segunda-feira, 19 de março de 2018

DESAPRENDEMOS DE SENTIR. E A EXTINÇÃO DO DESEJO


Talvez nos surpreendamos com o estado de frigidez em que nos encontramos e como os nossos sentidos  estavam paralisados e embotados, incapazes de exercer-se e exercitar-se para realizar a única função que lhes é própria: sentir. A nossa sociedade parece anestesiada, parece haver desaprendido a sentir. Enquanto a ascese clássica ensinava a disciplinar um corpo que parecia querer sentir e gozar demais, agora talvez a ascese necessária seja aquela cujo objectivo consiste em reaprender a sentir e a gozar. Reaprender a ouvir os ruídos da natureza e a boa música; a ver a infinita gama de cores das árvores, dos pássaros e do mar; a sentir os odores do primeiro café da manhã, do azeite que aquece na cozinha para preparar o alimento, da terra molhada depois da chuva; a degustar um pão puro sem manteiga e que alimenta com o seu trigo básico; a sorver com delícia um copo de água fresca num dia de calor; a tocar no pelo do animal de estimação e sentir-lhe a maciez; e, mais que tudo, tocar no corpo dos seres queridos com abraços, beijos, mãos entrelaçadas, sentindo a comunhão na carne, que simboliza a do espírito.
Por tudo isto, vemos que estamos numa cultura em recesso de desejo. Dentre os muitos medos que invadem e enchem a nossa cultura, talvez um dos maiores seja o medo diante da ameaça da extinção do desejo. Trata-se do medo de uma impotência feita de desinteresse progressivo, de um fracasso de potência e de capacidade de experimentar a dilatação interior - às vezes, dolorosa, mas sempre exaltante - que o desejo provoca.

Maria Clara Bingemer, Experiência de Deus na contemporaneidade, Paulinas, 2018, p.22. 

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