quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Reforma, dizem eles


Curiosamente, foi o principal rosto da crítica, no PS, à actual solução governativa, Francisco Assis, a mais cedo identificar a falta de reformismo como o principal óbice a um desempenho conforme do Executivo. A crítica fez o seu caminho. Mas agora é um dos principais rostos que sanciona a engenhosa coligação que sustenta o Governo, Francisco Louçã (vide o seu comentário semanal na sic notícias, na passada sexta-feira), a reconhecer a necessidade reformista. Dir-se-à que quando utilizam a mesma palavra - reformas - Assis e Louçã estão em desacordo quanto ao seu significado ou, se se preferir, que Assis e Louçã defenderão reformas diferentes. O que é certo é que se por reforma se entender uma alteração, de natureza estrutural, desde logo por via legislativa, do modo de conceber um sector, uma actividade, uma área de presença do Estado, então, aqueles dois políticos de sensibilidades distintas, estarão a falar, sensivelmente, do mesmo. Assis e Louçã entendem que sem uma mudança estrutural numa área ou conjunto de sectores - no caso de Louçã, especificou-se o caso da Saúde - o Executivo não andará bem. Creio que vale a pena tentar entender o motivo por que Louçã adopta esta posição, na medida em que, não raro, se arremete(u) contra BE e PCP como causadores de um "imobilismo" ou "conservadorismo" neste âmbito. Ora, creio que precisamente, e desde logo, por uma questão estratégica, Louçã propõe a reforma: se concretizada, a posição da solução governativa, não seria apenas "defensiva", "conservadora" (ainda que o que se conserve seja bom, no caso entendido como estando em necessidade de "conservação" o Estado Social, "alvo de ataque"; diferentemente, à direita, numa teorização que principiou com Paulo Rangel, mas que tem tido o seu curso e feito escola, o Estado Social agora, com esta solução governativa, é que está a ser debilitado, pois sofreria às mãos do "Estado Salarial"[mesmo que este, por definição, também integre o Estado Social], isto é, da devolução de rendimentos à custa de cativações, incluindo sectores como o da Saúde). Em um segundo momento, porque em avançando com uma reforma no sector da Saúde, a geringonça deixaria uma marca sua na governação. Em terceiro, sendo sua a marca, isso tornaria a reedição de uma solução governativa como a actual mais próxima de voltar a suceder (não se ficando como um "parênteses", nas palavras de Mariana Mortágua em célebre troca recente de artigos com Pedro Nuno Santos, no Público) do que havia sido a experiência portuguesa até 2015. Em quarto lugar, a chegada de Rio ao poder, com seu poder de sedução ao PS (ou este a mostrar-se interessado no flirt), podendo pôr em causa, uma solução à esquerda, no pós-2019, ficaria, certamente, mitigado. ou definitivamente abalado, com uma reforma feita à esquerda, numa área tão sensível como a da Saúde. Em quinto lugar, e mais importante do que tudo, a sugestão de reforma neste sector é a confissão dos grandes problemas que se têm observado no sector, no modo como a população portuguesa os sente, e como o seu melhor ou pior funcionamento se traduz em maior ou menor qualidade de vida das pessoas. Em sexto lugar, da avaliação do funcionamento do SNS, dado como o grande adquirido do país no pós-25 de Abril de 1974, resultará, também, em boa medida, uma parte da avaliação do desempenho do Governo. Em sétimo, dada a vinculação do SNS à avaliação global do Estado Social pela população, a melhor maneira de defender este último, na sua globalidade, seria manter um SNS de qualidade. Evitando, pelo caminho, do ponto de vista da esquerda, soluções como co-pagamentos substantivos que viessem a colocar em causa a adesão de uma parte substantiva da população portuguesa a este, podendo, no pior dos casos, ficar como um serviço de minguada qualidade.
Dito isto, o governo parece inclinado à importante reforma da descentralização - veremos em que moldes e com que efectividade - e, a menos de um ano de novo início do ciclo eleitoral principiar, não jogará uma cartada como a da magnitude e sensibilidade daquela presente na Saúde. Uma coisa será desconcentrar serviços, aos poucos, sem grande ruído da oposição, num país extremamente centralista, em que cada passo em sentido contrário será saudado. Outra, seria mexer, estruturalmente, com um país, corporações poderosas, possibilidade de críticas mais fortes, de fantasmas sobre utentes, de reais riscos. O Governo jogará para ganhar de mansinho, na descentralização - poderá dizer "fizemos uma reforma", e com um substancial consenso - mas não ousará, creio, um rasgo maior do que este.

A Civilização de Francisco de Assis, Giotto e Dante




Eis o mundo gótico. Carregado de imaginação e fantasia. Mesmo a arte e a teologia podiam fazer-se com um sentido de leveza e de jogo. Uma arte luxuriante que os marxistas desdenharam como “desperdício manifesto”. Esta época, em qualquer caso, produziu alguns dos maiores espíritos de sempre como Francisco de Assis e Dante. Por detrás de toda a fantasia e imaginação gótica permanecia um aguçado sentido da realidade. Na Idade Média, havia a concepção de que esta aparência (a que temos acesso) era simbólica enquanto manifestação de uma (outra) ordem ideal, a única verdadeira. Contudo, a fantasia toca-nos primeiro.
Dos sentimentos mais estranhos acrescentados na civilização ocidental, depois da antiguidade greco-romana, conta-se o da cortesia. Isso era, repita-se, totalmente desconhecido da Antiguidade. Trata-se de submissão total a uma mulher quase inatingível, a crença de que nenhum sacrifício seria grande demais, a perspectiva de que se poderia passar a vida toda a fazer a corte a uma mulher desdenhosa. Ou sofrendo por ela. Aos romanos ou vikings isto teria parecido absolutamente absurdo e inacreditável. No entanto, este sentimento tornou-se inquestionável por séculos, inspirando, nomeadamente, a literatura, como a de Shelley, muita dela “intragável”. “Em 1945, ainda conservávamos uma série de gestos cavalheirescos”: tirávamos o chapéu às senhoras, deixávamo-las passar à frente, afastávamos a cadeira para elas se sentarem. Ainda conservávamos a fantasia de que elas eram seres puros e castos, à frente dos quais não se contam certas histórias, nem se dizem certas palavras. “Tudo isso acabou”. Mas como começou? Ninguém sabe ao certo, mas muitos crêem que resultou da viagem dos peregrinos, dos cruzados, e do seu contacto com a literatura persa, onde histórias haveria em que a absoluta devoção à mulher, nos termos atrás descritos, se encontraria. Para Kenneth Clark, porém, a explicação deve ser mais próxima (em termos geográficos): com os maridos a saírem para a guerra, as mulheres tomavam conta dos castelos, um dois anos, e eram alvo de um tratamento muito deferencial, fosse pela verticalidade dos relacionamentos aceite num feudal, fosse pela esperança de uma conquista, como se percebe nos poemas dos trovadores. Os casamentos medievais eram uma questão de propriedade e, portanto, casamento sem amor desagua em amor sem casamento. O culto à virgem Maria também deve ter que ver com o amor cortês, dado que, não raro, é muito difícil distinguir um poema que é dirigido à amada do que é referido à Virgem. O maior de todos os escritos sobre o amor ideal – A vida nova de Dante – é quase um trabalho religioso.
O amor cortês não foi só contado e cantado em poesia, mas também em prosa. Não se pode afirmar que o romântico seja uma invenção gótica; deve provir de “românico” – das regiões de França ainda marcadas pelo mundo romano. Mas que o romance com suas vigílias e cuidados intermináveis exerceram um grande fascínio nesta época gótica europeia. Durante 200 anos, o Romance da Rosa deve ter sido o livro mais lido na Europa, com excepção da Bíblia. O efeito destes romances sobre a literatura e romances do séc.XIX foi decisivo, como se vê em Tristão e Isolda, de Wagner. O auge da civilização cortês foi atingido no final do século XIV, em França, sob o patronato de Duc de Berry. Época muito difícil para os camponeses, e onde a observação de animais se impôs como um significativo tópico de vida. Havia uma verdadeira obsessão pelos pássaros. Estes, seriam símbolos da liberdade. A corte borgonhesa ditava a moda para toda a Europa. O grande mérito da civilização ocidental foi nunca ter parado de se desenvolver. Mesmo o amor cortês conheceu formas inesperadas. Para a história, ficaria o jovem rico e dândi, Francesco Bernardone, “o mais cortês dos homens”, profundamente influenciado pelos ideais franceses de dignidade do cavaleiro. Um dia, quando vestira as suas melhores roupas, preparando-se para alguma campanha de cavalaria, encontrou um pobre homem cujas necessidades pareciam maiores do que as dele próprio. Deu-lhe o seu manto. Naquela noite sonhou que deveria reconstruir a cidade celestial. Desfez-se, mais tarde, dos seus bens, de modo tão liberal que o seu pai, rico homem de negócios da cidade italiana de Assis, o deserdou. A sua resposta foi tirar a roupa que tinha e dizer que nada tinha, absolutamente nada. O Bispo de Assis escondeu a nudez, dando-lhe um manto. E Francisco foi para a floresta, ao som de uma canção francesa. Passou os três anos seguintes na mais absoluta pobreza. Cuidando dos leprosos, e reconstruindo, com as próprias mãos, Igrejas. Em tudo o que fazia, adoptava literalmente o Evangelho e chegou a traduzi-lo para a poesia dos cavaleiros andantes. Dizia que, para ele, a pobreza era a sua Dama. Este comportamento teve a ver com o facto de Francisco de Assis se ter apercebido que a riqueza corrompe e é causa de guerras e, por outro lado, achar descortês estar ao pé de alguém mais pobre do que ele.
Desde o início que todos reconheceram, em São Francisco, um génio religioso, “o maior que a Europa produziu”, segundo Clark. Embora fosse apenas um leigo, o Papa concedeu-lhe permissão para fundar uma Ordem em Assis (de cuja administração abdicaria, sabendo que não era um grande administrador; a Ordem teve um grande peso político no interior da Igreja). Francisco de Assis morreu, em 1226, com 43 anos, dobrado ao peso da austeridade auto-imposta. Apenas dois anos após a sua morte, foi canonizado. Mas o culto da pobreza não sobreviveu a Francisco, nem sequer sobreviveu em sua vida. A Igreja fazia parte do sistema internacional de bancos que surge no séc.XIII. Os fraticelli são denunciados como hereges e a queimar pela Inquisição. Até mesmo os humanistas do séc.XIX que o invocam Francisco de Assis não pretendem a santificação da pobreza, mas antes aboli-la. E, não obstante, a ideia de que para o espírito ganhar primazia as coisas materiais têm que perder essa importância está na base de todas as religiões. E ao expressar este ideal com tal simplicidade e graça, Francisco entrou na consciência europeia. E, independentemente de quão aquela vida possa ser praticável e replicável, é a essa vida e a essa consciência que os melhores espíritos voltarão. Ao libertar-se da sedução/ídolo da posse, Francisco de Assis atentou (e sublinhou) (n)a unidade da criação e na possibilidade do amor universal. Foi por nada ter que o Santo de Assis pôde sentir a fraternidade com toda a criação, fossem os seres vivos, fossem o ar ou o fogo. Isso o inspirou no Chamado Cântico das Criaturas e numa série de lendas recolhidas em Fioretti. Se nem todos podiam apreciar as disputas de Abelardo, ou de Tomás de Aquino, contudo entendiam estas histórias de Francisco. Ainda durante a vida de Francisco, um outro mundo surgia, predecessor do nosso: o mundo das cidades, do comércio, dos bancos, da vontade de enriquecer sem deixar de ser respeitável.
Kenneth Clark qualifica Dante como o maior poeta-filósofo de todos os tempos. Ainda pertencia ao mundo gótico, das grandes catedrais, ao contrário de Giotto que trabalhava em coisas muito sólidas, aqueles personagens que tinham a ver com quem os banqueiros, para os quais trabalhava, lidavam.

