminando faces. Vamos aceitar o desafio de que qualquer imagem é ao mesmo tempo um documento e uma metáfora, e que o todo não existe. Ele insinua-se, em diferentes contextos, e isso é o país. (...) Nós temos aquela coisa, que se calhar nos vem do iluminismo, de querer apanhar o todo, de fazer uma produção de sentido, de causa e efeito, de ter as coisas todas encaixilhadas como se fossem um texto muito bem organizadinho. E isso é apenas uma fuga à realidade. Já que a realidade é tão tumultuosa e tão instável, nós preferimos olhar para ela de maneira mais ordenada, porque isso nos diminui a ansiedade. (...) O texto mais antigo que está no livro é sobre o Entre Douro e Minho e o que se diz lá existe: essa ideia de que é uma região fortemente povoada, que combina actividades económicas das mais diversas e que tem um clima que é comparado, às vezes, ao paraíso, e que tem uma elasticidade que vai dos cultivos subtropicais, das espécies trazidas de África ou da América Latina, à floresta nórdica, e um regime de chuvas muito bem distribuído. Eu andei à procura de alguns timbres que são constantes na produção do discurso sobre as regiões, e de outros que, ao contrário, desmentem as ideias feitas. (...) Quando diziam a Orlando Ribeiro que ele apostava numa geografia que às vezes fugia dos temas da contemporaneidade, como a urbanização ou a industrialização, ele respondia que ao geógrafo lhe interessa aquilo que permanece. Hoje os tempos apelam a uma maior atenção à mudança, até porque nos entraram pela porta os efeitos da globalização, um agitador de sossegos impressionante. A revolução, a entrada na União Europeia e a infraestruturação do país, as sucessivas levas de emigração levaram a que tenhamos situações de profunda mudança, e outras de quase congelamento do tempo, em regiões que por falta de proteína económica se vão desfazendo. E os incêndios são um indicador disto. (...) Trás-os-Montes é um estado de espírito. Ainda por cima, o túnel do Marão é como aqueles dispositivos dos filmes de ficção científica, que nos desmaterializa e transporta de um sítio para outro. É um ritual de passagem. Deixaste qualquer coisa para trás, e entraste noutra. Nesse capítulo socorri-me muito de um geógrafo transmontano que morreu jovem, o Virgílio Taborda [1906-1936], para perceber com ele, que recorreu aos provérbios populares, que aquele é um território muito contrastado, que vai desde aquelas mitologias do comunitarismo agro-pastoril das montanhas até às terras intensamente tocadas pela modernização, como a Veiga da Vilariça, ou a zona do Vinho do Porto, que na altura não estava autonomizada. Hoje o Alto Douro Vinhateiro tem mais ressonância do que Trás-os-Montes, e acredito que haja muito cristão que não saiba que um faz parte do outro. Esta foi a região da primeira revolução agrícola a sério do país, onde o vinho do Porto chegou a representar mais de metade das exportações antes da crise da filoxera, e estava enquadrada na economia mais global de então, que era a inglesa. A bolsa do vinho do Porto era a de Londres. O combate à filoxera traz para Portugal técnicas que hoje associaríamos à biotecnologia, mas ao mesmo tempo havia um Trás-os-Montes remoto, que parecia estar metido numa bolha, onde as casas ainda eram cobertas com colmo e estar a 50 quilómetros era longíssimo, porque os caminhos não existiam ou eram fracos. E esse retrato não tem nada que ver com a unidade geralmente atribuída à região. (...) Só os que passaram pela miséria, pelo mau viver, é que não têm esse olhar romântico. Dá-lhes de vez em quando uma nostalgia, também a mim me dá, mas é só isso. E quando nós estamos a imaginar o passado às vezes inventamos coisas que nunca existiram. Quando alguém diz que naquele tempo a gente divertia-se muito, nas desfolhadas e nas romarias, perguntamo-nos como seria no resto dos dias. Eu acho que há hoje uma mistura um bocado tóxica entre saudosismo, nostalgia, que vai bem para coisas como o turismo rural ou como efeito placebo para engolir em seco quando se constata o que está a acontecer a essas regiões, que estão a desfazer-se. Eu não consigo deixar de ficar deprimido quando ando em Trás-os-Montes e vejo aquela constelação de aldeias onde, de todas as casas, as habitadas serão uns 10%. Uma parte deste país está suspenso. Na aldeia de uns amigos, quando pergunto sobre as casas, dizem-me que uma é de um casal que está na Suíça, a fazer contratos de trabalho curtos, que outra é de um médico de Chaves que vai lá ao fim-de-semana, e uma outra é de uns primos que vivem em Lisboa. Ouvimos isto constantemente mas vamos às fontes oficiais e esta realidade não está lá retratada. Qual é o mapa da população de uma semana de Agosto? E de uma semana em Janeiro? Essa flutuação existe no outro país que não este que está esvaziado, mas como ali há mais gente, ela não se nota. Vê-se sempre gente e actividade. (...) O assunto incomoda. Se o assunto não incomodasse, aquilo seria mais entendido como coisa nossa. Há claramente uma sensação de desamparamento. O discurso está centrado nos temas da moda, como a cidade inteligente, a Web Summit, o Ronaldo, ou o Ronaldo das Finanças, e essa agenda é muito forte. O jornalismo só vai ao Portugal profundo se houver alguma desgraça ou algo de excepcional, mas nunca apanhou este processo a que se chama rarefação ou baixa densidade, que decorre da tal desruralização. Um conceito que nem é entendido, o que me irrita enquanto pedagogo. Normalmente a gente trabalha a dicotomia rural/urbano e fala da urbanização, e nunca da desruralização. Há pessoas que foram alimentar a urbanização em Paris ou Nova Iorque, e nas terras de onde saíram persiste esta situação de flutuação, em que ao mesmo tempo tens resquícios de uma cultura pré-moderna alimentada por uma população extremamente envelhecida, mas com desequilíbrios enormes. O Estado modernizou as vilas, as sedes de concelho, num sentido keynesiano, tentando atrair o investimento privado através da construção de escolas, auto-estradas, fibra óptica etc., mas o investimento privado não o acompanhou. Existe uma quantidade imensa de municípios – e esse estudo seria simples de fazer – que estão totalmente dependentes de uma economia assistida, em que a maior parte do emprego é do Estado, local ou central, e, do lado privado, uma parte do rendimento é de poupanças, de remessas, ou seja, é gerado exteriormente. Nós olhamos para esses territórios e dizemos que as pessoas vivem do que o campo lhes dá. Qual quê! Onde é que isso vai. Não entendemos as circunstâncias complexas em que a vida se organiza nessas terras. Os incêndios são bons para apanhar o lado dramático da questão, e perceber esse desamparo, de que já se falou quando se começaram a fechar tribunais, quando os postos de saúde passaram a ficar muito longe, quando vemos a falta de apoio aos idosos, desde logo por desestruturação familiar. Quando temos uma situação limite, todas essas disfunções vêm ao de cima. Por muita organização que haja, as coisas começam a falhar. E cria-se uma espécie de ciclo vicioso, que torna tudo muito delicado. E é um assunto muito sério. 

Álvaro Domingues, em entrevista a Abel Coentrão, Público, 31-12-2017 (na íntegra, aqui)

Sem comentários:

Enviar um comentário