quinta-feira, 29 de março de 2018

MISTÉRIO


O Mistério, em sentido teológico, contém em si a ideia de uma comunicação de Deus com a humanidade e de uma iniciação do ser humano nos desígnios de Deus, na sua ação e no seu ser. Segundo o Novo Testamento, o Mistério conjuga em si duas polaridades aparentemente opostas: é escondido e manifestado, dá-se no tempo, mas introduz a eternidade nesse mesmo tempo, inaugurando dentro da história um tempo novo, um Kairos. Para a fé cristã, o lugar onde esse Mistério chega à sua plenitude e manifesta a sua glória é Jesus Cristo. Ele é o mediador do Mistério enquanto revela aos seres humanos o seu chamamento à comunhão em Deus e os faz entrar nesta comunhão
Plenamente revelado em Cristo, o Mistério é conhecido e vivido pela comunidade que nele crê e o segue. Por isso o Mistério implica uma mística. Produz no fiel uma luz e uma força que o investem, o envolvem e passam além da sua medida. Mas que, igualmente, o introduzem num movimento de gratidão e reconhecimento e de amor efectivo a exemplo de Jesus Cristo e em comunhão com ele. Não se trata, portanto, em primeiro lugar e sobretudo, de um evento fora do comum, mas de uma acção do Espírito de Deus que transforma o ser humano interiormente, fazendo habitar nele Jesus Cristo, enraizando-o e fundando-o no amor. (...)
Ele [o Mistério] se cumpre e plenifica em Cristo e na Igreja, que lhe está incorporada. E, assim sendo, atrai gratuitamente o ser humano com um poder de sedução que tem, sim, um componente erótico, mas sobretudo agápico. Ágape significa aí, sobretudo, amor de gratuitidade. Mistério de amor e graça, inútil e ineficaz aos olhos humanos, mas fundamental para a vida que não morre e é plena, desejo maior do coração humano.

Maria Clara Bingemer, Experiência de Deus na contemporaneidade, Paulinas, Prior Velho, 2018, pp.112 e 113.

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