Sobre Igreja e ultraliberalismo


Vittorio V. Alberti: O que significou, no plano cultural, a crise de 2008? Refiro-me à ideologia ultraliberal, já proposta pelos «neoconservadores»?

Cardeal Peter Turkson: Em 2008, entrou em crise o capitalismo financeiro sem regras, ou seja, o sistema de expansão até ao infinito, desligada da produção: idolatria da expansão financeira desligada da...

Vittorio V. Alberti: ...sim, da economia, ou seja, da produção real, portanto, no fim de contas, do capitalismo económico.

Cardeal Peter Turkson: A ideologia ultraliberal, essa espécie de expansão infinita dissociada da economia, é corrupção em si, porque é corrupção do humano e, portanto, do humanismo, é escravidão do homem porque, fundamentalmente, é um egoísmo extremo. Os seus resultados sociais e culturais foram e continuam a ser devastadores. 

in Alberti e TurksonCorrosão, Paulinas, Prior Velho, 2018, pp. 101-102.


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Um olhar pelo mundo


*No Irão, as manifestações em 2018, durante as quais morreram 21 pessoas, as mais fortes desde 2009, relacionaram-se com o aumento dos bens básicos: o surto da gripe das aves levou ao abatimento de 15 milhões de galinhas. O preço dos ovos disparou 50%, ao mesmo tempo que o Governo impunha cortes nas subvenções aos produtos de primeira necessidade, sem cortar no apoio aos sectores islâmicos mais conservadores. De aí que estes não tenham conseguido capitalizar com a crise. A corrupção também estará na base dos protestos. Num artigo na Nation, Trita Parsi, politólogo iraniano, viu ainda aqui o dedo de Trump: ao colocar sob pressão o compromisso nuclear do Irão, lançou nos mercados e nos investidores a dúvida sobre aquele acordo é para cumprir. Algo suficiente para que o recurso, essencial, ao crédito bancário, para investimentos - que travem o significativo desemprego (24% para jovens entre 15 e 29 anos) - fique em cheque e com isso a tensão social, que poderia advir da baixa do desemprego, não tenha tréguas.

*Há cerca de 120 mil presos na Coréia do Norte. Na Tunísia, único caso aparentemente bem sucedido das Primaveras Árabes, as manifestações também sucederam neste início de ano, com o aumento de impostos e do valor dos produtos a chegar a 30%. A moeda, a desvalorizar a 60%. Desemprego crescente. Ajuda do FMI. Nove governos em 7 anos. Na Arábia Saudita, o défice para este ano, prevê-se de grande magnitude. Os dirigentes, olhando ao exemplo iraniano, querem paz social. Lançado, em Janeiro, o IVA.

A Civilização da consagração de Cluny



Há três ou quatro momentos da história humana que representam saltos quânticos, verdadeiros avanços, que parecem situar-se acima do puro materialismo, uma energia, um excesso que contamina tudo e todos. Pode ser o séc.VI a.C, o florescimento da filosofia, da poesia, das artes, o simultâneo florir Egípcio, da Mesopotâmia ou da Grécia. Também pelo ano 1100, em grande parte do mundo se assinala um desses momentos maiores. E na Europa, muito em particular, tal deve ser destacado. Pode afirmar-se, então, não sem razão, que a Igreja é a criadora da Civilização Ocidental. Não enquanto depositária da fé, mas enquanto poder. A Igreja afirma-se, nesse momento, como força democrática, onde, desde a obscuridade, e pelo mérito, alguém pode ascender às posições mais honoríficas. A internacionalização ocorre, com eclesiásticos em posições de destaque num dado país a poderem ser originários extramuros. Como hoje sucede com a ciência, com os cientistas, o que mostra o lugar e centralidade, que em épocas diferentes, o religioso e o científico ocuparam. Também os artistas viajavam sem interdições e eram requisitados. Não se tratou de exclusiva contemplação nos mosteiros: as peregrinações e as cruzadas foram formas físicas de manifestação desta energia colocada na ideia de eternidade. As peregrinações faziam-se, sobretudo, a Jerusalém, esperando a recompensa divina pela adoração das relíquias dos apóstolos, fosse um rosto, ou mesmo um dedo. Havia, já, abadias organizadas para acolher estes peregrinos, mas os perigos a que estes se sujeitavam, imensos. Não raros, pereciam pelo caminho. Jornadas com 7 mil peregrinos, em média, registe-se. E foi desta massa crítica que surgiram os voluntários para as cruzadas: se estas também podem justificar-se a) pela ambição dos jovens, b) como resposta aos normandos, c) como reacção à depressão económica, em grande e principal medida tinham esta característica de apelo ao eterno. Neste Período, celebrar-se-á Santa Fé, martirizada pelos romanos por se recusar a adorar ídolos, “a Antígona cristã” - a quem se atribuíam milagres e a qual se…idolatrava.
Por volta de 1130, apesar da armadura e estrutura sólida da fé cristã, permaneciam suficientes nuances à volta dessa mesma fé para permitir um dinamismo e avanço, onde não existia espaço para qualquer subtileza, como em outras civilizações. Por Paris, nessa altura, está Pedro Abelardo, já uma estrela, um professor carismático, brilhante, o “questionador invencível” - e quem observar o debate de ideias desse tempo ficará com a cabeça a “andar a mil”. Se Anselmo considerava que a divisa deveria ser “creio para entender”, Abelardo inverte o axioma “quero entender para acreditar”.
O Abade Suger, abade de Saint Denis desde 1122, viria a dizer que só podemos aproximar-nos da verdade absoluta, que é Deus, através da acção de peças preciosas e belas sobre os nossos sentidos. Uma teoria revolucionária na Idade Média e o fundamento intelectual de todas as obras sublimes nos séculos seguintes e continuou a sê-lo, ainda no séc.XX, relativamente à nossa crença no valor da arte.
Foi no século XII que o culto da Virgem realmente floresceu, e em Chartres, que possui uma Catedral de uma harmonia e perfeição completas, encontravam-se as relíquias mais preciosas a ela atribuídas. Se arte é um guia, vemos que a Virgem, nos séculos IX, X, XI não ocupou um lugar destacado na mente dos homens. Kenneth Clark considera que o culto da Virgem pode ter vindo do Oriente, porque quase todas as primeiras representações da Virgem como objecto de devoção são de um estilo particularmente bizantino

A "banalidade do mal", segundo Peter Turkson


Vittorio Alberti: Quanto mais mal cometo, mais me corrompo? 

