quarta-feira, 7 de março de 2018

"Civilização - Homem: a medida de todas as coisas"




Segundo Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”. Esse ideal foi (re) apropriado pela Renascença, um período ligado a Florença, aos banqueiros, aos comerciantes de lã, aos devotos realistas que tinham fortes que confinavam e se defendiam de ataques do povo, ou dos feudos. A arte que sairá deste período, luminosa, será a antítese do estilo que a precede, o gótico. Nada explica melhor a relação entre o estado da mente e a explosão da civilização do que a Florença de 1400. A luz, a ausência de excessos, a harmonia – eis um novo estilo. Para Kenneth Clark, trata-se da invenção de um indivíduo, Brunelleschi. Mas não sobreviveria, esse estilo, se não correspondesse às necessidades de um dado tempo – como esta correspondeu à dos homens abertos e brilhantes da cena florentina do séc.XV, no momento em que a disciplina bancária e comercial mais austera começava a atenuar-se. E a vida – o uso completo das faculdades humanas – tornou-se mais importante do que ganhar dinheiro. Enquanto a arquitectura dirigida a Deus, do período anterior, procura fazer-nos pequenos diante de semelhante magnificência, esmagando-nos, aqui tudo se ajusta à escala das necessidades humanas razoáveis. O seu intuito é tornar cada indivíduo consciente dos seus próprios poderes, como um ser moral e intelectualmente completo. A “dignidade do homem”. Hoje, não chegamos a pronunciar estas palavras, mas na Florença do séc.XV o seu significado ainda era fresco e revigorante. Manetti, um humanista da segunda geração, escreveu, mesmo, um livro intitulado “Sobre a dignidade e excelência do Homem”.
Se a Idade Média, muitas vezes mais do que se pensava, recuou às fontes clássicas greco-latinas, todavia fê-lo com base em interpretações fantasistas, em textos em mau estado, sem conhecimento adequado do que citava. Petrarca terá sido dos primeiros a mudar este paradigma, para um outro muito mais conhecedor dos antigos. Petrarca, contudo, nunca aprendeu grego, ao contrário de Boccaccio, introduzindo no pensamento florentino uma força regeneradora. Os primeiros 30 anos do séc.XV foram um período heróico de erudição, quando trabalhos, até então desconhecidos, de Platão, Tácito, Cícero e muitos outros, foram descobertos em bibliotecas monásticas. E foi para proteger possíveis achados que Cosimo de Médici construiu a Biblioteca de S.Marcos.
A luz que emana da arte deste período pretende fazer jus à luz da inteligência humana, e quando a contemplamos – a esta arte – não é difícil acreditar no Homem. Clareza, economia, elegância – qualidades que distinguem um teorema matemático. E não há dúvida de que a mais antiga arquitectura renascentista baseia-se numa paixão pela matemática, especialmente pela geometria. Claro que os arquitectos góticos se baseiam na geometria também, mas os projectos eram extremamente complexos, tão elaborados e lógicos como a filosofia escolástica. No caso renascentista, esta ideia de proporção matemática é aplicada ao corpo, como se uma peça encaixasse logicamente na outra.
A perspectiva como símbolo também da importância e real valor do homem é agora sublinhada pela arte. Os arquitectos desenham então cidades perfeitas, harmoniosas, Alberti escreve sobre a necessidade de praças públicas para distrair os rapazes das traquinices próprias da idade. O início do Renascimento florentino era uma cultura urbana. “Um bom florentino está sempre nas lojas”. Vasari viu no espírito crítico, próprio de Florença, uma energia de recusa da mediocridade. Apesar das comparações, enquanto os atenienses estavam mais interessados em discutir filosofia, os florentinos estavam mais ocupados a ganhar dinheiro. Eram realistas, curiosos, muito inteligentes e com uma enorme capacidade de dar a ver o seu pensamento (com a arte). Como os atenienses, os florentinos amavam a beleza. Donatello prestou um ainda mais direto tributo ao antigo conceito de beleza, no seu bronze de David. O corpo é quase perturbadoramente físico. A exploração da personalidade, por Van Eyck ia além do rosto. O senso florentino de beleza é em Boticcelli que surge mais desenvolvido.
Poliziano tentou conciliar os filósofos gregos tardios, neo-platónicos, pagãos, com o cristianismo.
A descoberta do indivíduo ocorreu na Florença do séc.XV: é um facto indiscutível. Boas maneiras foram uma criação de Urbino. Jovens eram encaminhados para estas cortes, onde eram ensinados a ler os clássicos, a caminhar com elegância, a falar baixo, a praticar desportos sem gozar e chutar a canela dos outros, a comportar-se como um cavalheiro. O cavalheirismo ganhou desenvolvimento e estatuto bem presentes no livro Il Cortigiano – O cortesão – de Baldassare Castiglione. Um livro com imensa influência, sendo livro de cabeceira de Carlos V. Durante 100 anos, foi por ele que todos se regeram quanto às boas maneiras. Não inferiorizar os outros, não ferir os seus sentimentos, não se exibir, não ser um materialista frívolo – eis algumas das suas divisas. A corte de Urbino foi um dos pontos altos da civilização, tal como, ainda que em menor medida, a de Mântua.

Sem comentários:

Enviar um comentário