terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A Civilização da consagração de Cluny



Há três ou quatro momentos da história humana que representam saltos quânticos, verdadeiros avanços, que parecem situar-se acima do puro materialismo, uma energia, um excesso que contamina tudo e todos. Pode ser o séc.VI a.C, o florescimento da filosofia, da poesia, das artes, o simultâneo florir Egípcio, da Mesopotâmia ou da Grécia. Também pelo ano 1100, em grande parte do mundo se assinala um desses momentos maiores. E na Europa, muito em particular, tal deve ser destacado. Pode afirmar-se, então, não sem razão, que a Igreja é a criadora da Civilização Ocidental. Não enquanto depositária da fé, mas enquanto poder. A Igreja afirma-se, nesse momento, como força democrática, onde, desde a obscuridade, e pelo mérito, alguém pode ascender às posições mais honoríficas. A internacionalização ocorre, com eclesiásticos em posições de destaque num dado país a poderem ser originários extramuros. Como hoje sucede com a ciência, com os cientistas, o que mostra o lugar e centralidade, que em épocas diferentes, o religioso e o científico ocuparam. Também os artistas viajavam sem interdições e eram requisitados. Não se tratou de exclusiva contemplação nos mosteiros: as peregrinações e as cruzadas foram formas físicas de manifestação desta energia colocada na ideia de eternidade. As peregrinações faziam-se, sobretudo, a Jerusalém, esperando a recompensa divina pela adoração das relíquias dos apóstolos, fosse um rosto, ou mesmo um dedo. Havia, já, abadias organizadas para acolher estes peregrinos, mas os perigos a que estes se sujeitavam, imensos. Não raros, pereciam pelo caminho. Jornadas com 7 mil peregrinos, em média, registe-se. E foi desta massa crítica que surgiram os voluntários para as cruzadas: se estas também podem justificar-se a) pela ambição dos jovens, b) como resposta aos normandos, c) como reacção à depressão económica, em grande e principal medida tinham esta característica de apelo ao eterno. Neste Período, celebrar-se-á Santa Fé, martirizada pelos romanos por se recusar a adorar ídolos, “a Antígona cristã” - a quem se atribuíam milagres e a qual se…idolatrava.
Por volta de 1130, apesar da armadura e estrutura sólida da fé cristã, permaneciam suficientes nuances à volta dessa mesma fé para permitir um dinamismo e avanço, onde não existia espaço para qualquer subtileza, como em outras civilizações. Por Paris, nessa altura, está Pedro Abelardo, já uma estrela, um professor carismático, brilhante, o “questionador invencível” - e quem observar o debate de ideias desse tempo ficará com a cabeça a “andar a mil”. Se Anselmo considerava que a divisa deveria ser “creio para entender”, Abelardo inverte o axioma “quero entender para acreditar”.
O Abade Suger, abade de Saint Denis desde 1122, viria a dizer que só podemos aproximar-nos da verdade absoluta, que é Deus, através da acção de peças preciosas e belas sobre os nossos sentidos. Uma teoria revolucionária na Idade Média e o fundamento intelectual de todas as obras sublimes nos séculos seguintes e continuou a sê-lo, ainda no séc.XX, relativamente à nossa crença no valor da arte.
Foi no século XII que o culto da Virgem realmente floresceu, e em Chartres, que possui uma Catedral de uma harmonia e perfeição completas, encontravam-se as relíquias mais preciosas a ela atribuídas. Se arte é um guia, vemos que a Virgem, nos séculos IX, X, XI não ocupou um lugar destacado na mente dos homens. Kenneth Clark considera que o culto da Virgem pode ter vindo do Oriente, porque quase todas as primeiras representações da Virgem como objecto de devoção são de um estilo particularmente bizantino

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