Peter Turkson: A questão não deve ser posta em termos de medida ou, como diz Francisco, de quantidade. Eu não me corrompo automaticamente quando atinjo um certo número de pecados, como se a corrupção fosse uma espécie de meta. Não, a questão deve ser posta em termos qualitativos. Ou seja, se eu frequento muitas vezes o pecado, habituo-me ao mal e, se me habituo ao mal, considerá-lo-ei normal, e desse modo perderei, ou reduzirei muitíssimo, a minha capacidade de me elevar e de me abrir, que, em termos morais, significa que perderei a capacidade de amar e, em termos intelectuais, significa perder a minha elasticidade, a minha curiosidade, em mim e com os outros. Assim, esse processo conduzir-me-á inexoravelmente a reduzir, a «desidratar» a minha respiração moral e intelectual, até me barricar no meu restrito ponto de vista, até me reduzir à minha altura terrena, sem aspirações, sem ideias nem diálogo com o universal. É esse o carácter obtuso do processo corruptivo

Vittorio Alberti: Isso recorda Adolf Eichmann na Banalidade do mal de Hannah Arendt. 

Peter Turkson: O hábito do mal apaga a consciência. Corrompe a consciência! O mesmo acontece no caso do suborno, de um trabalho obtido a troco de favores ou da aceitação de ofertas para atribuir esses trabalhos ou favores. Sempre em prejuízo de todos, em prejuízo dos pobres, em primeiro lugar. Em prejuízo, portanto, da justiça, da justiça social, da liberdade. A corrupção é estupidez, cegueira, é eliminar Deus, o espírito da própria vida, do próprio horizonte interior, é perder o sentido das proporções e da realidade. A corrupção é rejeição da crítica daquilo que se faz. Nisso consiste a banalidade do mal. Eichmann foi um paradigma de pecado e de corrupção abissais. O percurso para a corrupção é o pecado, mas eu posso cometer cem vezes o mesmo pecado sem me corromper. Posso, por exemplo, roubar cem automóveis, mas mantendo sempre a consciência de que estou a fazer mal a alguém. Do mesmo modo, posso roubar cem automóveis e corromper-me, ou seja, sentir que a minha actuação, mais do que justa, é necessária, e cair no triunfalismo. É muito difícil distinguir pecado e corrupção, e também pode ser arriscado da parte de quem julga, mas é necessário para nos mantermos livres.

in Corrosão, Paulinas, 2018, pp.75-76.

"Civilização"



Se me perguntarem o que é, não sei dar uma definição. Mas quando a vejo, sei identificá-la. Assim diz, da civilização, Kenneth Clark. Para o historiador, a civilização tem que ter a ela associado o duradouro, a noção de que algo persiste no tempo, que não é efémero. Reclama, a quem a constrói, essa crença no futuro, ou, se preferirmos, quem ergue os seus alicerces, tem esse ponto de vista da realidade subjacente. No caso do Ocidente, fundamental foi a tensão, sem um vencedor (absoluto), entre o poder espiritual e temporal (para que não houvesse a estagnação, quando um dos poderes esmagou o outro, nas civilizações bizantina e egípcia). As civilizações erguem-se sempre num pós-guerra, foram pois resultados do sucesso na guerra. A civilização europeia, no século X, estava pronta a avançar e a conformar um mundo já sem os peregrinos bárbaros. Carlos Magno, uma figura decisiva. No poder temporal, note-se como até ao século VI, a crucifixão não foi um símbolo utilizado (para emocionar as pessoas). Apenas a partir do século X, essa representação ganhará o destaque que virá a adquirir de aí em diante. Para compreender uma civilização é mais importante olhar para os prédios de uma cidade do que para um discurso do Primeiro-Ministro.

P.S.: fui procurar esta série no Youtube, por sugestão de João Carlos Espada, no seu mais recente artigo de opinião no Observador.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Uma conversa com o Papa


Compreendi melhor a personalidade extremamente crente deste Papa. Claro que é normal que assim seja, mas, ainda assim, é muito crente. É crente quando sente cólera, revolta, no amor aos pobres, na vontade de se opor à guerra, de manter sempre o diálogo, de chamar à atenção para as desigualdades económicas e sociais no mundo. (...) Não sei. O que sei é que a personalidade forte deste homem é verdadeiramente original. Francisco fala como um laico, mas é o Papa. E é isso que explica o seu sucesso. É algo muito, muito raro na história da Igreja. É daí que vem o enorme sucesso que faz entre os ateus e os agnósticos, ele fala como você e eu. E, depois, tem também um discurso onde há muita emancipação. (...) Não digo que o Papa seja alguém de esquerda, de forma alguma. A sua mensagem é, sobretudo, espiritual e política, mas a sua visão do mundo é original. (...) Os católicos de direita, que não gostam assim tanto deste Papa porque consideram que ele têm muitas obrigações sociais, não gostaram. Muito embora o Papa não seja um revolucionário nem um marxista. Por outro lado, os ateus e os agnósticos encontram-se na palavra deste Papa - que é muito mais livre. Era também isso que queria compreender: a forma como ele fala, que é muito clara, muito directa, com muito pouca "langue de bois" [conversa fiada]. (...) Antes de mais, vê-se que Francisco é um homem habitado pela fé. Disso tenho absoluta certeza. Tem bondade, generosidade e, ao mesmo tempo, não tem ilusões sobre os homens. Tenta ser o mais sábio possível. Defende uma Igreja que seja, antes de mais, dos pobres. É muito voluntarioso e quer agir depressa porque diz que não tem muito tempo. Tem uma personalidade muito forte - que, na minha opinião, tem trazido muito à Igreja - e também porque vem da América Latina, da Argentina. (...) Se a Igreja Católica tem a pretensão de ser universal, sim. Terá de ter um Papa africano, asiático. É a primeira vez na história de Roma que há um Papa não europeu. E é de origem italiana. Portanto, até tem uma certa proximidade com a Europa. A Igreja está confrontada com um problema: será que é capaz de se tornar verdadeiramente universal? É um desafio para todos. Será que os valores universais podem ultrapassar as diferenças culturais e religiosas? É um desafio formidável - para o Papa, para a Igreja e, até, para as sociedades e para a globalização. (...) Quer intervir por duas razões: tem medo da paz e da guerra, porque vivemos num mundo muito perigoso. E tem medo de outra coisa que é causada pela globalização: as desigualdades económicas e sociais, que são cada vez mais fortes. O mundo é cada vez mais um lugar de desigualdades. A mensagem do Papa Francisco é uma mensagem religiosa, mas marcada por estas duas questões: a paz e a guerra e as desigualdades. 

Dominique Wolton, sociólogo francês, autor de um livro de conversas com o Papa Francisco, entrevistado por Elsa Araújo Rodrigues, RR, 26-02-2018. Na íntegra, aqui.


As desigualdades no mundo


A região do mundo onde existem maiores desigualdades (económico-sociais) é o Médio Oriente.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

China


Devido, em grande medida, à política de filho único, há, hoje, na China, mais 30 milhões de homens do que mulheres

Igreja e tolerância


Toda a criação fala da grandeza e da majestade de Deus. A presença de Deus em todas as coisas, inclusive nas coisas impensáveis, não constitui um problema, porque a verdade nos precede e nos supera, sendo infinitamente mais vasta do que nós. Pensemos no universo, na variedade dos vegetais ou nos comportamentos das inúmeras espécies animais, ou em como é pequeno o nosso planeta. Ou pensemos quantas são as personalidades, as culturas, as possibilidades do cérebro e do coração das diversas pessoas. Quem se pode atrever a dizer que possui a Veritas? Ninguém pode pretender possuí-la como uma pedra preciosa que se mete no bolso e em nome da qual se faz um juízo último sobre as coisas. Nós, cristãos, acreditamos que só Deus pode fazer isso.

