domingo, 25 de fevereiro de 2018

Um espelho


Há uns tempos, numa sala do terceiro ano de escolaridade, assisti a uma cena deveras ilustrativa do modo como construímos, hoje por hoje, as nossas sociedades, e dos resultados a que se chega. 
A professora convidara os alunos a reelaborarem, em composição, uma narrativa previamente estudada em aula. Esta narrativa manifestava valores tidos como nocivos, pelo que os meninos eram desafiados a modificarem o núcleo essencial da intriga. 
Na fila da frente da sala, encontram-se três raparigas, muito próximas nas suas carteiras, nos gestos, nos risinhos que cheiram a cumplicidade, numa palavra, meninas com todo o ar de serem as melhores amigas (na turma). A docente promete um pequeno presente, um chocolate, para o melhor texto. Antes da sua decisão final, diz, quer ainda ouvir a opinião dos alunos, sobre o texto dos colegas de que mais gostaram. Após um generoso tempo dado à turma para a consumação da tarefa proposta, a leitura de cada composição é, então, realizada. Finda a mesma, os alunos pronunciam-se sobre a melhor composição. Uma esmagadora maioria, manifesta preferência pela redacção de uma daquelas meninas sentada na fila da frente (a que me referia acima), com as duas amigas ao lado. Estas últimas, por sua vez, "votaram" também na capacidade inventiva da colega. E, no entanto, assim que se percebe quem vai receber o pequeno chocolate - hoje em dia, já de si, uma pequena-grande heresia face às fervorosas campanhas pela saúde pública -, as duas amigas começam a chorar por causa da "vitória" da terceira. Então, não são amigas?!..., pergunta-lhes, de modo retórico, com manifesta perplexidade e desgosto, a professora. Num mal disfarçado ciúme e inveja, uma das, ainda há segundos, grande companheira da colega do meio, acusa-a de, ainda antes dos resultados conhecidos, ter sussurrado que o seu texto é o que está melhor; a colega que se encontra na outra ponta, chora apenas, não dando explicações, entre a sua incapacidade de aguentar não ter sido ela a vencedora - mais uma vez, dirá outra colega entre a desolação e a denúncia, ganha sempre a Manuela - e a má consciência que não quer expor dos verdadeiros motivos por que soluça. E a própria Manuela chora, porque as amigas choram porque ela ganhou, e amigas (a sério) não choram quando acontece coisa boa a uma amiga, elas zangam-se sempre comigo quando tenho o melhor teste, a melhor nota, chora a Manuela abandonada pela colegas, mas ainda porque não tem culpa de ter boas notas, bons testes, de quase sempre ser a melhor da turma, e vê como o mundo é injusto ao obrigá-la a escolher entre as amigas (será?) e a performance adequada na escola. 
Naquele momento, note-se, não se decidia uma passagem de ano, um quadro de honra, uma nota de um período, não era, sequer, um teste, estávamos perante uma composição, como tantas hão de surgir, e num terceiro ano de escolaridade. Pode, até, questionar-se a existência de um prémio, mesmo que com intuito motivador. Isso coloca, mesmo que uma mini, ínfima competição em cima da mesa (ou a ideia de que para fazer o que devem os miúdos precisam de prémios e incentivos). Mesmo que se considere que a crítica é pertinente, o resultado exacerbado mostra como só estamos prontos para ganhar; como ganhar, para nós, significa exclusivamente usar a primeira pessoa; como nada resiste a não ganharmos, mesmo uma amizade, já canibalizada aos 8 anos de idade. Não se ensina para acolher os limites, até porque estes limites foram eliminados de qualquer horizonte cultural. Sós para o sucesso, e pior, para o insucesso (inadmissível, impensável). Se há momentos em que faz falta o pregador este é um deles. Uma pessoa sai da sala sensivelmente estarrecido com o que ali vai como espelho do que fizemos.

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