domingo, 18 de março de 2018

Da importância das encíclicas


Como diz Vittorio Alberti, no livro-entrevista com Peter Turkson (Corrosão, 2018), "as encíclicas (...) deveriam ser estudadas e criticadas sem preconceitos intelectuais", sendo que o Cardeal, naturalmente, corrobora - "as encíclicas constituem importantes documentos para compreender o mundo" (p.100). Ora, como já aqui se observou, os mais recentes livros dos filósofos Luc Ferry e Roger Scruton citam, e pronunciam-se, respectivamente, sobre encíclicas de Bento XVI e João Paulo II. A ideia de que grandes intelectuais, fora do mundo eclesial católico, não estão atentos a tais documentos é errada - talvez nesse mundo eclesial católico é que falte tal leitura. Agora, no primeiro número da revista Electra, dedicada às artes, ao ensaio, à procura de compreender este tempo sendo seu contemporâneo, uma das entrevistas inaugurais é com a filósofa Débora Danowski e "um dos antropólogos mais influentes do mundo", Viveiros de Castro. Ora, também eles se pronunciam com manifesto conhecimento de causa sobre a mais recente encíclica do Papa Francisco.


Andrea Cavalletti: Há dois anos, o Papa fez uma intervenção com a encíclica Laudato Si; pouco antes tinha aparecido o Manifesto Eco Modernista. Tratam-se de documentos muito diferentes...

Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro: De facto, muito diferentes, opostos até, e em todos os aspectos. O Manifesto Eco Modernista prega um «capitalismo pós-industrial e vibrante», com soluções tecnológicas centralizadas e um pesado investimento material e energético (fracturação hidráulica, centrais nucleares, grandes projectos hidro-eléctricos, monoculturas de vegetais transgénicos, geoengenharia ambiental, etc.). Enquanto a Laudato Si propõe um «regresso à simplicidade», «um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco», em oposição ao consumismo e à alucinação de um «crescimento infinito ou ilimitado», em suma, a «convicção de que small is beautiful», os autores do Manifesto afirmam que big is beautiful: em vez de diminuir, abrandar, devemos produzir ainda mais, ir mais depressa, inovar, crescer sempre e prosperar; sem hesitações, sem vergonha, sem arrependimentos. Enquanto a encíclica nos alerta para o perigo de tomar o desenvolvimento tecnológico e o crescimento económico como um «paradigma homogéneo e unidimensional» e, fazendo eco dos protestos dos climatologistas e de outros cientistas, insiste na importância do princípio de precaução; enquanto fala de limites planetários e relembra a urgência de uma travagem radical de práticas ecologicamente irresponsáveis (as quais permitem lucros enormes destruindo culturas e modos de vida pelo mundo inteiro, devastando ecossistemas e contaminando «a nossa casa comum»), os autores do Manifesto, bem pelo contrário, acreditam que, desde que prossigamos a nossa fuga para a frente, «modernizando a modernização» (para falar como Ulrich Beck), não teremos nada a temer: a mesma tecnologia que hoje nos envenena acabará por corrigir - nunca se chega a perceber como - esses «danos colaterais», essas «externalidades», e servirá para alimentar luxuosamente os 10 mil milhões de pessoas (humanas, claro; nem se fala dos outros milhares de milhões de seres vivos) que povoarão o mundo em meados deste século. Desta forma, crêem eles, poderemos garantir a «todos» (talvez aos 1%) um «Bom», talvez mesmo um «Grande Antropoceno», no qual poderíamos continuar a viver não apenas como hoje se vive nos países desenvolvidos, mas espalhando essa abundância por todos os povos do mundo. Enquanto a encíclica tem em consideração a imensa diversidade de culturas e formas de vida, os ecomodernistas só vêem uma via para todos. E, no entanto, como se pode ler na Laudato Si: «nem mesmo a noção da qualidade de vida se pode impor, mas deve ser entendida dentro do mundo de símbolos e hábitos próprios de cada grupo humano». Por fim, ao passo que a encíclica repete várias vezes que tudo na natureza tem um valor intrínseco e, mais do que isso, está ligado, os autores do Manifesto saíram-se com este conceito bizarro de «desacoplamento» (decoupling), segundo o qual a tecnologia (para eles, só existe uma Tecnologia, a «de ponta», ou seja, a que se funda na Big Science e no grande capital internacional) atingirá daqui a alguns anos um estado óptimo, reduzindo praticamente a zero os seus custos materiais e os seus impactos ambientais. 
Assim, não é por acaso que os autores desse documento acusaram Francisco de ser «um papa contra o progresso», ao mesmo tempo que denunciam a «tendência religiosa» dos discursos dos ecologistas, tais como o «pecado», a «redenção» e o catastrofismo apocalíptico face às alterações climáticas. Ora, não se percebe bem como é que o autor de uma encíclica que acolhe o consenso científico acerca do mais grave desafio jamais enfrentado pela espécie humana, o Antropoceno, pode ser acusado de ser «contra o progresso». A não ser, claro, que por «progresso» se entenda o whishful thinking tecnófilo dos autores do Manifesto. Feitas as contas, parece-nos que são eles que, como bons cristãos, acreditam que depois do Apocalipse virá o Reino de Deus.

Déborah Danowski Eduardo Viveiros de Castro, O fim de um mundo não é o fim de tudo, Electra, Fundação EDP, Março 2018, pp.97-98. 

2 comentários:

  1. Olá! De que forma posso ter acesso ao texto completo? Seria bastante importante para minha pesquisa!

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  2. Viva! Deixei as duas referências bibliográficas no corpo do texto (Corrosão, Paulinas, 2018) e a revista Electra, Fundação EDP, 2018. No que concerne a Luc Ferry, também neste blog havia já dado conta de como ele, ainda que de modo breve, comenta uma das encíclicas, no seu último livro publicado em Portugal ("7 lições para ser feliz ou o paradoxo da felicidade", Temas e Debates, 2017) e de Roger Scruton o título é "A natureza humana", Gradiva, 2017, livro no qual também comenta uma encíclica de João Paulo II. E referência a qual sublinhei, igualmente, neste blog. Um abraço e obrigado pelo comentário.

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