Peter K.A. Turkson, no livro-entrevista a Vittorio V. Alberti, Paulinas, Prior Velho, 2018, p.24.

"Bárbaros e Iluminados"


Estes [os Iluminados], na minha perspectiva, são os que se inspiram na tradição utópica ocidental, que modernamente vem de S.Tomás Moro e chega a um futurista quase utópico, ou pelo menos progressista conformado, como Harari. Os utópicos procuram idealizar um mundo e construir uma sociedade que consideram melhor, com o apoio da Ciência e da Técnica. A diferença entre a utopia antiga e a contemporânea é que a primeira era cristã, não um receituário a aplicar mas um padrão não alcançável para o qual a sociedade devia, quando muito, tender. Já os utópicos do século XIX - os Saint-Simon, os Fourier, os Owen - olhavam a utopia como um projecto social, concreto, a realizar. Aqui os bárbaros seriam os outros, os "resistentes", os que não queriam a utopia. (...) 
Sade foi mais longe que qualquer dos seus contemporâneos a tirar ilações da morte de Deus e do conceito de liberdade total num mundo sem Deus. Ele encenou e praticou o "tudo é permitido", uma das consequências possíveis dessa morte (ou ausência) que Dostoievsky e Nietzsche identificariam. Sade descreveu uma libertinagem que se dedicava à busca do prazer sem limites, infligindo dor e praticando o mal. E é curioso que sendo um escritor quase clandestino durante o século XIX, tenha suscitado tanto interesse a partir da II Guerra Mundial - em França, nos meios progressistas, e entre os movimentos da "nova esquerda". A sua dessacralização das relações tradicionais e a sua obsessão em quebrar interditos e em normalizar a perversão aparece também em certas manifestações daquilo a que chamamos "correcção política", que quer reduzir a natureza humana a uma tábua rasa moral. (...)
Os bárbaros são hoje os que resistem à utopia, às novas utopias (...) a utopia de um mundo feliz e global, por exemplo, numa economia e num mundo sem fronteiras para o dinheiro e para as pessoas. (...) Porque a globalização (...) fez e faz muitas vítimas, diretas e colaterais. A vinda de outros povos estranhos, com menos "direitos de cidadania" e por isso mais convenientes e manobráveis pelo capitalismo internacionalista, é sentida como uma ameaça económica e cultural. 

Jaime Nogueira Pinto, Os bárbaros de hoje estão dentro do Império, entrevistado pelo JL, 1236, ano XXXVII, de 14 a 27 de Fevereiro de 2018, p.30.

Um espelho


Há uns tempos, numa sala do terceiro ano de escolaridade, assisti a uma cena deveras ilustrativa do modo como construímos, hoje por hoje, as nossas sociedades, e dos resultados a que se chega. 
A professora convidara os alunos a reelaborarem, em composição, uma narrativa previamente estudada em aula. Esta narrativa manifestava valores tidos como nocivos, pelo que os meninos eram desafiados a modificarem o núcleo essencial da intriga. 
Na fila da frente da sala, encontram-se três raparigas, muito próximas nas suas carteiras, nos gestos, nos risinhos que cheiram a cumplicidade, numa palavra, meninas com todo o ar de serem as melhores amigas (na turma). A docente promete um pequeno presente, um chocolate, para o melhor texto. Antes da sua decisão final, diz, quer ainda ouvir a opinião dos alunos, sobre o texto dos colegas de que mais gostaram. Após um generoso tempo dado à turma para a consumação da tarefa proposta, a leitura de cada composição é, então, realizada. Finda a mesma, os alunos pronunciam-se sobre a melhor composição. Uma esmagadora maioria, manifesta preferência pela redacção de uma daquelas meninas sentada na fila da frente (a que me referia acima), com as duas amigas ao lado. Estas últimas, por sua vez, "votaram" também na capacidade inventiva da colega. E, no entanto, assim que se percebe quem vai receber o pequeno chocolate - hoje em dia, já de si, uma pequena-grande heresia face às fervorosas campanhas pela saúde pública -, as duas amigas começam a chorar por causa da "vitória" da terceira. Então, não são amigas?!..., pergunta-lhes, de modo retórico, com manifesta perplexidade e desgosto, a professora. Num mal disfarçado ciúme e inveja, uma das, ainda há segundos, grande companheira da colega do meio, acusa-a de, ainda antes dos resultados conhecidos, ter sussurrado que o seu texto é o que está melhor; a colega que se encontra na outra ponta, chora apenas, não dando explicações, entre a sua incapacidade de aguentar não ter sido ela a vencedora - mais uma vez, dirá outra colega entre a desolação e a denúncia, ganha sempre a Manuela - e a má consciência que não quer expor dos verdadeiros motivos por que soluça. E a própria Manuela chora, porque as amigas choram porque ela ganhou, e amigas (a sério) não choram quando acontece coisa boa a uma amiga, elas zangam-se sempre comigo quando tenho o melhor teste, a melhor nota, chora a Manuela abandonada pela colegas, mas ainda porque não tem culpa de ter boas notas, bons testes, de quase sempre ser a melhor da turma, e vê como o mundo é injusto ao obrigá-la a escolher entre as amigas (será?) e a performance adequada na escola. 
Naquele momento, note-se, não se decidia uma passagem de ano, um quadro de honra, uma nota de um período, não era, sequer, um teste, estávamos perante uma composição, como tantas hão de surgir, e num terceiro ano de escolaridade. Pode, até, questionar-se a existência de um prémio, mesmo que com intuito motivador. Isso coloca, mesmo que uma mini, ínfima competição em cima da mesa (ou a ideia de que para fazer o que devem os miúdos precisam de prémios e incentivos). Mesmo que se considere que a crítica é pertinente, o resultado exacerbado mostra como só estamos prontos para ganhar; como ganhar, para nós, significa exclusivamente usar a primeira pessoa; como nada resiste a não ganharmos, mesmo uma amizade, já canibalizada aos 8 anos de idade. Não se ensina para acolher os limites, até porque estes limites foram eliminados de qualquer horizonte cultural. Sós para o sucesso, e pior, para o insucesso (inadmissível, impensável). Se há momentos em que faz falta o pregador este é um deles. Uma pessoa sai da sala sensivelmente estarrecido com o que ali vai como espelho do que fizemos.

Os limites da conversação política


Um conjunto de eleitores do Michigan aceita reunir-se e discutir política entre si, seja através das redes sociais, seja em encontros presenciais. Oprah Winfrey reúne-se, periodicamente, com estes cidadãos, a modos de focus group, para procurar aquilatar da evolução das opiniões políticas na era Trump. O 60 minutes regista a mais recente avaliação política (dos EUA) feita por este grupo. O objectivo da peça da mais recente edição do programa da CBS, com o grupo, parece ser mostrar-nos como, ainda que (muito) minoritário numa (actual) América muito polarizada (ideológica, política e partidariamente), há ainda quem aceite escutar argumentos e perspectivas diversas das suas, sentando-se, inclusive, ao lado de quem discorda radicalmente. Sim, o outro não tem quatro cabeças e três pernas, é um igual a mim ("são mesmo boas pessoas", diz o republicano, aparentemente surpreendido com a descoberta, acerca dos seus parceiros de fórum, enquanto as imagens mostram o grupo a ir a uma sessão de tiro ao alvo, em divertimento conjunto), e esse reconhecimento não é coisa pouca se se atentar em movimentos que querem, literal/fisicamente, aniquilar o outro, o diferente (de si), ancorando-se numa corrente nacionalista e anti-imigração, nomeadamente. Na parte final da peça, vários dos membros daquela equipa afirmam que o ganho, destas sessões, presenciais e virtuais, foi terem entrado em contacto com posições (políticas) a que nunca teriam acesso, pois que, quer dos lado dos conservadores, quer do lado dos democratas presentes nas referidas reuniões, havia muita gente que de há muito bloqueara páginas, comentários, nas redes sociais, de quem sentia longe do seu ponto de vista (político). Quando o conservador afirma que nem sempre se reconhece em Paul Ryan, ou a democrata tem posição análoga quanto a Nancy Pelosi, a ideia de que há um compromisso a que é possível chegar, ou que existe uma zona de entendimento a cumprir ("uns 20%", segundo um dos membros do painel), entre pessoas que se acham mutuamente inteligentes ainda que situadas em lugares diversos no espectro político. 
Dito isto, a ideia, outra, mais generosa, mais exigente, de que em se partindo para uma discussão de boa fé, susceptível de se ser convencido, se for caso disso, pela argumentação alheia, de explorar, até ao fim, todas as perspectivas e mudar se necessário, não tem aqui lugar, isto é, quando caminhamos no segundo ano da era Trump, nenhum dos eleitores, daquela espécie de focus group, fosse de esquerda ou de direita, quando questionado diretamente sobre o assunto, teria mudado o seu sentido de voto. Pelo menos, por agora - e parecem, mesmo, ter reforçado a sua posição de partida. A discussão, que juntou mais de dezena e meia de eleitores do Michigan, deu para cada um conhecer e reconhecer pessoas com uma ideologia diferente da sua, para ouvir outros argumentos (e quem sabe, pode especular-se, embora disso aqui não haja registo ou evidência, em última instância, se alguns destes não ficam a marinar em alguma das mentes, como que a um nível subconsciente para ser recuperada mais tarde, assim as circunstâncias a demandem), para fazer amigos, mas o que não deu, em todo o caso, foi para ser convencido de que o seu ponto de vista merecia uma revisão. Dito de outro modo ainda, mesmo que mais civilizada a discussão - enfim, o calor, nos vigorosos debates políticos, é grande nas redes sociais mesmo entre amigos, como reconhecem os participantes neste grupo do Michigan -, mesmo sem transformar a política numa arena ou batalha campal, em todo o caso não se imagine que teremos uma espécie de eleitores científicos e filósofos a escrutinar cada argumento e nuance para decidir o voto, só porque não bloqueia o amigo hooligan da facção contrária. Essa disponibilidade para a revisão é muito mais rara que certos discursos mais generosos e optimistas nos querem fazer crer.


