sexta-feira, 16 de março de 2018

De passagem pelo quiosque


Há dias, num quiosque muito estreitinho, estreitinho mesmo, da cidade, zona pouco convidativa a multidões de clientes pararem por largos minutos, adquirindo a revista de informação semanal, olhava as prateleiras, quando o jovem empreendedor, simpático e sempre disponível, como lhe compete, a vender mais uma publicação, me pergunta se eu queria um dos jornais económicos que estavam disponíveis. Há já bastante tempo comprara, ali, o Negócios, ou o Económico, e o gesto, de tão extravagante, percebi, ficara retido na memória do vendedor. Eu devia ter aparentado, mesmo sem o fato da ordem e a pose de estado correspondente, pertencer à banca, aos seguros, à advocacia dos negócios. Debalde lhe diria que, mesmo em comprando os económicos - nos dias em que reclamam a minha atenção - não é ao PSI que se dirige o meu desejo, o meu interesse, ao ir buscar a página certa. Quase sempre uma entrevista, um autor de que gosto, ou quero passar a conhecer (ou conhecer melhor), um tema do mundo em mutação. Ficaram-me na memória e nos hábitos/consumos, ainda dos bancos da universidade, as entrevistas intimistas, bem feitas, de Anabela Mota Ribeiro, no Jornal de Negócios, de Pedro Santos Guerreiro, às sextas. Mas, naquela exígua prateleira passava os olhos pelo número mais recente da National Geographic, apenas isso. Ah, sabe, essas revistas mando vir, mas no fundo são para mim. Ninguém as compra. Se eu tivesse dinheiro, comprava todos os números. Surpreendente confissão, carregada de candura: fazemos as contas ao Euromilhões, aquisições e (nova) vida à grande e à francesa que se seguirão, e, de repente, todo o sonho de riqueza desagua na hipótese de coleccionar, na íntegra, a National Geographic. Uma biblioteca, sim, todos os livros do universo que ficaram sine die, com certeza, mas a National Geographic. Também há poucas semanas, brincava com a ideia de retiro - explicava-a e provoca - a uma dúzia de adolescentes: uma semana sem telemóveis e computadores? Credo! Não aguentava!, diz-me a Rita. Ai eu, aguentava, retorquiu a Matilde, desde que tivesse ao meu lado uma bola de básquete. Pedi-lhe que mantivesse a sinceridade - desde logo para com ela própria - para o resto da vida, e que não admitisse ser sonâmbula resposteira de respostas pré-confeccionadas (o Tolentino, o sábio)p sobre o que lhe interessa e ama. O que há no jogo, numa bola de básquete, ou nas revistas National Geographic que podem captar e investir toda a nossa atenção, e entusiasmo - seria nessa indagação que veríamos, ainda, resplandecer um excesso onde menos se espera. 

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