quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A Civilização de Francisco de Assis, Giotto e Dante




Eis o mundo gótico. Carregado de imaginação e fantasia. Mesmo a arte e a teologia podiam fazer-se com um sentido de leveza e de jogo. Uma arte luxuriante que os marxistas desdenharam como “desperdício manifesto”. Esta época, em qualquer caso, produziu alguns dos maiores espíritos de sempre como Francisco de Assis e Dante. Por detrás de toda a fantasia e imaginação gótica permanecia um aguçado sentido da realidade. Na Idade Média, havia a concepção de que esta aparência (a que temos acesso) era simbólica enquanto manifestação de uma (outra) ordem ideal, a única verdadeira. Contudo, a fantasia toca-nos primeiro.
Dos sentimentos mais estranhos acrescentados na civilização ocidental, depois da antiguidade greco-romana, conta-se o da cortesia. Isso era, repita-se, totalmente desconhecido da Antiguidade. Trata-se de submissão total a uma mulher quase inatingível, a crença de que nenhum sacrifício seria grande demais, a perspectiva de que se poderia passar a vida toda a fazer a corte a uma mulher desdenhosa. Ou sofrendo por ela. Aos romanos ou vikings isto teria parecido absolutamente absurdo e inacreditável. No entanto, este sentimento tornou-se inquestionável por séculos, inspirando, nomeadamente, a literatura, como a de Shelley, muita dela “intragável”. “Em 1945, ainda conservávamos uma série de gestos cavalheirescos”: tirávamos o chapéu às senhoras, deixávamo-las passar à frente, afastávamos a cadeira para elas se sentarem. Ainda conservávamos a fantasia de que elas eram seres puros e castos, à frente dos quais não se contam certas histórias, nem se dizem certas palavras. “Tudo isso acabou”. Mas como começou? Ninguém sabe ao certo, mas muitos crêem que resultou da viagem dos peregrinos, dos cruzados, e do seu contacto com a literatura persa, onde histórias haveria em que a absoluta devoção à mulher, nos termos atrás descritos, se encontraria. Para Kenneth Clark, porém, a explicação deve ser mais próxima (em termos geográficos): com os maridos a saírem para a guerra, as mulheres tomavam conta dos castelos, um dois anos, e eram alvo de um tratamento muito deferencial, fosse pela verticalidade dos relacionamentos aceite num feudal, fosse pela esperança de uma conquista, como se percebe nos poemas dos trovadores. Os casamentos medievais eram uma questão de propriedade e, portanto, casamento sem amor desagua em amor sem casamento. O culto à virgem Maria também deve ter que ver com o amor cortês, dado que, não raro, é muito difícil distinguir um poema que é dirigido à amada do que é referido à Virgem. O maior de todos os escritos sobre o amor ideal – A vida nova de Dante – é quase um trabalho religioso.
O amor cortês não foi só contado e cantado em poesia, mas também em prosa. Não se pode afirmar que o romântico seja uma invenção gótica; deve provir de “românico” – das regiões de França ainda marcadas pelo mundo romano. Mas que o romance com suas vigílias e cuidados intermináveis exerceram um grande fascínio nesta época gótica europeia. Durante 200 anos, o Romance da Rosa deve ter sido o livro mais lido na Europa, com excepção da Bíblia. O efeito destes romances sobre a literatura e romances do séc.XIX foi decisivo, como se vê em Tristão e Isolda, de Wagner. O auge da civilização cortês foi atingido no final do século XIV, em França, sob o patronato de Duc de Berry. Época muito difícil para os camponeses, e onde a observação de animais se impôs como um significativo tópico de vida. Havia uma verdadeira obsessão pelos pássaros. Estes, seriam símbolos da liberdade. A corte borgonhesa ditava a moda para toda a Europa. O grande mérito da civilização ocidental foi nunca ter parado de se desenvolver. Mesmo o amor cortês conheceu formas inesperadas. Para a história, ficaria o jovem rico e dândi, Francesco Bernardone, “o mais cortês dos homens”, profundamente influenciado pelos ideais franceses de dignidade do cavaleiro. Um dia, quando vestira as suas melhores roupas, preparando-se para alguma campanha de cavalaria, encontrou um pobre homem cujas necessidades pareciam maiores do que as dele próprio. Deu-lhe o seu manto. Naquela noite sonhou que deveria reconstruir a cidade celestial. Desfez-se, mais tarde, dos seus bens, de modo tão liberal que o seu pai, rico homem de negócios da cidade italiana de Assis, o deserdou. A sua resposta foi tirar a roupa que tinha e dizer que nada tinha, absolutamente nada. O Bispo de Assis escondeu a nudez, dando-lhe um manto. E Francisco foi para a floresta, ao som de uma canção francesa. Passou os três anos seguintes na mais absoluta pobreza. Cuidando dos leprosos, e reconstruindo, com as próprias mãos, Igrejas. Em tudo o que fazia, adoptava literalmente o Evangelho e chegou a traduzi-lo para a poesia dos cavaleiros andantes. Dizia que, para ele, a pobreza era a sua Dama. Este comportamento teve a ver com o facto de Francisco de Assis se ter apercebido que a riqueza corrompe e é causa de guerras e, por outro lado, achar descortês estar ao pé de alguém mais pobre do que ele.
Desde o início que todos reconheceram, em São Francisco, um génio religioso, “o maior que a Europa produziu”, segundo Clark. Embora fosse apenas um leigo, o Papa concedeu-lhe permissão para fundar uma Ordem em Assis (de cuja administração abdicaria, sabendo que não era um grande administrador; a Ordem teve um grande peso político no interior da Igreja). Francisco de Assis morreu, em 1226, com 43 anos, dobrado ao peso da austeridade auto-imposta. Apenas dois anos após a sua morte, foi canonizado. Mas o culto da pobreza não sobreviveu a Francisco, nem sequer sobreviveu em sua vida. A Igreja fazia parte do sistema internacional de bancos que surge no séc.XIII. Os fraticelli são denunciados como hereges e a queimar pela Inquisição. Até mesmo os humanistas do séc.XIX que o invocam Francisco de Assis não pretendem a santificação da pobreza, mas antes aboli-la. E, não obstante, a ideia de que para o espírito ganhar primazia as coisas materiais têm que perder essa importância está na base de todas as religiões. E ao expressar este ideal com tal simplicidade e graça, Francisco entrou na consciência europeia. E, independentemente de quão aquela vida possa ser praticável e replicável, é a essa vida e a essa consciência que os melhores espíritos voltarão. Ao libertar-se da sedução/ídolo da posse, Francisco de Assis atentou (e sublinhou) (n)a unidade da criação e na possibilidade do amor universal. Foi por nada ter que o Santo de Assis pôde sentir a fraternidade com toda a criação, fossem os seres vivos, fossem o ar ou o fogo. Isso o inspirou no Chamado Cântico das Criaturas e numa série de lendas recolhidas em Fioretti. Se nem todos podiam apreciar as disputas de Abelardo, ou de Tomás de Aquino, contudo entendiam estas histórias de Francisco. Ainda durante a vida de Francisco, um outro mundo surgia, predecessor do nosso: o mundo das cidades, do comércio, dos bancos, da vontade de enriquecer sem deixar de ser respeitável.
Kenneth Clark qualifica Dante como o maior poeta-filósofo de todos os tempos. Ainda pertencia ao mundo gótico, das grandes catedrais, ao contrário de Giotto que trabalhava em coisas muito sólidas, aqueles personagens que tinham a ver com quem os banqueiros, para os quais trabalhava, lidavam.

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