O que é ser bom professor?

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Há professores para quem ensinar é mais do que simplesmente um emprego e uma dor de cabeça. Passar conhecimento é das melhores coisas que um ser humano deve fazer, e sei que há professores que o fazem com paixão. O professor deve ser uma pessoa que nos marca para a vida, nos abre portas e, de certa maneira, nos dá uma pista sobre o que é, eventualmente, o próprio sentido da vida.

Nuno Markl, radialista


Quando olho para trás e vejo o conjunto de professores que fez de mim muito daquilo que sou, tenho a noção de que gostei sempre mais daquele professor que, diante da criança rebelde, a tornava competente, sem lhe restringir a rebeldia. Tenho uma profunda admiração por quem lhe ensina as regras de aprendizagem social e é capaz de lhe transformar a desobediência em dissidência crítica. Gosto imenso daquele professor que, perante a matéria, não se preocupa em dá-la, mas sobretudo com que os alunos a recebam.

Laborinho Lúcio, magistrado e ex-ministro da Justiça


A professora de Francês Teresa Belo era uma mulher extraordinária, culta, com um espírito aberto e livre. Uma mulher que identificava e multiplicava os talentos dos alunos, e isso enchia-nos de confiança. Houve outro mestre, que não era professor: o meu treinador de basquetebol, Vítor Hugo, usou uma pedagogia extraordinária, não só para o desporto mas também para a vida - foi a primeira pessoa a dizer-me que talvez pudesse ser jornalista. Eu tinha só 16 anos e ele acertou. Estas pessoas que nos marcam, nos orientam, que olham para nós e vêem mais do que conseguimos ver sobre nós próprios, enchem-nos de confiança.

Laurinda Alves, cronista


Na primária, a professora Guilhermina foi o motor para tudo o que adviria. Na escola Secundária, a professora Rute Ramires, com quem ainda hoje mantenho contacto, foi uma presença constante na minha vida académica, muito atenta - um papel importante que os professores têm por serem mais próximos do que alguns familiares. Foram professoras que perceberam que eu era muito comunicativa, que queria fazer muita coisa e que me alertaram para eu não me dispersar.

Fernanda Serrano, actriz


No quarto ano, com a professora Eulália, lembro-me de acabar todas as aulas a cantar, algo que nunca tinha visto e que me marcou. Também as minhas três professoras de Educação Física da Escola Ramalho Ortigão me marcaram imenso pela forma paternal com que nos educavam. No contexto de bairros sociais, em que o apetite pelo estudo não era muito grande, elas conseguiram cativar turmas complexas, de forma carinhosa e ao mesmo tempo responsável e divertida.

João Vieira Pinto, ex-futebolista e dirigente federativo


A minha primeira referência é a professora da segunda à quarta classe, Gabriela Roldão, de quem sou hoje amigo...no facebook. Foi absolutamente estruturante, numa fase muito importante da minha vida, e da vida de todas as crianças - pois há muita coisa da personalidade das pessoas que se constrói nessa altura. Ela foi essencial, não só para os básicos, como ler, escrever e contar, mas também para o resto: a formação cívica, a passagem de valores, e é a isso que associo a nobreza da profissão de professor. É alguém que passa mais do que só a matéria.

Pedro Ribeiro, diretor da Rádio Comercial


depoimentos recolhidos por Sónia Calheiros e reproduzidos na Visão nº1303, de 22/02 a 28/02 de 2018, pp.70-71.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Escrito nas estrelas


Pareceu-me daquelas previsões com tudo para vir a confirmar-se. A jornalista São José Almeida, do Público, anunciou ontem, no Expresso da meia-noite (Sic notícias), que a médio prazo Fernando Medina, representando uma ala mais centrista, ou da direita do PS, e Pedro Nuno Santos, representando a ala esquerda do Partido Socialista, estarão condenados a enfrentarem-se numa futura disputa pela liderança do PS.

P.S.: por sua vez, neste Sábado, o Expresso aposta que também está escrito nas estrelas que Paulo Rangel e Luís Montenegro se vão defrontar em futura corrida à liderança do PSD. Diria que aí as certezas são menos: Rangel assumiu no último Congresso, no mais frouxo discurso seu em conclaves do género durante anos, aquilo que deixara escapar para os jornais, ou seja, a "travessia no deserto" partidária que o não se chegar à frente, quando muitos o reclamavam, para si implicou. E não me parece seguro que regresse já em 2019, data que muitos apontam para nova mudança de liderança no PSD.

Da ética do fotógrafo (fotojornalista)


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Questionado sobre essa outra questão ética, levantada em anteriores edições da World Press Photo, sobre o socorro que um fotógrafo pode ou deve prestar perante estas situações, o fotojornalista português [Alfredo Cunha] é resoluto: "Essa é uma falsa questão: é importante que o mundo inteiro veja esta imagem, é por isto que ainda somos jornalistas". E não esquece de colocar a hipótese de o fotógrafo ter, de seguida, ajudado o retratado.

Sílvia Couto Cunha, E a imagem do ano é...Visão nº1303, de 22/02 a 28/02 de 2018, p.58

P.S.: Esta foto é uma das 6 finalistas do World Press Photo 2018, tirada por Ronaldo Schemidt, em Caracas, na Venezuela, com um manifestante em chamas durante um confronto com a polícia, em manifestações/protestos contra Nicolas Maduro.

Contestar os factos é que não


A defesa de [Rui] Rangel irá alegar que muitos destes serviços não constituem crimes, apenas condutas que podem sofrer sanções disciplinares. A matéria disciplinar dos juízes prescreve passado um ano dos factos.

Sílvia Caneco, Tudo o que há contra RangelVisão nº1303, de 22/02 a 28/02 de 2018, p.51.

Movimentações políticas


*Renew: novo partido, nascido esta semana no Reino Unido, que tem como agenda principal inverter o processo de saída da União Europeia, previsto para Março de 2019. Inspirado no movimento "República em Marcha", de Emanuel Macron, desiludido com a inacção dos Liberais-Democratas (no centro-direita).

*Ksenia Sobchak: candidata às Presidenciais russas frente a Vladimir Putin. Disse ao GPS (CNN) que aprendeu com os erros do passado, e hoje não é a "socialite" que o status quo explorará para se referir à futilidade do mundo de figuras mediáticas globais, alheadas dos valores tradicionais. Interrogada por Fareed Zakaria, afirmou não temer, por si, até à data das eleições, mas assinalando que, logo depois, irá ter problemas - veja-se o que sucedeu a quem anteriormente se candidatou contra Putin -, sendo que considera, mesmo assim, que vale a pena a corrida política, pela afirmação da liberdade e da democracia (a construir). A candidata é filha de um ex-mentor do próprio Putin, e acaba por "substituir" aquele que era considerado o candidato mais forte frente ao actual Presidente, mas que foi impedido de se candidatar (Alexei Navalny).

Dos bairros sociais ao "ultramontanismo"


Fico a saber pela crónica semanal de José Eduardo Martins que há 60 mil lisboetas a viverem em bairros sociais, 20% da população da capital. Trata-se, constato no artigo, da capital europeia com mais bairros sociais e maior percentagem de população a viver em bairros sociais.

