terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A "banalidade do mal", segundo Peter Turkson


Vittorio Alberti: Quanto mais mal cometo, mais me corrompo? 

Peter Turkson: A questão não deve ser posta em termos de medida ou, como diz Francisco, de quantidade. Eu não me corrompo automaticamente quando atinjo um certo número de pecados, como se a corrupção fosse uma espécie de meta. Não, a questão deve ser posta em termos qualitativos. Ou seja, se eu frequento muitas vezes o pecado, habituo-me ao mal e, se me habituo ao mal, considerá-lo-ei normal, e desse modo perderei, ou reduzirei muitíssimo, a minha capacidade de me elevar e de me abrir, que, em termos morais, significa que perderei a capacidade de amar e, em termos intelectuais, significa perder a minha elasticidade, a minha curiosidade, em mim e com os outros. Assim, esse processo conduzir-me-á inexoravelmente a reduzir, a «desidratar» a minha respiração moral e intelectual, até me barricar no meu restrito ponto de vista, até me reduzir à minha altura terrena, sem aspirações, sem ideias nem diálogo com o universal. É esse o carácter obtuso do processo corruptivo

Vittorio Alberti: Isso recorda Adolf Eichmann na Banalidade do mal de Hannah Arendt. 

Peter Turkson: O hábito do mal apaga a consciência. Corrompe a consciência! O mesmo acontece no caso do suborno, de um trabalho obtido a troco de favores ou da aceitação de ofertas para atribuir esses trabalhos ou favores. Sempre em prejuízo de todos, em prejuízo dos pobres, em primeiro lugar. Em prejuízo, portanto, da justiça, da justiça social, da liberdade. A corrupção é estupidez, cegueira, é eliminar Deus, o espírito da própria vida, do próprio horizonte interior, é perder o sentido das proporções e da realidade. A corrupção é rejeição da crítica daquilo que se faz. Nisso consiste a banalidade do mal. Eichmann foi um paradigma de pecado e de corrupção abissais. O percurso para a corrupção é o pecado, mas eu posso cometer cem vezes o mesmo pecado sem me corromper. Posso, por exemplo, roubar cem automóveis, mas mantendo sempre a consciência de que estou a fazer mal a alguém. Do mesmo modo, posso roubar cem automóveis e corromper-me, ou seja, sentir que a minha actuação, mais do que justa, é necessária, e cair no triunfalismo. É muito difícil distinguir pecado e corrupção, e também pode ser arriscado da parte de quem julga, mas é necessário para nos mantermos livres.

in Corrosão, Paulinas, 2018, pp.75-76.

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