sábado, 31 de março de 2018

A reivindicação dos sentidos

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Os movimentos de ascese, ao longo da história, tiveram como objectivo disciplinar os sentidos, equilibrar sentimentos, emoções, moderar o corpo que sempre queria gozar mais; hoje, a haver ascese, ela recuperaria, inversamente, a necessidade de sentir, dado o "estado de frigidez" em que nos encontramos, com os sentidos "paralisados e embotados", diagnostica, como observámos, Maria Clara Bingemer (entre outros; recorde-se o Tolentino que nos diz, há anos, "analfabetos dos sentidos" e tem procurado, sistematicamente, recuperar a específica importância de cada um deles; ou os mestres da psicologia que nos falam do afastamento da natura e dos constrangimentos motores que daí advêm, em crianças mais débeis e menos autónomas). Em Call me by your name, de Luca Guadagnino, no ocaso do filme, a antológica conversa do pai, Professor de Arte, com o filho, que descobrira o amor (pese a ambiguidade de relacionamentos que não deixa de permanecer até ao fim da película, fundamentalmente um amor homossexual), nos seus 17 anos, mais do que a "compreensão" face a um interdito (Itália, anos 80) - no que seria até banal, em especial hoje - relança esse topos da morte - de tantos - aos 30 anos, altura em que muitos já abdicaram de sentir, e nada, nem ninguém, de forte, os mexe (faz mexer), nem, tão pouco, nem sequer, a memória de um amor e desejo tão intenso - na inteligência e complexidade que assume, o diálogo do pai começa pela frase mais célebre de Montaigne sobre a amizade (citação que, no fundo, está presente no título da obra, e em alguns dos diálogos nele patentes) e prolonga-a para lá desta -, esse sentimento de estar vivo que pode passar tão rápido. Guarda bem essa memória, porque essa relação, esse encontrar, um dia, essa química, é tão rara, tomara eu ter passado por isso, porque ao lembrares-te dela vais querer manter a chama, vais querer, de novo, sentir, e sentir até ao fim. Uma conversa com carácter universal, para lá de uma concreta orientação sexual a partir da qual é lançada.
O filme evoca e capta os Verões longos, em que o tempo se detinha e não passava, em que o tédio ainda tinha tempo, ou tempo havia para tudo, da nossa infância. Um dos aspectos muito conseguidos, nele. Outro, passa pelo papel do não dito, da gestualidade, de um olhar, um toque breve, de uma insinuação, de um movimento que diz tudo sem palavras - dos filmes que tenho visto em que o não dito está mais presente e melhor é representado. Os jogos de amor (toda a descoberta de um primeiro amor), de ciúme, de provocação, de irritação, de adivinhação na atracção mútua, o xadrez do primeiro passo, do medo da negativa e da frustração, da mágoa, os limites do aceitável e de até onde ir ("ainda não fiz nada de errado", diz, no lago, Oliver a Elio), da vontade do corpo, do estar junto dos elementos: a àgua, o pêssego, a floresta, o passear, andar de bicicleta, o nadar no lago. O belo: da música clássica no piano, dos modelos e esculturas da antiguidade, da erudição - de quem faz do conhecimento um motivo maior. Uma envolvência de contenção, de justa medida, de zonas de fronteira e ambiguidade, de dúvidas, de saudade, de harmonia. Um belíssimo filme, em suma.

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