P.S.: José Eduardo Martins insiste na ideia de uma existência, prévia à actual liderança, de um "ultramontanismo" e de uma quase "confessionalidade" em posições do PSD que teriam levado o PSD a perder as grandes cidades, os principais centros urbanos. Trata-se de wishful thinking, insisto: Passos, nas questões fracturantes, do aborto às barrigas de aluguer, esteve sempre na vanguarda do progresso. Não, não: não foi por aí que perderam. As referências ao "ultramontanismo" e à "confessionalidade" são tão moderninhas, tão politicamente correctas, tão fáceis quanto absurdas e vazias de qualquer significado no PSD dos últimos 8 anos. Liberais em tudo, isso sim, das questões culturais às económicas e sociais. Quem não é um liberal nem num âmbito nem noutro, como no meu caso, discorda de quem professa essas opções. De aí, a querer fazer de quem foi tudo menos "conservador" nas matérias dos costumes, para acertar ao lado de onde dói - o PSD perdeu quase 800 votantes, muitos pobres/reformados, mas não porque o partido se opôs, o que não sucedeu, às barrigas de aluguer - o responsável da "reacção" nos costumes é caricato.

Um olhar sobre os Partidos Socialistas


Adicionalmente, Merkel et al (2008) demonstram que, nos tempos de hegemonia neoliberal, os partidos socialistas que menos se "neoliberalizaram" foram aqueles que mais alianças fizeram com os partidos à sua esquerda (França, Suécia, Dinamarca), e/ou que maiores conexões tinham com os sindicatos; e a maior "neoliberalização" ocorreu entre aqueles socialistas que mais alianças fizeram com a direita ou que tinham menores possibilidades da entrada de novos competidores à sua esquerda, por protecção do sistema eleitoral, em caso de inflexão para o centro (Reino Unido, Alemanha, Holanda)

André Freire, A solução governativa portuguesa vista de dentro, in Heterodoxias Políticas, JL nº1236 ano XXXVII, de 14 a 27 de Fevereiro de 2018, p.29

P.S.: a obra de Wolfgang Merkel a que se refere André Freire é Social Democracy in power: the capacity to reform

Um método

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O que é a montanha, enquanto espécie de cume místico, com(o) uma essência que remete para uma forte dimensão espiritual; a recuperação, nesse contexto, do que os românticos alemães escreveram a propósito (dessa essência, a montanha); a montanha suiça e seu edificado (contíguo) como protótipo do que se busca como inspiração para mimése; as fotos do original para se perceberem as cópias; e então, em definitivo, a serra da estrela, fotografada, documentada, sinalizada em um conjunto de excertos - de obras a ela dedicadas, de autoria diversa - que a explicam. Em Volta a Portugal, de Álvaro Domingues, atentem, pois, como se concebe uma completa (e verdadeiramente holística) aproximação/compreensão de um dos lugares "biografados".

Turismo para o Centro (de Portugal)


Os [números] do Instituto Nacional de Estatística permitem tirar algumas conclusões. Em Setembro, a região Centro aumentou 19% em hóspedes e dormidas, 22% em Outubro e 20% em Novembro, o mês a seguir aos incêndios. Curiosamente, lidera, em termos absolutos, o ranking de crescimento percentual comparativamente com o resto do País [Portugal cresceu 9%]. (...) Hoje a linha de convergência deste destino é muito maior do que outros do País. E isto tem a ver com uma mudança de estratégia na promoção de Portugal e com a preferência dos mercados externos. (...) Crescemos cerca de 30% no mercado externo, suportado sobretudo pelo Brasil, EUA e França. (...) [O que motiva as pessoas a irem passear para o Centro do país é] O turismo religioso, por exemplo, e também a tendência dos mercados internacionais por produtos como a natureza, paisagem e cultura. Deixámos de ser apenas sol e praia. Hoje, Portugal tem uma aposta estruturada na gastronomia, na História, no surf. E o Centro é, por definição, uma região multiproduto, que passa por Peniche ou Nazaré, mas também pela serra da Estrela, Tomar, Coimbra, Batalha, as termas ou o leitão da Bairrada. (...) Ainda hoje estamos num processo de construção. Fizemos uma rebranding territorial, criámos uma logomarca, o que permitiu que todos os municípios se revissem numa estratégia de comunicação. E depois apostámos nas trilogias, conjugações com vários produtos do Centro: por exemplo, o P serve para pêra, porcelana e praia. No fundo, a diversidade é o nosso trunfo. (...) O Centro tem 54 mil camas turísticas e a taxa de ocupação média fica perto dos 50 por cento. Há por isso capacidade para responder a este crescimento a dois dígitos, muito influenciado por alguns eventos, diga-se, como o centenário das aparições de Fátima. (...) Estima-se que em média, por cada visita papal, os visitantes desse destino aumentem em um milhão nesse ano. (...) Existem outras tendências, como o turismo associado aos desportos de deslize [como o esqui e o surf] e ao mar. Peniche ou Nazaré, com o surf, são actualmente um dos nossos focos principais da comunicação internacional. Mas o produto "congressos, incentivos e conferências" também é particularmente relevante e estruturante, porque permite a fruição dos 365 dias do ano e tem uma média de dormidas superior à da região. (...) O Centro, com as suas seis milhões de dormidas, está com uma média de apenas 1,8 noites de estada. (...) Mais do que a sazonalidade, preocupa-nos a litoralização da actividade turística - precisamos que o fluxo turístico se desloque para o Interior. (...) Hoje, temos um plano em mercados como o alemão ou o chinês para promover o território em conjunto. Com a Estremadura espanhola, passámos a comunicar vinte sítios com a chancela UNESCO, em vez de oito. Além de aumentarmos os recursos e o número de produtos, estamos a focarmo-nos numa parceria em que o nosso Interior fica no coração das duas regiões, e assim deixa de ser o extremo e passa a ser o meio. (...) Temos uma enorme capacidade de carga. Abrangemos 100 municípios, enquanto no Algarve são apenas 16. E só temos 55 mil camas, enquanto lá existem 250 mil. Ainda podemos crescer de forma consolidada nos nossos produtos premium, como natureza ou saúde e bem-estar. E ainda podemos crescer em receitas, porque temos um rendimento por quarto abaixo da média nacional.

Pedro Machado, Presidente do Turismo Centro de Portugal, entrevistado por Luísa Oliveira, para a Visão nº1303, de 22/02 a 28/02 de 2018, pp.15-16.


P.S.: Na Visão desta semana, é absolutamente marcante a reportagem de Miguel Carvalho em Jedwabne, onde em Julho de 1941 centenas de judeus polacos foram trancados num celeiro e queimados vivos pelos vizinhos. Isto a propósito das visões negacionistas, relativamente ao papel de cidadãos polacos face aos judeus durante o período da II Guerra Mundial, presentes hoje num clima de nacionalista serôdio, na Polónia. A edição desta semana da newsmagazine vale a pena por múltiplos motivos, mas bastaria esta reportagem para justificar a compra da mesma.

Nissan

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Pela primeira vez, um construtor mundial de automóveis [Nissan] tem preocupações reais em contribuir para o processo de reflorestação de um território que foi atingido por incêndios. Além disso, também dará um contributo inestimável para alterar aquilo que é hoje um dos pontos críticos do destino. (...) Por cada quilómetro percorrido em carros eléctricos ou híbridos, será calculada a quantidade de CO2 libertada se os veículos não tivessem essas características. Essa contabilização será convertida em novas árvores, as necessárias para compensar essa libertação e recuperar a pegada que os carros tradicionais deixam

Pedro Machado, Presidente do Turismo Centro de Portugal, entrevistado por Luísa Oliveira, para a Visão nº1303, de 22/02 a 28/02 de 2018, p.15.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

"A arma dos massacres"

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Nicolas Cruz, de 19 anos, matou 17 pessoas na sua antiga escola, na Florida, usando a AR-15: uma espingarda associada a quase todas as tragédias nos EUA.
Hoje, vários fabricantes produzem a AR-15, na versão semiautomática com preços que variam entre os 500 e os 1000 euros. Criada em 1950 pela Armalite, era uma espingarda invulgar para a época, construída com plásticos e alumínio, o que a tornava mais leve. Foi comprada pela Colt e rebatizada como M-16, estreando-se na Guerra do Vietname.
1800 pessoas morreram nos EUA, só no primeiro mês e meio de 2018, vítimas de armas de fogo. A AR-15 é considerada a arma mais popular da América, havendo registos para mais de 5 milhões de proprietários. Em cinco dos seis mais mortais massacres da década havia uma arma destas na mão do assassino: Newtown, San Bernardino, Las Vegas, Sutherland Springs e, agora, Parkland. 
"A ferida de uma bala de pistola é semelhante à de uma facada; com a AR-15 é como se fôssemos atravessados por latas de Coca-Cola", [disse] Peter Rhee, cirurgião militar, especializado em trauma e que salvou a congressista Gabby Giffords, atingida na cabeça em 2011. 
90 tiros por minuto é a capacidade da versão semiautomática da AR-15. Os carregadores trocam-se com grande facilidade. É semelhante à G-3 e à AK-47 (Kalashnikov), com um alcance de 550 metros. As suas munições foram desenhadas para infligir o máximo de ferimentos, deslocando-se três vezes mais depressa do que a velocidade do som.
Bill Clinton proibiu a venda de semiautomáticas (em que se inclui a AR-15) em 1994, mas a lei caducou em 2004, com George W.Bush. Em 2012, Barack Obama impôs uma malha mais apertada para os compradores, mas Donald Trump levantou as restrições.

