sábado, 10 de março de 2018

Cidadania e responsabilidade social (II)


António Sampaio da Nóvoa: cidadania tem a ver com direitos, deveres, decisão. Onde, quando, quem decide? Qual o nosso papel de decisão sobre as nossas vidas? Quem decide sobre economia? Inscrevermos a nossa posição da nossa decisão. Criar ambientes propícios à discussão, ao debate e à decisão sobre as nossas vidas. Muito trabalho a fazer em todos estes quadrantes. A organização das cidades: transportes, habitação, envelhecimento, energia. Qual o ambiente nas escolas e a universidade que permitam a participação, decisão, colegialidade. Ensaios de decisão política: Islândia a avançar mais do que noutros países, no envolvimento da sociedade neste domínio. A sociedade, hoje em dia, está a avançar mais rápido do que a política. Abrir novas formas de participação política, por parte da sociedade civil, como, por exemplo, candidaturas não partidárias à Assembleia da República. Fundamental, igualmente, afrontar o problema da qualidade da decisão para a cidade. Fundar espaços comuns de decisão. Comum, aqui entendido numa acepção muito particular: comunidade de relações e não de identidades. A qualidade da qualidade da decisão, neste momento, está ameaçada pela omnipresença do cibermundo. Preconceitos e reforço de crenças irracionais por esta via. No tópico da decisão, o conhecimento deve ser determinante (para que aquela seja bem fundamentada). Na base central dos processos de decisão deve encontrar-se a Ciência. Ciência, note-se, levada ao conjunto da sociedade (cultura científica) e que seja open Science. Tentativa de construir referências comuns. Hannah Arendt sistematizou a este propósito com pertinência ainda para a nossa sociedade.
A internet como lugar de fragmentação e isolamento e onde apenas vamos à procura dos nossos iguais, nos reforçam numa dada identidade. O problema da unanimidade é a falta de espaço. É importante combater o hiperindividualismo, egos permanentemente expostos. Afirmações individualistas, quando o nosso futuro deveria ir pela abdicação do retraimento das nossas responsabilidades sociais.

Pacheco Pereira: pessimismo na inteligência, optimismo na vontade deve ser a divisa que atenda à Lei de Murphy e a evite. A reflexão de Pacheco Pereira, a mais erudita da sessão, se assim o podemos dizer, retomando e sistematizando tópicos que tem trazido ao espaço público, focou-se na realidade do Ocidente deste final de segunda década do século XXI. Nunca como agora se assistiu a uma usura dos mecanismos democráticos. Aristófanes foi convocado, em uma das suas narrativas para nos levar à Agora dos mexericos (hoje, o facebook), da compra de votos, até ao Pnyx, onde a decisão política implicava e tinha consequências para quem decidia nessa Assembleia. Em se decidindo a guerra, imediatamente aqueles que a haviam decidido na Assembleia, nela estavam implicados. Uma experiência democrática irrepetida, com a única excepção do caso americano, onde os pais fundadores decidiram fazer um país by the book e, sendo literatos, estudaram, com afinco, a experiência ateniense. Ostracismo era uma pena política frequente em Atenas. Pena, não raro, dada a pessoas que fossem muito populares (a Assembleia discutia tudo, incluindo as questões judiciais). Menos que em Roma. Se esta experiência de uma democracia em que os cidadãos afectados estavam implicados nas decisões – mulheres, crianças, estrangeiros, escravos à parte – e isso parece ser sublinhado por diferença para o que se segue, os intelectuais de então, como Platão, detestavam a democracia. Esta era o poder da canalha, dos incultos. Perceberam que a democracia poderia estar próxima da demagogia. No nosso tempo, de resto, a Àgora manda no Pnyx. Assiste-se ao desprezo pelas mediações: família, Igreja sindicatos, partidos, etc. A antiga ignorância era humilde; a actual ignorância é agressiva [Isabel Estrada sublinhará que esta ignorância referir-se-á inclusive a pessoas com ensino superior que fazem do anti-intelectualismo uma marca]. Primado da lei. Silêncio. Não há nenhum argumento que passe num telejornal. Para haver um argumento são necessárias pelo menos três frases. Um igualitarismo cego ignora a necessidade do conhecimento, e reclama que quem não leu, não estudou, não viu se pronuncia em igualdade de circunstâncias com quem o fez.
Apesar de muito sms, há escassez de relações humanas. Quem manda no mundo são as máquinas, a partir do momento da completa fusão homem-máquina, em que o relógio, registando pulsações, indique e funcione como detetor de mentiras. Quem vai viver no mundo virtual serão os mais pobres. É outra droga.
O mundo dos jornalistas, que frequentam os mesmos restaurantes e bares da gente da jota e vivem encerrados num restrito mundo cultural, fez com que as pessoas que vivem nas Torres, com 8 andares, e que a primeira coisa que fizeram, com menos dinheiro, foi deixar de pagar o elevador, ficando encerradas em casa (nomeadamente, as mais idosas e com problemas de mobilidade), não merecessem um único minuto em televisões ou jornais. Ou o caso da operária que, em ficando desempregada, passa a dona de casa. Idas ao cabeleireiro, ao café vão-se e como isto afecta a pessoa. Tudo passou ao lado das notícias, por falta de mundo de quem as faz, edita, selecciona. 

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