domingo, 25 de fevereiro de 2018

Os limites da conversação política


Um conjunto de eleitores do Michigan aceita reunir-se e discutir política entre si, seja através das redes sociais, seja em encontros presenciais. Oprah Winfrey reúne-se, periodicamente, com estes cidadãos, a modos de focus group, para procurar aquilatar da evolução das opiniões políticas na era Trump. O 60 minutes regista a mais recente avaliação política (dos EUA) feita por este grupo. O objectivo da peça da mais recente edição do programa da CBS, com o grupo, parece ser mostrar-nos como, ainda que (muito) minoritário numa (actual) América muito polarizada (ideológica, política e partidariamente), há ainda quem aceite escutar argumentos e perspectivas diversas das suas, sentando-se, inclusive, ao lado de quem discorda radicalmente. Sim, o outro não tem quatro cabeças e três pernas, é um igual a mim ("são mesmo boas pessoas", diz o republicano, aparentemente surpreendido com a descoberta, acerca dos seus parceiros de fórum, enquanto as imagens mostram o grupo a ir a uma sessão de tiro ao alvo, em divertimento conjunto), e esse reconhecimento não é coisa pouca se se atentar em movimentos que querem, literal/fisicamente, aniquilar o outro, o diferente (de si), ancorando-se numa corrente nacionalista e anti-imigração, nomeadamente. Na parte final da peça, vários dos membros daquela equipa afirmam que o ganho, destas sessões, presenciais e virtuais, foi terem entrado em contacto com posições (políticas) a que nunca teriam acesso, pois que, quer dos lado dos conservadores, quer do lado dos democratas presentes nas referidas reuniões, havia muita gente que de há muito bloqueara páginas, comentários, nas redes sociais, de quem sentia longe do seu ponto de vista (político). Quando o conservador afirma que nem sempre se reconhece em Paul Ryan, ou a democrata tem posição análoga quanto a Nancy Pelosi, a ideia de que há um compromisso a que é possível chegar, ou que existe uma zona de entendimento a cumprir ("uns 20%", segundo um dos membros do painel), entre pessoas que se acham mutuamente inteligentes ainda que situadas em lugares diversos no espectro político. 
Dito isto, a ideia, outra, mais generosa, mais exigente, de que em se partindo para uma discussão de boa fé, susceptível de se ser convencido, se for caso disso, pela argumentação alheia, de explorar, até ao fim, todas as perspectivas e mudar se necessário, não tem aqui lugar, isto é, quando caminhamos no segundo ano da era Trump, nenhum dos eleitores, daquela espécie de focus group, fosse de esquerda ou de direita, quando questionado diretamente sobre o assunto, teria mudado o seu sentido de voto. Pelo menos, por agora - e parecem, mesmo, ter reforçado a sua posição de partida. A discussão, que juntou mais de dezena e meia de eleitores do Michigan, deu para cada um conhecer e reconhecer pessoas com uma ideologia diferente da sua, para ouvir outros argumentos (e quem sabe, pode especular-se, embora disso aqui não haja registo ou evidência, em última instância, se alguns destes não ficam a marinar em alguma das mentes, como que a um nível subconsciente para ser recuperada mais tarde, assim as circunstâncias a demandem), para fazer amigos, mas o que não deu, em todo o caso, foi para ser convencido de que o seu ponto de vista merecia uma revisão. Dito de outro modo ainda, mesmo que mais civilizada a discussão - enfim, o calor, nos vigorosos debates políticos, é grande nas redes sociais mesmo entre amigos, como reconhecem os participantes neste grupo do Michigan -, mesmo sem transformar a política numa arena ou batalha campal, em todo o caso não se imagine que teremos uma espécie de eleitores científicos e filósofos a escrutinar cada argumento e nuance para decidir o voto, só porque não bloqueia o amigo hooligan da facção contrária. Essa disponibilidade para a revisão é muito mais rara que certos discursos mais generosos e optimistas nos querem fazer crer.


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