Patrícia Fonseca, A arma dos massacres, in Visão nº1303, de 22/02 a 28/02/2018, p.24

Turismo militar


[Turismo militar]

É um produto que está a ser estruturado. A primeira parceria foi assinada com a Associação do Turismo Militar Português, liderada por Álvaro Covões, mais conhecido por organizar o Nos Alive. Consiste no aproveitamento das actuais infraestruturas, activas ou desactivadas, como são os casos de Almeida ou das Linhas de Torres. É um turismo mais ou menos emocional, associado a guerras e à actividade militar, que vai permitir a visitação turística desses locais.

Pedro Machado, Presidente do Turismo Centro de Portugal, entrevistado por Luísa Oliveira, para a Visão nº1303, de 22/02 a 28/02 de 2018, p.16.

Dúvida


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A dúvida, se for coerente consigo mesma, duvida até de si própria.

Peter Turkson, entrevistado por Vittorio Alberti, Corrosão, Paulinas, 2018, p.52.

Gotemburgo


O maior festival de cinema da Escandinávia realiza-se em Gotemburgo. Nele, encontramos o mais valioso prémio de cinema do mundo - 100 mil euros - a atribuir a um filme da competição nórdica.
A luso-descendente Cristina Pereira ganhou, neste festival, o Ingmar Bergman Award. Um filme acerca das duas culturas em que viveu - portuguesa e francesa - em simultâneo (a realizadora), sem esquecer a violência doméstica. Um filme que conta com Nuno Lopes e Beatriz Batarda.

Pluralidade na Igreja


O Evangelho não fecha nem impõe as questões, pelo contrário, abre-as, transmite paz, inquietando. A Igreja não é uma instituição intransigente, depositária de uma verdade granítica ou ideológica. Pelo contrário, é serva da verdade, sempre em busca dela. A diferença é fundamental. A Igreja observa a verdade como quem observa o horizonte: este deve ser observado para se apreenderem os seus sinais. Ao mesmo tempo, é um refúgio, um porto seguro, uma referência certa quando o barómetro anuncia tempestade, para pessoas que sentem o vazio, a solidão, a dor. É este o carácter e a função daquilo que é definido como «ortodoxia»: o cuidado da integridade da missão e da mensagem da salvação. A ortodoxia de um organismo orientado para o universal é, em si mesma, dinamismo, inculturação, adaptação à diversidade, pluralidade.

Peter Turkson (Cardeal), entrevistado por Vittorio Alberti, Corrosão, Paulinas, 2018, p.23

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A crise do futuro e da esperança, o cansaço da transcendência como causas da corrupção


Há uma profunda questão cultural que é necessário abordar. Hoje em dia, muitos nem sequer conseguem imaginar o futuro; para um jovem, é difícil de acreditar de verdade no seu futuro, em qualquer futuro, e o mesmo se pode dizer da sua família. Esta nossa mudança epocal, tempo de crise muito vasta, reflete a crise mais profunda que envolve a nossa cultura. Nesse contexto, deve ser enquadrada e ocorre a corrupção nos seus vários aspectos. Tudo isso compromete a presença da esperança no mundo, sem a qual a vida perde aquele sentido de busca e de possibilidades de melhoramento que a caracteriza. (...)
Com efeito, a corrupção tem a sua origem num cansaço da transcendência, como a indiferença.

Papa Francisco, Prefácio a Corrrosão, de Peter K.Turkson e Vittorio V. Alberti, Paulinas, Prior Velho, 2018, pp.10-11.


P.S.: a palavra corrupção não adquire, aqui, um sentido exclusivamente jurídico. Antes se apresenta como laceração, rutura, decomposição e desintegração, "exprime a forma geral da vida desordenada do ser humano decaído".

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Um longo rescaldo


Uma mudança estratégica pode ser, em si mesma, substantiva - certo. Estar disposto a concessões - se a ideia é mesmo negociar, convergir, fazer ver e situar-se com disponibilidade para alterar rumo a um país melhor (dentro de um determinado olhar para esse interesse nacional). Para o radicalismo, contudo, qualquer concessão é uma violação do código inscrito no mármore - ponto um. O que não quer dizer, porém, que se tenha mudado de ideologia. Como não mudou - a intervenção de Nuno Morais Sarmento, o novo vice, no Congresso, não deve ter deixado dúvidas a ninguém. Para quem se atenha a acompanhar as ideias, e fazer delas uma análise tão desapaixonada quanto possível, mesmo partindo de um paradigma de um pensamento liberal sobre o Estado e a economia, pode subscrever esta noção acerca do "novo PSD", como fez Rui Ramos, no Observador.
Se assim é, porquê, então, a fúria e o choque de Alberto Gonçalves, José Manuel Fernandes e Helena Matos, no mesmo sítio? Porque Rio não explicitará, com tanta contundência, a mesma agenda, não assinará um manifesto como Mudar, não será a encarnação libertária que a orfandade tão gritada aos quatro ventos - Rio por pouco não passou a perigoso comunista nesta visão das coisas - assume que existiu nos últimos anos (embora os mesmos, ou semelhantes sectores, sempre tenham negado a agenda e a sua consumação: então para quê tanto sobressalto agora?).
Os símbolos são importantes, e há divisões nunca totalmente anuladas. Uma delas, com barbas no PSD, passa por cindir as elites das bases. E mau grado, para se vencerem eleições, os compromissos serem muitos, e a vida custe a ganhar a todos, não podendo ninguém banhar-se na pureza de um sucesso imaculado, subjaz às afirmações e aos artigos de muitos exaltados destes dias, essa putativa vitória de um grupo ao Restelo, social-democrata, elitista mas não liberal. Do grupo, em real versão social-democrata, todavia, só vejo mesmo Pacheco Pereira - e só muito remotamente se pode dizer que o que ele representa ideologicamente terá alguma tradução prática no actual PSD. Mas ao excessivo, ao sobressaltado, ao ideólogo puro, a mera alusão, o símbolo ainda que tão afastado, basta: ui, os social-democratas a caminho do castelo! E, no entanto, isso são moínhos de vento. Ponto dois.
O ponto três é o modo e o porquê de José Eduardo Martins ter sido impedido de falar no Congresso do PSD. Os sites albergam facções. Radicais são radicais por ideologia, sim, bastante, muito mesmo, mas não menos convivem com e dão expressão a interesses. Ontem, o problema era Irina, hoje é Negrão e no Sábado, o Sol dirá.
Fora destes pontos, está que quando os radicais se juntam e apontam a um chefe, até quem olha a partir de fora se aproxima deste último. Ponto quatro: eis como os radicais ainda podem ajudar Rui Rio. Se juntarmos a isso uma comunicação social que confunde enunciação de temas - que não considero anódina em si mesma, porque o apontar o foco e a importância de um tema nada tem de irrelevante, mas que não significa uma mudança de soluções prévias - com a social-democracia ao fim da rua (como se bastasse dizer "Saúde", ou "Educação", para uma pessoa ser social-democrata), dá de facto um quadro mais centrista a um pós-congresso, onde como Menezes Leitão, numa das mais certeiras opiniões que, a meu ver se fizeram sobre o Conclave laranja, notou como uma despedida deliberada em dó maior, e com a especial saudação ao candidato que não ganhou, não visou propriamente dar facilidades a quem chegou. 

Mobilidade social, endividamento


Num regime em que o grosso do financiamento das universidades é feito através das propinas, e em que estas últimas sejam muito elevadas, obrigando ao forte endividamento do indivíduo, este pode ser condicionado toda uma vida por essa dívida, incluindo no tipo de emprego e de serviço a que pretenda dedicar-se (mesmo na lógica do serviço público, ou necessidade de carreira estritamente privada, no âmbito do Direito, por exemplo). O que não deixa de ser curioso é que com menos dinheiro, a mesma sociedade, nos EUA, em momentos diferentes do século XX, decidiu apostar mais numa universidade não tão dependente desta lógica de altíssimas propinas (endividamento privado) e, quando até mais rica, optou por este sistema (que não deve ser indiferente a uma mobilidade social que compara mal com vários Estados europeus). Optou, porque a lógica do não temos recursos pretende passar ao lado dessa mesma efectiva escolha (que significa concentração de recursos em outras àreas, apostas, interesses). 

Os limites da meritocracia



P.S.: grato ao Luís pela chamada de atenção para o vídeo.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"Para sorrir, eu não preciso de nada"

Os dias da rádio: quando as tardes de Domingo eram "um acontecimento"



Para uma crónica de rádio na universidadefm:


Os dias da rádio

Quando passam 20 anos desde o último campeonato português de futebol sem a presença da Sporttv e, portanto, da última Liga sem que a totalidade dos jogos fosse televisionada, em especial dos clubes com a esmagadora maioria dos adeptos em Portugal (embora, valha a verdade, muitos desafios fossem já transmitidos na tv, por essa época de 1997-1998, realidade bem diversa da que ocorria no início dos anos 90); quando passam, pois, duas décadas sobre o derradeiro momento dos dias da rádio sintonizados, fortemente, nos relvados do país, celebrou-se, em Vila Real, na UTAD, no passado dia 15 de Fevereiro, o Dia Mundial da Rádio com aquele que provavelmente é – a meu ver, assim sucede - o melhor relatador ou narrador de futebol, em Portugal (na actualidade), João Ricardo Pateiro, da TSF, bem como um dos repórteres mais reconhecidos na área do Desporto, Teófilo Fernando (também da TSF) e a mais jovem, e emergente repórter, na última década, Claúdia Martins, a amarantina que está na Antena1.
João Ricardo Pateiro teorizou o relato como estando situado na zona de fronteira entre a informação e o entretenimento: se apenas informação, o modo prolongado (gooooolooo!), e a remeter para a espectacularidade, do grito do golo, não sucederia; se apenas entretenimento, o rigor e a isenção (requeridos) da e na informação transmitida, acerca de cada encontro de futebol, perder-se-iam às mãos, ou à voz, de um não jornalista (um locutor, um entertainer). Curiosamente, esta cedência a um entendimento (ou reconhecimento) do carácter menos sagrado do relato enquanto acto jornalístico tout-court, contrasta com a formulação, por parte do mesmo jornalista, do relato como peça de arte, para a qual se nasceria com especial vocação – ou (quase) nada feito. Se diferentes peritos, que alguns refutariam como declinação tecnocrática, diriam que o génio são 10 mil horas de ensaios e repetição, Pateiro não concebe o relato futebolístico como pura técnica capaz de ser ensinada, em absoluto, nas melhores faculdades de jornalismo ou comunicação social. Eis um ponto que assinalo enquanto ouvinte: o facto de já terem passado duas décadas sem as grandes tardes do relato futebolístico, de a rádio ter perdido o privilégio de ser o único meio a fazer-nos entrar o jogo em casa (ou no carro, ou onde quer que seja), fez com que muito menos gente, face a essa época, ouça os relatos, sinta essa pulsão de ser o (futuro) único contador de histórias a partir das Antas, de Alvalade ou da Luz, pelo que imagino que a potencial procura nesse específico âmbito, bem como a aprendizagem mais natural feita outrora desde o berço, tenda a perder-se ou mitigar-se, em boa medida. Quer isto dizer, seria aqui necessário, segundo creio, introduzir causas de natureza cultural – as tardes de Domingo já não são “um acontecimento”, para usar uma feliz expressão de um espectador deste colóquio sobre a rádio e o desporto, na UTAD – para explicar porque e como um grande relatador se forjou. Com talento, com certeza, com conhecimentos técnicos, sem dúvida, mas, igualmente, tributário de uma dada cultura em que nasceu e se inseriu (somos seres gregários e contra isso, nada). É esta diferença cultural que explica, em boa medida, penso, que João Ricardo, Nuno Matos, Alexandre Afonso, Pedro Azevedo ou o reguense Fernando Eurico sejam não apenas os nomes-fortes e bandeira das respectivas estações, no que ao futebol concerne, mas sejam, também, os melhores.
Claúdia Martins, um raro exemplo feminino num mundo ainda muito marcado a masculino, fez questão de sublinhar este facto para explicar como sentiu, de forma inequívoca, que um erro (profissional) seu seria muito mais penalizado (pelo público, ou pelos parceiros de ofício) do que o de um colega homem, dado o preconceito cultural que tende a considerar a mulher como incapaz de entender o jogo (da bola). Adicionalmente, convocou mais jovens mulheres jornalistas a juntar-se à causa para que a Primavera, a quem não basta uma andorinha, se possa fazer.
Quanto a Teófilo Fernando, entre outros apontamentos, referiu-se a uma específica estética TSF: a que consiste em apresentar peças, nomeadamente no jornal de desporto, como a duração de 1 minuto/1 minuto e meio, para que o ouvinte fique colado à rádio, sem distracções, e a chorar por mais. Do rali de Portugal, até à volta em bicicleta ao Algarve, passando pela antecipação do próximo Tottenham-Juventus.
Perante um público maioritariamente formado por alunos do curso de Comunicação, da UTAD, o diretor desta casa, a universidadefm, Luís Mendonça, deixou uma mensagem de alento e esperança, recordando as viagens a Timor e ao Kosovo, as dezenas de idas a Bruxelas, as experiências únicas que a paixão da rádio lhe permitiu viver, pelo que, disse, aqueles que sentirem, hoje, essa vocação devem contar que, mais cedo ou mais tarde, a oportunidade surgirá e que vai valer a pena. Um dia, quem sabe, terão o Rui Veloso, a pedir o carro de marca especial, do jovem futuro diretor, para dar uma volta a acelerar no circuito. Para já, ficaram, estes estudantes, com alguns dos melhores profissionais do país na sua área e um show à parte do talentoso vila-condense João Ricardo.

Boa semana.

Pedro Miranda

domingo, 18 de fevereiro de 2018

A Educação, no mundo








Moisés Naím, ElPais, 18-02-2018

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Pub: logo, no Teatro de Vila Real


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Na expectativa de assistir a uma excelente peça, às 21h30, no Teatro de Vila Real, a partir de uma obra de Coetzee.

Adenda depois de vista a peça: confirmaram-se as expectativas mais elevadas. Uma peça com debates de alto teor filosófico - crença (o escritor enquanto "secretário do invisível", para o qual as crenças só estorvam para chegar à verdade, as palavras que brotam dos "poderes invisíveis" do universo), amor (entre o amor grego, belo, e a caritas cristã que acompanha o moribundo e sofre com o sofredor), arte ("houve um tempo em que não importava se Deus fracassou, se o socialismo fracassou, sempre tínhamos a arte, Dostoievsky a indicar o caminho...mas eu não sou artista"), a (possível) diferença (ontológica) entre humanos e animais ("os humanos feitos à imagem e semelhança de Deus", a razão na base da essência do mundo, sendo que dela só partilham os humanos, portanto, com algo de divino, inacessível aos (irracionais) animais (o argumento de Tomás de Aquino); e no entanto, a escritora, inventada por Coetzee, reflecte que a experiência de uma existência prolongada a fizeram ver que a razão nem é essência do mundo nem do humano), a existência de um "eu" (somos todos os dias diferentes, sendo, no entanto, os mesmos; somos sim e não em simultâneo), sobre a veleidade da crença e da dúvida ("só os seres leves podem assim pairar, dando-se ao luxo da dúvida, sem aderir a uma crença", diz a empregada de limpeza à escritora, num espécie de entrada para o além-mundo, num juízo final onde um colectivo de juízes decidirão se Costello passará a porta. Não podemos julgar a razão, a bondade da razão, se está está certa, porque isso exigirá colocarmo-nos fora da razão, e não é possível sair da razão para avaliar a razão (que valores [aqui crenças], perguntar-nos-íamos, deveríamos ter se não tivéssemos aqueles que temos?].
Numa peça muito tributária, muito dependente do (excelente) texto, bem necessário se tornou as excelentes performances dos actores nela presentes - Bernardo Almeida, Cucha Carvalheiro, Luís Gaspar, Rita Calçada Bastos, Sílvia Filipe, com encenação de Cristina Carvalhal, dramaturgia de Alexandre Andrade e Cristina Carvalhal - que, sem excepções, por exemplo, mostraram uma magnífica dicção (sendo que o som esteve muito cuidado, nesta noite).

Pequeno Auditório do Teatro de Vila Real quase lotado, nesta noite de Sábado.